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terça-feira, 2 de maio de 2023

Os políticos não são todos iguais.

Andei afastado da minha residência por uns dias, fruto de uma semana de pausa letiva que como professor tive direito! Eu, e muitos milhares por esse país fora. Nestas alturas de pausa letiva só estão normalmente na escola alguns professores que fazem parte das direções. A carreira docente é mal paga, é pouco reconhecida, mas ainda tem muitas coisas que eu aprecio, e esta é uma delas, ter uns dias de pausa na altura do Natal, outros na Páscoa… no verão a história já é outra, pelo menos no que me diz respeito. Chegado à casa, e perdoem-me esta acentuação, mas foi uma das coisas que me ficou de Coura, lá encontrei o nosso jornal no meio de tantas encomendas e correspondência. Já o esperava, ele chega sempre dois dias antes da mensagem da Gorete a alertar para o prazo de envio da minha crónica, e a mensagem já me tinha sido entregue! Como é costume, só comecei a pensar num assunto quando o prazo de envio se aproximou e desta vez fui salvo pelo próprio Notícias de Coura, que trazia uma notícia “Via Verde de Vítor”, sobre a qual não posso deixar de escrever algumas coisas.

Melhor do ler a entrevista ao Presidente Vítor Paulo, é conseguir ouvir a sua voz em todas as palavras, e mais, se tirassem da entrevista todas as referências geográficas, políticas e pessoais, quem o conhece não teria dificuldade em reconhecer as suas palavras. O Vítor é mais do que o Presidente da Câmara de Coura, é um Courense, apaixonado pela terra, que está no lugar de Presidente, e isso faz toda a diferença. Muito antes de ir para Coura, e sem saber muito bem onde ficava, já tinha ouvido falar da terra, por causa do Festival. Hoje, que já lá não estou, continuo a ouvir referências ao festival, mas ainda há dias ouvi uma pessoa dizer “não é lá que fizeram uma fábrica de vacinas?”. Por vezes, lá vemos ou ouvimos os responsáveis autárquicos Courenses num programa de televisão ou rádio a promover os eventos e os produtos da terra. A gestão política atual da autarquia não precisa de discursos nem de apoios escritos, à população basta olhar à sua volta, ver e sentir para perceber se está ou não bem entregue, e a nível local o povo normalmente vota nas pessoas e não nos partidos. E tem votado bem, muito bem.

Falar de obra nesta altura é muito mais do que falar da inauguração recente da ligação à autoestrada A3. Ela vai ser útil sobretudo aos parques empresariais. Quem vai a Coura ao festival rock, ao mundo ao contrário, à feira mostra, à feira da truta e até ao Fitavale, não vai deixar de ir só pelo facto de não ter autoestrada. Acredito que em Coura não aconteça o que se passa em muitas outras terras do nosso país, chega a autoestrada, e em vez das pessoas virem, vão embora.

Diz Vítor Paulo ao filho que “O mundo não pertence aos fortes, mas aos fracos com capacidade de adaptação e que lutam sempre”, e tem sido este espírito que tem levado Coura a um patamar atingido por muito poucos. Há terras com orçamentos dezenas de vezes superiores e que não têm uma escola como a que já foi minha, não têm um Centro Cultural, não têm uma agenda cultural diversificada e permanente ao longo do ano e, acima de tudo, não têm gente que ame tão fervorosamente a sua terra como os Courenses.

Coura tem a sorte de ter um Vítor Paulo genuíno, e uma equipa autárquica capaz de dirigir a terra com ousadia, com esperança, e sobretudo com amor. É por eles que posso dar o título que dei a esta crónica.

Sobre os Courenses, termino com uma frase que ouvi ao Senhor Janeca numa noite, no Centro Cultural, “Eles podem-nos comer, mas não nos vão conseguir c@g@r!”

Crónica publicada na edição 454 do Notícias de Coura, 25 de abril de 2023.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A terra amada.

Esta é uma crónica que há muito tinha vontade de escrever, e que há muito merecia ser escrita. 


Com mais de 16 mil membros, o grupo do facebook Paredes de Coura “terra amada” é um gigantesco baú das “coisas da terra”. Por lá se divulgam os eventos, as notícias, os avisos mais urgentes, desde um cão que fugiu da casa dos seus donos, até às chaves que foram encontradas num dia de feira e deixadas no café ou na pastelaria para serem entregues a quem provar ser o seu dono. Desde há uns anos, com a massificação da Internet e das redes sociais todos somos “divulgadores de informação”, todos nos achamos no direito de dar a conhecer o que se passa à nossa volta, todos nós somos aquilo que muitas vezes criticamos, nomeadamente ao “Correio da Manhã”, as coisas acontecem e nós publicamos e partilhamos para que rapidamente a notícia se espalhe. Por vezes isto pode ser mau, às vezes não corre muito bem, mas na verdade, é fantástico aceder à informação quase no momento em que a mesma nasce. 

Mas mais do que um diário vivo da terra, uma exposição das coisas do dia-a-dia, o grupo Paredes de Coura “terra amada” é um gigantesco álbum de memórias. Talvez só daqui a muitos anos os jovens de hoje lhe consigam dar valor, nos dias de hoje são os pais e os avós que muitas vezes se encantam com o que lá se publica. 

Gerir um grupo destes não é fácil, e dá imenso trabalho, acreditem, há quem pense que alguns dos administradores trabalham para o grupo… e trabalham é certo, mas não é por dinheiro, é por algo bem mais difícil de quantificar, é pelo amor à terra. De quem administra este grupo só me atrevo a falar de dois, a Cecília Pereira e o Flávio Rodrigues. Vou começar por falar da Cecília, e isto para ver se ela me perdoa um considerável número de “cachaços” que me prometeu dar! A preocupação da Cecília em publicar todas as festas e encontros, todos os eventos, espetáculos, acontecimentos e notícias é de louvar, algumas vezes até ficava triste quando havia “coisas” ao mesmo tempo e ela só conseguia registar uma delas. Fazia falta uma Cecília em cada freguesia, com o mesmo empenho e dedicação. Nalgumas das suas reportagens podia-se ler: “Cecília Pereira publicou 478 fotografias”, e pensava eu: “Mas eu não tenho paciência para as ver todas!” Pois não, eu não tenho agora, mas se no meu tempo houvesse facebook, e houvesse lá na terra uma Cecília que tivesse publicado 478 fotografias do desfile de carnaval de 1984, em que eu fui mascarado do cowboy, podem ter a certeza que eu ia ver fotografia a fotografia, e tentar recordar aquelas gentes, tantos e tantos já desaparecidos, aqueles que só podemos recordar na memória. Daqui a 30 ou 40 anos, se ainda existir facebook, acredito que muitas das crianças de hoje vão perder umas horas a vasculhar nas entranhas do grupo, procurar talvez as fotografias do baile de finalistas e mostrar aos vossos filhos e aos vossos netos. Vocês não têm bem noção da sensação, mas perguntem aos vossos pais e aos vossos avós o que sentem quando veem as fotografias de quando eram jovens! 

Do Flávio Rodrigues só posso dizer duas ou três coisas, vi-o e falei com ele, se não me falha a memória, apenas duas vezes. Não é preciso mais nem muito tempo para se perceber quando se está na presença de uma pessoa simples, genuína e sincera. Emigrante no Canadá, deve ser raro o dia em que o Flávio não publica uma fotografia da sua última vinda a Coura, uma fotografia de uma memória do seu passado, e até notícias da sua terra, que muitas vezes parecem chegar ao Canadá antes de quem cá está delas ter conhecimento. Mas mais do que as publicações diárias, reconhece-se nas publicações do Flávio, e nas de mais ninguém, o verdadeiro amor que tem a Paredes de Coura, um amor que só sente quem deixa a sua terra, um amor definido por uma palavra que dizem ser só portuguesa: saudade.


