terça-feira, 28 de julho de 2026

Onda de calor.

Já não é a primeira ocasião em que a pretexto do calor decido colocar essa palavra no título de uma crónica. Da última vez foi em 2023, e aproveito novamente para falar de algumas coisas que aquecem a temperatura do país e do mundo. Neste caso, mais do que os quarenta graus que os termómetros possam atingir, são outras coisas que nos devem fazer subir a temperatura, a raiva, a indignação e a revolta