Crónica publicada na edição 399 do Notícias de Coura, 1 de dezembro de 2020.



segunda-feira, 15 de junho de 2020

Parabéns Notícias de Coura!

Apesar de ter sido escrita em cima do prazo limite de envio, o que já é habitual, desta vez não tenho desculpa na busca de assunto para esta crónica, uma vez que foi o próprio Diretor do jornal a sugerir-ma! Na altura de me lembrar de que este seria mais um fim-de-semana em que uma das minhas obrigações seria a de escrever o meu texto, é-me também lembrado de que, nesta edição, o Notícias de Coura celebra 17 anos. Sem que isso se revele como uma sugestão obrigatória, sou eu próprio que me aproveito da mesma e declaro: “Caro Tinoco, poupa-me ao esforço de pensar noutro assunto, obviamente que vou aproveitar a data para escrever sobre a mesma!” Entretanto, lembro-me agora de outra benesse desta lembrança, as últimas duas crónicas foram escritas num estado de espírito nada aconselhável, tudo o que liberte o autor desse tom, é vantajoso. 

Vamos lá então tentar dar os Parabéns aos 17 anos do Notícias de Coura, jornal que conheço apenas há cerca de 13! 

Cheguei a Paredes de Coura em 2006, não me lembro bem de quando comecei a ler aquele que na altura era “um dos jornais da terra”, mas lembro-me perfeitamente de a certa altura ter lido e não ter gostado. Na altura ainda era um jovem, o coração ainda mandava mais que a razão, e escrevi zangado à redação do Notícias de Coura manifestando a minha indignação sobre o título de uma notícia. Uns dias depois recebo um telefonema do seu Diretor, provando-me certamente a minha falta de razão, mas garantindo-me que o meu texto seria publicado, porque o Notícias de Coura dava sempre voz aos seus leitores, independentemente de falarem bem ou mal do jornal. Na altura ouvi, não esqueci, vim a perceber anos mais tarde o sentido daquelas palavras. 

Uns anos depois recebo um telefonema do Diretor do Jornal convidando-me a ser correspondente do jornal. Na altura nem me lembro bem do que senti, apenas de ter perguntado: - E posso escrever sobre o quê? E lembro-me bem da resposta: - Escreve sobre o que quiser. 

Até hoje, 95 crónicas depois, sempre escrevi o que bem me apeteceu. Como os leitores bem sabem, ando muitas vezes até à última em busca de assunto, mas sempre me salvei, quer por algum talento pessoal, quer muitas vezes por meros acasos que me batem à porta e me “oferecem assuntos” sobre os quais sou capaz de exprimir meia dúzia de opiniões. Muitas das minhas crónicas podem ter conotação política, mas isso nunca foi um inconveniente. Politicamente já tive oportunidade de esclarecer muitas vezes que “não me sinto carneiro de nenhum partido”, sinto-me livre de exprimir a minha opinião seja a favor ou contra que partido for. Lembro-me de em criança andar numa campanha de Cavaco Silva (ainda hoje me apetece bater na criança que fui!), festejei com alegria quando Mário Soares foi eleito Presidente em 1986 (percebi anos mais tarde a razão), fiz 500 km num dia para votar em José Sócrates, 800 km num outro para votar em Mário Soares (embora sem sucesso), e até numas eleições autárquicas em Paredes de Coura votei em 3 partidos políticos diferentes (sabem bem que nestes casos, a pessoa é quem mais importa). Como podem ver, sou um camaleão político, e com direito à sua livre opinião numa página de um jornal. 

E não foram apenas nestas crónicas da “sombra das palavras” que fui um escritor livre, ao longo dos últimos anos tive oportunidade de colaborar com este jornal em assuntos relacionados com a educação e com o teatro. Várias foram as vezes em que me foram confiadas as missões de falar sobre a abertura de vários anos letivos, a municipalização da educação, as atividades daquela que ainda é a minha escola, bem como sobre as peças de teatro do Mais Teatro Amador Courense. Ao longo destes anos vi sempre no Notícias de Coura preocupação em divulgar as atividades culturais da terra. E se mais não divulgam, deixem-me que vos diga, é por nossa culpa. Sempre que houve desejo em publicar notícias sobre educação ou teatro, o Notícias de Coura esteve sempre disponível. 

Esta é a minha crónica número 95, vai sair na edição 388, a primeira saiu na edição 215, em 23 de outubro de 2012. Já são quase 8 anos de um compromisso que muito me honra e satisfaz. Os planos são chegar à 100! Depois, e enquanto acharem que mereço, será um prazer continuar. 

Parabéns a todos quantos tornam possível a existência de um jornal regional durante tantos anos. Obrigado Tinoco por me ter proporcionado esta obrigação, que cumpro com grande satisfação. 

Muitos Parabéns Notícias de Coura!

Crónica publicada na edição 388 do Notícias de Coura, 09 de junho de 2020.



quarta-feira, 1 de abril de 2020

Fechados

Assim estamos, fechados. Alguns de nós, muitos não o podem fazer, há trabalhos que simplesmente não se podem parar, quer seja pela sua importância (médicos, enfermeiros, forças de segurança), quer seja pelo facto de ser a única fonte de rendimento que muitas pessoas têm. 
Escrevo esta crónica no meu 4.º dia de clausura, após o anúncio por parte do 1.º Ministro António Costa de uma série de medidas para travar o avanço da Covid-19. Gostei de o ouvir, mas devia ter ido um “poucochinho” mais longe, e devia tê-lo feito há mais tempo. Estar fechado em casa não é para mim um grande sacrifício, mas ainda que o fosse, a minha obrigação é cumprir. Hoje é o dia em que ocorreu a primeira morte em Portugal provocada pela Covid-19. Ontem tive oportunidade de ouvir uma entrevista de um médico que afirmava que a situação é muito mais grave do que aquilo que se ouve na comunicação social. Afirmou que as pessoas podiam esquecer o europeu de futebol e os jogos olímpicos, e que este ano não haveria mais escola para ninguém. A situação está a entrar numa fase em que já não interessa saber a origem da infecção, já se perdeu o controlo à expansão da doença, devemos ficar em casa, tratar os sintomas e só mesmo em último caso ir às urgências. O Serviço Nacional de Saúde poderá entrar em colapso em poucos dias, e com a falta de ventiladores caberá aos médicos “escolher” quem salvar. São momentos terríveis os que vivemos, e ainda há dois meses a Diretora Geral de Saúde, Graça Freitas, declarava que “não havia grande probabilidade de chegar um vírus destes a Portugal”. Ainda hoje, Marta Temido, Ministra da Saúde, apelou aos portugueses que reflictam sobre os seus comportamentos, e bem. Não esteve bem quando os mandou trabalhar, lembrando que “os Ingleses também não deixaram de trabalhar quando estavam a ser bombardeados na 2.ª guerra mundial”. Obviamente que a Senhora está a fazer o melhor que sabe e pode, mas é em situações destas que se exigem ministros com experiência e sentido de Estado, infelizmente são poucos neste executivo. 
Entretanto, o Senhor Presidente da República voltou a dar sinal de vida. Afirmou ter estado a acompanhar a situação minuto a minuto e declarou que vai reunir o Conselho de Estado para daí a 3 dias. Neste país nunca nada é para já, nem numa situação destas. Decide-se numa quinta-feira o fecho das escolas, mas só para segunda-feira. A Assembleia da República tem de reunir para aprovar a dispensa do visto do Tribunal de Contas para a compra de material médico urgente (máscaras, luvas, ventiladores), decide-se ao sábado, marca-se o plenário para quarta-feira. O Presidente da República tem de reunir o Conselho de Estado para a hipótese de se declarar o estado de emergência, sabe-se no domingo que só acontecerá na quarta-feira. “É para amanhã, deixa lá não faças hoje, que amanhã tudo se há-de arranjar.”
No dia em que escrevo esta crónica, Portugal tem 331 casos confirmados, 1 morte, 3 recuperados e 2908 casos suspeitos. Quando daqui a uma semana o jornal vos chegar às mãos estes números serão superiores, muito superiores. 
Não sei o que aí vem. Mas sinto medo, não especialmente por mim mas principalmente pelos que me são mais queridos. Portugal vai passar por dificuldades, e muitas, a situação que enfrentamos exige de todos uma atitude de responsabilidade e respeito, por nós e pelos outros. Este vírus coloca em perigo qualquer um, independentemente da raça, do estatuto ou da riqueza, todos estamos expostos, para ele, somos mesmo todos iguais.

Sejamos iguais na luta.

Crónica publicada na edição 383 do Notícias de Coura, 24 de março de 2020.



terça-feira, 17 de março de 2020

O aeroporto

Escolher o tema para a presente crónica foi relativamente fácil. Ainda estive para falar no desalento de Vitalino Canas, que depois de afirmar estar a preparar-se há 40 anos para ir para o Tribunal Constitucional, viu o seu nome ser chumbado pela Assembleia da República, e pior, nem sequer teve os votos dos deputados do seu partido. Também me ocorreu falar da “tragédia” que se abateu sobre as equipas portuguesas de futebol na Liga  Europa, quatro equipas em competição, todas eliminadas. Assim se vê o “tamanho” do nosso futebol na europa, cá dentro é que todos lhe dão demasiada importância. Descartados estes dois temas, resta-me falar do Aeroporto.

Há anos que se fala na necessidade de Lisboa ver alargada a sua capacidade em receber voos de todo o mundo. O Aeroporto Humberto Delgado está há anos esgotado, embora esteja quase sempre em obras de alargamento não consegue responder às necessidades turísticas que o país enfrenta. (Digo o país mas, é Lisboa e pouco mais). Já se fizeram muitos estudos sobre a localização ideal de um novo aeroporto que possa servir de apoio à capital, os interesses envolvidos são imensos, e cada um, quer seja município, empresa, político, apresenta os argumentos que bem entende para defender a sua posição.
A opção do Montijo foi “obra” lançada pelo governo de Pedro Passos Coelho. Nessa altura, houve a preocupação de tentar chegar a um acordo com as câmaras municipais da margem sul. Tal não se concretizou pois as câmaras socialistas recusaram assumir um compromisso antes das eleições legislativas.
Já no governo de António Costa, o projecto é abraçado e visto como a única alternativa. A oito de janeiro de 2019 a ANA-Aeroportos de Portugal e o Estado assinam o acordo para a expansão da capacidade aeroportuária de Lisboa, num investimento de 1,15 mil milhões de euros, e onde se inclui a abertura do Aeroporto do Montijo à aviação civil. Houve quem estranhasse como podia o Estado assinar um compromisso desta magnitude sem saber o resultado do Estudo de Impacto Ambiental, obrigatório neste tipo de obras. Mas que assinou, assinou. O referido estudo só passados seis meses foi publicado e colocado para consulta pública. A 30 de Outubro, a APA-Agência Portuguesa do Ambiente deu parecer favorável condicionado ao novo aeroporto, mediante um conjunto de contrapartidas com valores que rondam os 50 milhões de euros. Enfim, tudo a correr bem ao governo, o palpite de que o estudo de impacto ambiental seria favorável foi certeiro!
Será que é desta? Pois, parece que entretanto há um outro pequeno problema. Parece que há uma lei que obriga a que todos os municípios estejam de acordo com a construção do aeroporto, e das 10 câmaras que deram o seu parecer, 4 são a favor (Montijo, Barreiro, Alcochete e Almada) e 6 são contra (Moita, Seixal, Sesimbra, Benavente, Palmela e Setúbal).* Que chatice. O Ministro Pedro Nuno Santos afirma que a lei é obsoleta e “estúpida”, e portanto, tem de se mudar. Segundo o Sr. Ministro, um município não pode condicionar a interesse do país. Mas agora pergunto eu, então se o que está em causa é o interesse do país, por que razão não se ouvem todos os municípios do país? Isto de se querer mudar a lei para satisfazer um projecto em particular parece-me uma coisa muito pouco democrática. E tudo isto, porque a geringonça se zangou, BE e PCP não estão dispostos a votar a favor da alteração da lei, e o PSD também não. Pois… é que o PS estava a contar com os votos a favor do PSD, afinal, o PSD até concorda com a solução do Montijo. Mas sob o voto do PSD, eu só acredito, quando vir. Na verdade, eu “aposto” que o PS vai conseguir arranjar forma de dar a volta à situação, afinal, António Costa já provou ser o político mais habilidoso de que há memória. Ainda assim, tem de ter cuidado com a “criatividade” dos Secretários de Estado que o rodeiam. Alberto Souto de Miranda, Secretário de Estado Adjunto e das Comunicações, escreveu num artigo de opinião afirmando que não há novos aeroportos sem impactos ambientais, que os pássaros do Montijo não são estúpidos e que se vão adaptar, e que os caranguejos não se vão “safar” por serem lentos mas também não há problema pois não estão em vias de extinção. A qualidade deste tipo de discurso está ao nível das melhores piadas do humorista Ricardo Araújo Pereira!

* Informação da SIC.

Crónica publicada na edição 382 do Notícias de Coura, 10 de março de 2020.



terça-feira, 3 de março de 2020

Viver não deve ser uma obrigação

Escolher o tema para a presente crónica foi relativamente fácil. Não podia fugir ao assunto que tem ocupado a imprensa nos últimos dias: a eutanásia. Já em Junho de 2018 (edição 343 do NC) escrevi sobre esta matéria, tendo terminado a crónica com a seguinte frase: No nosso país continua a existir o “dever de viver”, não o “direito de viver”. Estamos a 157 minutos de ver esta situação alterada. Sim, 157 minutos foi o tempo que a Assembleia da República reservou para debater a matéria e, aprová-la. Não vou naturalmente aborrecer os leitores com aquilo que penso, vou-me limitar a expor alguns factos curiosos sobre esta matéria.

1.     Estranho a posição da igreja católica em vir agora defender a realização de um referendo. A igreja sempre assumiu que as questões relacionadas com a vida não eram referendáveis, mas percebe-se a mudança, é uma última tentativa de reverter um assunto que está prestes a seguir outro caminho. Por outro lado, não me agrada ouvir alguns representantes da igreja católica, bem como representantes de partidos de direita, vir agora com o discurso da “aposta nos cuidados paliativos”. O que têm feito nos últimos anos sobre esta matéria?

2.     Estranho a posição do PS em encabeçar uma das propostas que será votada, bem como a posição do PSD em dar liberdade de voto aos seus deputados. Nenhum destes partidos incluiu no seu programa eleitoral nenhuma frase sobre esta questão. Os únicos partidos que o fizeram foram BE, PAN e Livre. Julgo que os partidos só deviam ter direito a propor legislação sobre matérias para as quais os eleitores lhe confiaram o voto. Mas em Portugal já ninguém estranha, os programas eleitorais são uma coisa, a campanha eleitoral outra e a governação/legislatura acabam sempre por ser diferentes.

3.     Estranho a posição de todos aqueles que atiram agora argumentos como, “vão matar os velhinhos todos”, “a vida humana vai ser descartável”, “ vai haver um abuso sobre a eutanásia e vai-se matar a torto e a direito”. Já na altura da aprovação da legislação relativa ao aborto a conversa era mais ou menos a mesma. Os dados mostram o contrário, o número de interrupções voluntárias da gravidez não aumentou, e quem a ela recorreu não o teve de fazer nos perigos da clandestinidade.

4.     Estranho que se acusem os países onde esta prática é legal, em todos eles o processo é longo, exigente e complexo. Não se trata de uma mera viagem turística só de ida.

5.     Não estranho o silêncio do Presidente da República. Obviamente que a sua posição é contrária, e obviamente que vai vetar o diploma. Obviamente também que depois a Assembleia da República se limitará a alterar meia dúzia de vírgulas e o Presidente terá de promulgar.

Termino com algumas palavras que li num artigo* de Alexandre Quintanilha de dia 12 de fevereiro no jornal Expresso: “Foi por vontade de outros que nascemos, não devemos exigir o mesmo da nossa morte. Como se poderá suportar a dor com medicamentos que por vezes são mais intoleráveis do que a dor que pretendem controlar?”

A vida de cada um só a si diz respeito. Quem somos nós para questionar a decisão de cada pessoa em querer viver, ou deixar de viver? “A forma como cada um quer morrer é provavelmente a decisão mais importante da sua vida”.



Crónica publicada na edição 381 do Notícias de Coura, 25 de fevereiro de 2020




terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Nem se atreva a devolver-me à minha terra.

Já passa das 9 horas da noite, da noite em que tenho de enviar a minha crónica para a redação do Notícias de Coura. Enviar é fácil, o problema é que antes tenho de a escrever. Ando para aqui às voltas à espera de caçar alguma ideia interessante, encontro imensas, mas nenhuma capaz de me fazer conseguir escrever mais do que meia dúzia de linhas. Greta Thunberg registou o seu nome como marca comercial (pirralha capitalista, deve estar a pensar o Bolsonaro!); Azeredo Lopes confessou ao Juiz Carlos Alexandre que afinal recebeu um documento pelo Whatsapp sobre o roubo das armas de Tancos e a encenação da sua devolução, mas que não o relatou porque não é funcionário público (!); o Brexit concretizou-se para gáudio de muitos Ingleses, não duvido que os Ingleses continuarão com a mesma postura, dentro ou fora, não conseguirão fugir à sua histórica apetência de dividir para reinar; a braços com a epidemia do Coronavírus, a China consegue construiu um hospital em menos de 10 dias, não me admirei de ler algures um comentário de alguém que pedia: “Será que não podem vir cá num fim-de-semana construir a ala pediátrica do Hospital de São João?”.
Enfim, imensos temas interessantes, mas vou mesmo ter que escrever sobre as polémicas palavras do deputado André Ventura! (Que sacrifício!) Depois da deputada Joacine Katar Moreira, ainda em representação do Livre, ter apresentado uma proposta que pretendia que “todo o património das ex-colónias presente em território português fosse restituído aos países de origem de forma a descolonizar museus”, André Ventura publicou na sua página pessoal do facebook um comentário onde propunha que “a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país de origem”. Estalou a indignação no país, especialmente no Parlamento e nas televisões, onde foi dada voz a todos quantos se insurgiram contra as palavras “xenófobas e racistas” de André Ventura. O engraçado no meio de tudo isto é a capacidade de André Ventura de, com um comentário irónico, conseguir capitalizar votos, e muitos. Obviamente que a publicação não é inocente mas, daí até fazer parecer disto um caso de emergência nacional, vai muito. Especialmente porque aqueles que agora se insurgem nada disseram quanto às imensas trapalhadas e confusões em que deputada tem estado envolvida, algumas delas nada abonatórias da instituição que representa. O que se passou a seguir é fácil de resumir, os partidos nem sequer chegaram a avançar para o voto de condenação às declarações de André Ventura, segundo eles, para não as amplificar, por certo perceberam que quanto mais falarem do assunto, menos apoiantes têm. A Assembleia da República rejeitou a proposta do Livre e a deputada passou à condição de não inscrita, deixou de ter a confiança do Livre, o partido que a elegeu, ou melhor, do partido que se serviu dela para conseguir representação parlamentar e acabou por se tramar! Ainda assim, ficou bem ao Livre, que afirmou que “entre um cargo e os nossos valores, optamos pelos nossos valores”, na verdade, entre ficar a arder em lume brando ou queimar-se já de uma vez, o Livre optou pela última! Por outro lado, Joacine Katar Moreira mantém o registo, afirma que jamais vai renunciar ao mandato, que é dela; que nasceu para estar ali, e por ali vai ficar até lhe passar a gaguez. Enfim, a avaliar pelo último discurso que a deputada fez na rua, parece que a gaguez dela é apenas nervosismo que a atinge na Assembleia da República. Só vejo duas grandes vantagens na sua permanência como deputada, a primeira é para benefício financeiro e de currículo da mesma, a segunda, é para satisfação da comunicação social, pois certamente as trapalhadas vão continuar! Ainda sobre a proposta inicial que levantou tamanhas ondas de indignação, obviamente que se alguém provar que há nos museus portugueses obras pilhadas das colónias, as mesmas devem ser devolvidas, mas por favor, não venham acordar o “demónio” da colonização/descolonização, a história foi o que foi e nada a vai fazer mudar. E por fim, obviamente que eu vejo nas palavras de André Ventura humor, mordaz, maldoso o suficiente, mas humor. Ele que nem se atreva a mandar-nos para a nossa terra. Eu nasci em Angola, sou Português, e não quero ir para lá.


Crónica publicada na edição 380 do Notícias de Coura, 11 de fevereiro de 2020.



terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Futebol e política


Pressionado pela minha obrigação de escrever agora para todas as edições* e na falta de melhores ideias, e de um tema sobre o qual eu seja capaz de escrever uma crónica inteira (excetuando o estado da educação, sobre o qual teria dificuldade em parar), vou redigir aqui umas quantas linhas sobre dois pequenos temas que estão sempre na moda, e sobre os quais todos somos capazes de “mandar uns bitaites”, futebol e política!

Futebol
Em fim-de-semana do dérbi da capital, o FC Porto começou cedo a fazer as contas! Se o Benfica perder com o Sporting podemos ficar mais próximos do 1.º lugar! O pior é que aconteceu tudo ao contrário, o Porto perdeu com o Braga e, para piorar, o Benfica foi ganhar ao Sporting. As contas do título estão quase despachadas, o Benfica só não será campeão se for incompetente como foi o Porto na época passada, o Porto ficará pelo 2.º lugar, embora o seu treinador insista em afirmar ter a certeza que vai ser campeão! Este discurso aparece sempre que a sua equipa não ganha! Para se tratar de “psicologia invertida” está a correr muito mal. O Sporting continua um bocado perdido, especialmente na “novela” Bruno Fernandes, é caso para dizer, “nem vende, nem deixa comprar”, e o valor do excelente jogador que é tem tendência a descer, o que é pena. Que me respeitem todos os sportinguistas, e vão respeitar os que interessam, todos os que conheço são mesmo boas pessoas, mas a cada dia que passa, jogar neste Sporting desvaloriza aquele que é sem dúvida um dos melhores jogadores portugueses da atualidade. O Sporting está a perder dinheiro, e não o devia fazer, para bem da instituição e do futebol português. Quem me conhece sabe da minha simpatia pelo FC Porto, mas por favor não me comparem à massa associativa, mais do que gostar de um clube, há que ser sério, e tento ser, por isso “arrisco a pele” a escrever sobre futebol. O meu clube de coração é o Grupo Desportivo de Chaves, não sou daqueles que é do Chaves e do Porto, serei sempre do Chaves. Ah… e sou sempre das equipas portuguesas quando os adversários são estrangeiros… sempre, sejam elas azuis, vermelhas, verdes ou de outra qualquer cor.

Política
Em fim-de-semana de congresso, o Livre viu ser apresentado uma proposta de votação com o objetivo de retirar a confiança política à deputada Joacine Katar Moreira. Aquilo que a seguir se viu foi… diferente. A deputada do Livre tomou a palavra, inflamou-se com as acusações e mesmo sem as rebater, gritou, e fez-se ouvir: MENTIRA! Quem a ouviu estranhou, a gaguez não se fez notar. No meu tempo diziam aos gagos que a melhor forma de ultrapassar essa limitação era cantarem. Nas próximas intervenções da deputada Joacine na Assembleia da República era bom que ela gritasse. E pode gritar à vontade, o Presidente Ferro Rodrigues decerto lho permitirá, caso não o fizesse, seria uma vergonha!
Em fim-de-semana de eleições, Rui Rio foi reconduzido como Presidente do PSD. Nada de novo. Montenegro foi mais uma vez derrotado. O PSD necessita urgentemente de acabar com as guerrilhas internas sob pena de continuar no caminho do desaparecimento, parecido com aquele que o CDS-PP percorreu! Mas não acredito que isso aconteça. O que estranho é que isso aconteça nestas circunstâncias. Normalmente há sempre um “assalto ao poder” quando começa a “cheirar a poder”, e o PS foi um exemplo disso quando António Costa “desafiou” António José Seguro por este ter “ganho por poucochinho”! Esta coisa da política deve ser mesmo tentadora, até em más condições há “100 cães a um osso”.

* Escrever em todas as edições do Notícias de Coura nunca será uma pressão, será sempre um desafio e um prazer, que aceitei com todo o gosto. Escrever é uma coisa que gosto, fazê-lo sobre pressão é fantástico. Fazer o que gostamos é bom, fazê-lo pressionado é estimulante e compensador. Só me resta que para os leitores não seja um sacrifício ter de me aturar agora em todas as edições!

Crónica publicada na edição 379 do Notícias de Coura, 28 de janeiro de 2020.




terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Em jeito de balanço.

Pressionado pelo prazo com que esta crónica tem de ser escrita, e depois de uma hora em busca de inspiração, não me resta outra alternativa que não seja fazer um balanço do ano que findou.

Política
O PS ganhou as eleições e António Costa continua como 1.º Ministro (mais do que expectável). Desta vez não foi preciso assinar papéis com BE e PCP (mais do que previsível, a geringonça só foi positiva para o PS). O PSD continua em crise, Luís Montenegro tenta mais uma vez o assalto ao poder, e mais uma vez vai-lhe correr mal! Rui Rio parece-me sério e honesto demais para político, ainda mais como líder da oposição, dificilmente terá sucesso se continuar agarrado aos seus princípios. O CDS-PP voltou a ser o partido do táxi, estando em processo de escolha do novo motorista. Populista ou não, André Ventura arrisca-se a ter sucesso. Basta ouvir os debates para perceber quem tem o dom da palavra e, é curioso que sempre que fala em corrupção na política, ninguém o questiona ou contraria! Até Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República e político com largas décadas de experiência, caiu no ridículo de chamar a atenção a André Ventura por este usar vezes demais a palavra “vergonha”. Que vergonha Sr. Presidente, que vergonha.

Educação
Pela primeira vez na história da democracia um Ministro da Educação é nomeado para um segundo mandato. Tiago Brandão Rodrigues entra definitivamente na história. Infelizmente para os professores, 2019 fica marcado pelas inúmeras agressões a professores, quase todas ocorridas dentro do espaço escolar e, imagine-se, uma delas assumida em direto para um noticiário televiso! Perante isto, do Ministério da Educação não se ouviu uma palavra. Já quando foi um professor a agredir um aluno, o Ministério da Educação veio logo a publico condenar a mesma. É bom saber o respeito e consideração que nos têm. Pessoalmente, 2019 marca o ano em que deixei Paredes de Coura, treze anos depois. Saudades? Claro que sim. Treze anos é muito tempo, “muitos dias, muitas horas a sonhar” como canta o outro! Saudades das pessoas, só temos saudades da terra por causa daqueles que conhecemos, daqueles que fizeram parte da nossa vida e que ficam para sempre no nosso coração. (Tenho muitos courenses aqui comigo). Mas a mudança faz bem, muito bem. Citando John Kennedy, “o conformismo é carcereiro da liberdade e inimigo do crescimento”.

Alterações climáticas
O ano fica definitivamente marcado pela mobilização dos jovens na luta pela justiça climática. Greta Thunberg, a jovem sueca que resolveu começar a faltar às aulas para colocar o tema nas bocas do mundo, teve o mérito de o conseguir, sendo até escolhida pela revista Time como a personalidade do ano. Obviamente que poucos conseguem deixar de andar de avião para ir de veleiro, seja como for, todos nós somos responsáveis, todos temos a obrigação de zelar pela proteção do ambiente. Ainda assim, os nossos jovens mobilizam-se quando determinada manifestação pelo ambiente lhes permite faltar às aulas, experimentem marcar um evento destes num fim-de-semana, ou no verão, na altura dos festivais, e veremos onde está a determinação. E para aqueles que ainda não acreditam muito nas alterações climáticas, aqui ficam dois exemplos: o primeiro em Portugal, as cheias na região centro que fizeram ruir os diques do rio Mondego e inundaram extensas áreas agrícolas e habitacionais; o segundo, os incêndios na Austrália, ativos desde setembro e que já consumiram milhares de hectares de florestas, terrenos agrícolas e habitações, matando milhões de animais, é um continente literalmente a arder. As imagens de satélite são assustadoras. E se no caso português tudo poderia ter sido evitado pois a culpa é definitivamente do homem (falta de manutenção dos diques e desinvestimento nas infraestruturas de controle e manutenção do caudal do rio), já na Austrália, a culpa já não é só do homem enquanto nação, a culpa aqui já é da espécie humana que tão maltrata o planeta em que vive.

Feliz ano de 2020 a todos!

Crónica publicada na edição 378 do Notícias de Coura, 14 de janeiro de 2020.



terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Alguém nos “Livre”!

As polémicas em torno do Livre e da sua deputada Joacine Katar Moreira, começaram logo no dia das eleições, com a festa do partido a ser criticada pelas bandeiras da Guiné-Bissau. Exagero e radicalismo do povo, digo eu, num momento de alegria é natural ela ter festejado com a bandeira do seu país natal, tal como por exemplo Jorge Jesus fez quando ganhou a Copa dos Libertadores ao serviço do Flamengo.
No dia da tomada de posse, Joacine Katar Moreira chegou à Assembleia da República acompanhada do seu assessor. Até aqui nada de estranho. Surpreendente foi o facto de ele ir vestido de saia! (Este ponto de exclamação é irónico). Tornou-se de imediato no centro das atenções dos jornalistas e das redes sociais. Justificou dizendo com o facto de querer manter «o Reino Unido e a sua cultura tão rica, interessante e exótica dentro da União Europeia». Ridículo. Não as vestes, mas sim a explicação. Logo aqui foi fácil perceber que esta deputada estava mesmo decidida a marcar a legislatura.
Dias depois, foi votada na Assembleia da República uma proposta de condenação aos bombardeamentos do exército israelita sobre a população da Faixa de Gaza. Joacine Katar Moreira absteve-se. A direção do partido Livre mostrou-se preocupada, afirmando que a posição sobre a Palestina é clara desde a fundação do mesmo, pela autonomia do território e pelo reconhecimento do Estado da Palestina. Joacine justificou-se dizendo que tentou contactar o partido durante três dias, sem sucesso, e como não queria arriscar, absteve-se. Ridículo. Não o voto, mas a justificação. Ninguém acredita que durante três dias responsáveis políticos não conseguissem contactar, e mesmo que isso tivesse acontecido, a obrigação da deputada era votar de acordo com o programa do partido, a sua obrigação era conhecer as ideias que regem o partido, coisa que pelos vistos não conhece.
Mas ainda há pior. A senhora deputada não gostou da posição do partido e acusou-o de falta de apoio desde o início, dizendo que ganhou as eleições sozinha e que a direção não precisa de a ensinar a ser política. Ridículo. Ninguém ganha eleições sozinho e a verdade é que senhora deputada precisa mesmo de quem a ensine a ser política, senão veja:
- Na questão da abstenção sobre a condenação aos bombardeamentos na Palestina, a senhora devia votar de acordo com os estatutos/ideias/posições do partido pelo qual foi eleita, pois foi ao partido que os eleitores deram o voto, não a si.
- Durante a campanha eleitoral, Joacine Katar Moreira considerou uma das suas prioridades políticas a Lei da Nacionalidade. Quando chegou a altura de a entregar para discussão na Assembleia da República, falhou o prazo de entrega, não tendo entregue a sua proposta a horas. Aqui já não é ridículo, aqui é mesmo falta de responsabilidade, incompetência, ou talvez maldade… pois algo me diz que isto foi propositado.
O Livre está a colher os frutos daquilo que plantou. Escolheu uma candidata diferente, conseguiu muitos votos graças ao percurso ativista de defesa dos direitos das minorias étnicas e das mulheres da candidata. Agora, vê a sua deputada assumir uma posição arrogante e centrada em si mesma e alinhar com uma política identitária exclusiva. O Livre vai assim num caminho perigoso. Estas políticas identitárias em defesa de grupos sociais mais vulneráveis não podem ser pretexto ou desculpa para marginalizar os outros. Quando a deputada evita dialogar com o seu partido e chama de extrema-direita a quem não concorda com ela, não está a respeitar nem a liberdade, nem a democracia, nem quem a elegeu.
Não é difícil ter uma ideia do que vai acontecer nesta legislatura. Joacine Katar Moreira dificilmente deixará a sua postura egocêntrica e arrogante. Durante a legislatura será deputada, obtendo daí vantagens ao alcance de muito poucos, não só financeiras é claro! O Livre não a voltará a escolher para deputada.
O Livre nunca mais elegerá ninguém.

Crónica publicada na edição 377 do Notícias de Coura, 17 de dezembro de 2020.



terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Obrigado Mister!

Algures do outro lado do mundo, a mais de 9000 km de distância do nosso país, vejo um senhor de cabelos brancos com uma bandeira portuguesa vestida. Chama-se Jorge Jesus, tem 65 anos e é treinador de futebol.
Quando saiu de Portugal para treinar nas “Arábias”, os portugueses puderam ver um homem no Aeroporto que partia sozinho, emocionado e triste por deixar o país, especialmente nas condições em que o fazia, depois dos lamentáveis incidentes em Alcochete. Alguns meses depois numa reportagem sobre a vida de Jorge Jesus na Arábia Saudita, lembro-me de ver um homem rodeado de luxos, tinha tudo o queria no país do “petróleo”, mas os seus olhos não conseguiam disfarçar tristeza, aquela tristeza tão portuguesa chamada saudade.
Tempos depois vai para o Brasil. A chegada ao nosso “país irmão” não foi acolhedora, muitos lhe vaticinaram um regresso precoce a Portugal. Entre eles, Marco de Vargas, jornalista desportivo brasileiro que “gozou” com “aquele velhinho de 64 anos que só tinha ganho 3 campeonatos na porcaria do futebol português”. Pouco tempo depois, o velhinho sábio e humilde afirmou que não tinha ido para o Brasil para ensinar ninguém. Ainda assim, os brasileiros aprenderam como com trabalho se pega numa equipa a 8 pontos do 1.º lugar e se é campeão a 4 jornadas do fim do campeonato. Entretanto, leva-a à conquista de um título único.
Num fim-de-semana histórico, Jorge Jesus conduziu o Flamengo à vitória na Taça Libertadores da América e poucas horas depois sagrou-se campeão de futebol do Brasil. Alvo de imensas piadas sobre o seu português “engraçade”, Jorge Jesus nunca deixou de ser quem era, um homem trabalhador. Sempre deixou a sua marca nos clubes que treinou, sendo no Benfica que alcançou as suas maiores conquistas. Muitos insistem em lembrar-se daquele título perdido para o Porto nos minutos finais de um jogo, bem como das duas finais europeias perdidas. Não deviam. Deviam recordar os títulos que ganhou, e que foram muitos. E quanto às finais perdidas, tal como ele não se cansa de lembrar: “Perdeu-as porque esteve lá”, são muitos mais aqueles que nunca as vão perder. Talvez tivessem sido estas lembranças que nos fizeram (sim, a nós, milhares de portugueses), vibrar tanto com aquela reviravolta sobre o River Plate. Estas lembranças e aquelas mais dolorosas quando, um bando de patifes invadiu a academia do Sporting agredindo jogadores e desrespeitando um treinador que, embora não tendo sido campeão (embora o merecesse), levou o Sporting a lutar pelo título até à última jornada.
Tal como eu, creio que milhares de portugueses festejaram aquele título. Mais do que uma vitória de uma equipa de futebol, foi a vitória de um homem, um português que nos festejos vestiu a bandeira do país e emocionou-se ao dizer que tinha muito orgulho em ser português. E nós também. Os portugueses também têm orgulho em si.
Obrigado Senhor Jorge Jesus!

Crónica publicada na edição 376 do Notícias de Coura, 03 de dezembro de 2019.



terça-feira, 26 de novembro de 2019

Assim vai o país… e a Espanha!

Um bebé no lixo.
Algures por Lisboa, um sem abrigo ouve barulhos estranhos vindos de um contentor do lixo. Parecem-lhe estranhos para ser um gato. Voltou atrás, abriu o contentor e viu… um bebé. Bendita hora em que aquele homem lá passou. A criança salvou-se, para já. Dias depois, o Presidente da República faz questão de cumprimentar o homem, acompanhado em direto pela televisão faz uma espécie de reportagem do acontecimento. Entre abraços e selfies quero acreditar que o melhor tenha sido feito depois de desligadas as câmaras, e que aquele homem tenha sido de alguma forma “agraciado” pelo gesto que teve. Entretanto a mãe da criança, outra sem abrigo a viver nas ruas da capital, é presa preventivamente e acusada de tentativa de homicídio qualificado. Pouco depois, Varela de Matos, advogado e candidato a bastonário da ordem, entrega no Supremo tribunal de Justiça um pedido de “habeas corpus” para libertação imediata da mãe da criança. Obviamente que este senhor advogado faz isto porque precisa de tempo de antena. Não acredito que lhe tenha mordido o bichinho da justiça e da defesa dos pobres e indefesos. Apetecia-me cumprimentar o Sr. Dr. Juiz que decretou a prisão preventiva. Mesmo sem formação jurídica parece-me que de facto aquela mãe não abandonou apenas o bebé, havia imensos locais para o fazer sem colocar a sua vida em risco. Depositá-lo no lixo não era com o desejo que ele fosse encontrado. Por outro lado, “prender” aquela mãe revela-se quase um ato de misericórdia, dando abrigo, proteção e alimento a quem não o tinha. Não que o mereça, mas talvez assim encontre tempo e tenha condições para pensar bem naquilo que fez. Temo que o pior esteja reservado para o bebé, vítima das burocracias de um sistema de adoções que demora imenso tempo a entregar as crianças às famílias que as desejam. Entregar já este bebé, era dar-lhe de certeza uma família que para sempre seria a sua.

O Lítio.
João Galamba, Secretário de Estado Adjunto e da Energia foi recebido em Boticas em protesto contra a exploração do lítio. Lamentou-se aos jornalistas dizendo que “era uma pena que as pessoas não estivessem disponíveis para conversar.” Mas para conversar sobre quê? É que ao que parece, as decisões para avançar já estão mais ou menos tomadas. A exploração do lítio vai ser implantada em áreas que são reserva agrícola e reserva natural, e nenhuma das entidades responsáveis foi ouvida ou deu pareceres. O governo garante que se a declaração de impacto ambiental for negativa não haverá projeto. Faz lembrar a declaração de impacto ambiental do aeroporto do Montijo, o governo também garantiu que se a avaliação fosse negativa o aeroporto não avançaria, ainda assim, assinou o contrato de concessão das obras meses antes de ser conhecida esse estudo. Ou alguém do governo já conhecia o estudo, ou tinha garantias do seu conteúdo, ou simplesmente, adivinhou!

Espanha e as eleições!
Os nossos vizinhos foram novamente a eleições. A coisa não está fácil para a formação de um governo estável. Na anterior legislatura Pedro Sánchez não conseguiu recriar uma “geringonça à espanhola”, recusou dar cargos ministeriais ao Podemos e dessa forma nunca chegou a uma maioria que sustentasse o governo. Nas últimas horas (estou a escrever esta crónica na tarde de terça-feira, dia 12 de novembro), parece ter chegado a um acordo escrito, e desta vez, Iglesias, o líder do Podemos, até vai ser Vice-Primeiro-Ministro! (Quase faz lembrar aquela birra do Paulo Portas)! Mesmo assim, esta maioria ainda não chega. Talvez Pedro Sánchez esteja a contar com uma abstenção do PP! Mas onde eu queria chegar com todo este discurso era à razão pela qual agora parece haver entendimento à esquerda… é que a chamada extrema direita (VOX) é já a 3.ª força política do parlamento, mais do que duplica os seus resultados e chega aos 52 deputados. A esquerda que se cuide.

Crónica publicada na edição 375 do Notícias de Coura, 19 de novembro de 2019.



terça-feira, 12 de novembro de 2019

Assim vai o país e o mundo.


Rodrigo, o bebé sem esperança.
Rodrigo nasceu há dias em Setúbal, sem olhos, nariz e parte do crânio. Nos dias seguintes o país ouve incrédulo relatos chocantes sobre o obstetra Artur Carvalho. Conhecido como o “Dr. cinco minutos”, esta “personagem”* tem vários processos disciplinares na Ordem dos Médicos, já foi investigado em processos-crime e só agora foi finalmente suspenso. Como em muitas outras situações, só depois destas coisas virem a público é que as autoridades competentes agem. Entretanto, há crianças cujo futuro não será fácil, há famílias com vidas destruídas, tudo pela incompetência de um médico que há muito o não deveria ser.

Um camião de mortos.
Em Inglaterra é descoberto um camião frigorífico cheio de mortos. Sufocados e congelados, assim perderam a vida 39 chineses que sonhavam com uma vida melhor. Pagaram cada um cerca de 34 mil euros, para uma viagem sem fim. O condutor foi preso e, entretanto, mais algumas pessoas foram detidas. Não há palavras para descrever esta desumanidade, há alturas que se perde a esperança na raça humana. Que raça é esta que se atreve a considerar-se racional?

O rapaz da saia.
No dia marcado pela tomada de posse dos novos deputados na Assembleia da República, e depois da polémica quanto ao lugar onde “foi entalado” o deputado André Ventura, eis que a discussão se centra na roupa que o assessor parlamentar do partido Livre resolveu vestir, uma saia. Obviamente que ele tem razão quando diz que “as escolhas do que veste são dele e estão dentro da lei”, mas convenhamos, foi talvez a forma mais ousada que o senhor encontrou de dar nas vistas. Provavelmente, se fosse vestido como um homem, como provavelmente se veste a maior parte das vezes, ninguém ia reparar. Para dar um colorido à coisa, o homem ainda veio dizer que o que sabe é que “as testemunhas de Jeová nunca se metem com ele.” É melhor o povo habituar-se a isto, o partido Livre é mais dado a “dar nas vistas” pela imagem, e não tanto pelo conteúdo.

Que informação dramática!
Edward Snowden, analista informático acusado de espionagem por ter publicado documentos confidenciais sobre os sistemas de vigilância dos EUA, vem no seu livro de memórias confessar que, depois de vasculhar os arquivos da CIA, não encontrou provas da existência de extraterrestres, e tanto quanto ele descobriu, eles nunca tentaram entrar em contacto com a Terra, muito menos com os serviços de inteligência dos EUA! (Arrisco este ponto de exclamação, mas não me atrevo a escrever nenhuma piada sobre isto, embora me apeteça.) Além disto, comprova-se que o homem foi mesmo à lua e que as alterações climáticas são reais. Sobre a ida à lua não me vou pronunciar, pois sempre que olho para ela confesso que fico sem palavras só de pensar que o ser humano já lá esteve, agora sobre as alterações climáticas… não me parece que seja necessário vasculhar os ficheiros secretos de ninguém.

E assim fica cumprida mais uma crónica, escrita sem grande preparação, mas com a permanente preocupação em cumprir o prazo de entrega. Consegui resistir a escrever sobre educação, sobre as agressões nas escolas que o Ministério da Educação diz serem residuais e sobre a falta de professores em centenas de escolas e a falta de funcionários em quase todas elas. Resisto. Não que acredite que estes problemas se resolvam, mas guardando estas ideias para depois. Em tempos escrevi uma intitulada: “Está bem Sr. Ministro.”, tempos depois prometi que não deixaria que Tiago Brandão Rodrigues deixasse o cargo sem lhe dedicar uma “Está mal Sr. Ministro”. Como continua a ser o Ministro da Educação, não preciso ter pressa.

* O autor usa a palavra “personagem” no sentido mais depreciativo que a palavra possa ter.


Crónica publicada na edição 374 do Notícias de Coura, 05 de novembro de 2019.



terça-feira, 29 de outubro de 2019

Os novos partidos!


Apurados os resultados das eleições legislativas (estou a escrever esta crónica ainda sem estarem apurados os deputados eleitos pelo círculo da emigração), algumas coisas são dignas de registo:
- O PS ganhou folgado, embora sem maioria absoluta. António Costa já decidiu governar em minoria e está à vontade para o fazer, a direita não tem expressão para moções de censura, e a esquerda da geringonça nunca se vai aliar à direita para colocar em causa a governação. António Costa tem desta vez ainda mais motivos para ser ele o escolhido a formar governo, e desta vez até ganhou as eleições!
- O PSD perdeu deputados, perdeu expressão e perdeu a compostura. Na noite das eleições o seu líder fez um discurso de “quase vitória”. Perdeu, mas não perdeu pela margem anunciada. Perdeu, mas a culpa foi da oposição interna. Embora não sejam argumentos, até teve razão, e logo nos dias seguintes apareceram os tais opositores internos a anunciar a luta pela liderança. Em breve o PSD irá a eleições, e cá para mim, dificilmente alguém derrotará Rui Rio.
- O CDS/PP desta vez perdeu mesmo, foi quase varrido da Assembleia da República. Voltou a ser o “partido do táxi”, com apenas 5 deputados eleitos, e a líder Assunção Cristas a anunciar a sua saída, avizinham-se tempos muito difíceis para os democratas cristãos. Vai ser preciso um líder jovem, que aposte na mudança de discurso e de prioridades para que o partido volte a ter alguma esperança de ter uma voz ativa no parlamento.
- O BE manteve os seus deputados, mas perdeu votos. Logo na noite eleitoral a sua líder congratulou-se com a derrota da direita, e com a tese de que os portugueses gostaram da solução governativa da geringonça e a queriam prolongar, “oferecendo” desde logo a sua disponibilidade a António Costa. Mas pelo que se viu nos dias seguintes, a geringonça como a conhecemos, acabou. Como eu já ouvi mais do que uma vez, “sabe mais de política António Costa a dormir, que os outros todos acordados”!
- A CDU voltou a fazer aquilo que faz melhor: oposição. O discurso de Jerónimo de Sousa na noite das eleições demonstrou isso mesmo. A CDU perdeu votos e perdeu deputados. Já era previsível, fazer parte da solução governativa tinha mesmo de dar este resultado. Defender os direitos dos trabalhadores, uma maior justiça social, voltam a ser as bandeiras da CDU.
- E agora, aqueles que são a par do PS os verdadeiros vencedores destas eleições, os três “pequenos” partidos que elegeram deputados para a Assembleia da República. E destes, dois tiveram o mérito de incendiar as redes sociais: Joacine Katar Moreira, eleita pelo Livre, festejou com bandeiras da sua terra, a Guiné-Bissau, provocando logo a criação de uma petição que pretende impedir a sua tomada de posse. Enquanto escrevo esta crónica verifico que essa petição já tem mais de 21000 assinaturas. Vergonhoso. Do outro lado, André Ventura, eleito pelo Chega, um partido conotado com a extrema-direita, conhecido por ser comentador do Benfica e contra os ciganos. Engraçado ver tanta gente contra a eleição destes dois deputados, e se calhar muitas das vozes que agora se levantam são daqueles que provavelmente nem foram votar.
- Para terminar, uma palavra para a abstenção: mais de 4 milhões de portugueses não votaram, cerca de 45% da população não votou em nenhum partido. Noutros países desta Europa, quando o povo está descontente com os partidos do “costume”, vota nos partidos do “contra” … imaginem só o que seria se o povo tivesse todo ido votar no Livre, no Chega, na Iniciativa Liberal, no Aliança e “noutros que tais”. A Assembleia da República seria um local bem mais interessante!


Crónica publicada na edição 373 do Notícias de Coura, 22 de outubro de 2019.




terça-feira, 15 de outubro de 2019

A época dos beijinhos e abraços!


O País está em campanha eleitoral. As eleições legislativas estão à porta e vivemos aquelas semanas “magníficas” em que os políticos se lembram do povo, visitam todas as terrinhas, andam nos mercados, nas feiras e nas festas, distribuem beijinhos e abraços, prometem mil coisas que sabem que não vão cumprir, e depois desaparecem até às próximas eleições. É claro que nem todos são assim, mas quase.*
Nestas eleições não são esperadas grandes surpresas. Acreditando nas sondagens que quase todos os dias aparecem, é certo que o PS vai ganhar, o PSD está em maus lençóis, apesar de nos últimos dias ter vindo a recuperar, o CDS-PP arrisca-se a desaparecer, mas isso já não é novidade, há anos que as sondagens os vão “quase” apagando, e eles lá se vão aguentado, BE e PCP lutam pelos votos da esquerda, atacando o partido que suportaram no governo, o BE por certo vai subir na votação, o PCP terá rapidamente de mudar o discurso repetitivo que tem desde o 25 de abril, renovar-se, sob pena de quase desaparecer. O PAN e o Aliança esforçam-se por eleger um ou dois deputados e serem decisivos na formação de um governo.
Se a minha crónica ocupasse apenas um cantinho numa página do Notícias de Coura, ficava-me por aqui, ainda por cima gosto cada vez menos de política e é difícil escrever sobre uma coisa que não se gosta sem cair na tentação de só falar mal. Como ainda me faltam 20 ou 30 linhas para a crónica ter um tamanho aceitável, vou aqui recordar algumas das coisas engraçadas, ou estranhas, desta campanha eleitoral.
O Bloco de Esquerda foi apanhado a pintar propaganda eleitoral num dos muros do Instituto Superior Técnico em Lisboa. Nada na lei impede a realização de murais de propaganda em período eleitoral, exceto em monumentos nacionais, edifícios religiosos, e edifícios do estado. Desculpem-me a franqueza, mas haja paciência para tamanha estupidez. Eu não sei como iria reagir se apanhasse a malta de um partido político, fosse ele qual fosse, a pintar propaganda eleitoral num muro ou parede da minha casa. Uns dias depois, alguns elementos do PNR (aquele partido da extrema-direita, daqueles homens carecas assustadores), pintou o muro, fazendo desaparecer a propaganda do Bloco. Como se está mesmo a ver, alguém vai ser condenado, é que “danificar material de propaganda eleitoral constitui crime punível com prisão”. Pois é, a malta do PNR provavelmente até merecia estar toda presa, mas não por isto.
O caso “Tancos” torna-se a arma de arremesso entre PS e PSD. Para os mais esquecidos, “Tancos” é aquele caso estranho das armas que desapareceram, e voltaram a aparecer algum tempo depois. Há quem diga que foram roubadas, depois os ladrões zangaram-se uns com os outros, ameaçaram denunciar-se e finalmente, encenaram a sua devolução para que ninguém pudesse ser castigado. Mas o mais grave sabe-se agora, pelos vistos há escutas que confirmam que o Ministro da Defesa da altura sabia de tudo, bem como o chefe da Casa Militar da Presidência da República. E mais, noutra escuta, o major da Polícia Judiciária Militar refere-se a uma grande personalidade como o “papagaio-mor do reino”, justificando-se depois que não se referia ao Presidente da República, podia ser o Miguel Sousa Tavares ou o Marques Mendes! Oh Senhor Major, um bocadinho mais de respeito… só faltava dizer que até podia ser o Bruno de Carvalho! Mais do que estranho, tudo isto é muito grave, e vergonhoso para o país. Na falta de argumentos e de melhores assuntos, o PSD usa isto para “atacar” o PS. Também mal fica o PS, quando se refere a tudo isto como uma “cabala” do Ministério Público. E como quase tudo parece acontecer ao PS, ainda veio o Ex 1.º Ministro Sócrates defender o ex-partido!
Quando este artigo vos chegar às mãos as eleições já terminaram. Os políticos já estarão a ocupar os seus novos lugares na Assembleia da República. Outros, não eleitos, começarão desde já a “trabalhar” para nas próximas eleições ocupar um melhor lugar na lista. Quanto ao povo, voltará a ser “quase” esquecido, as feiras e mercados serão locais menos confusos e os noticiários voltarão a ter mais acidentes, desgraças e crimes.

* O autor conhece alguns políticos que felizmente não são assim. Felizmente, a população de Paredes de Coura também.


Crónica publicada na edição 372 do Notícias de Coura, 08 de outubro de 2019.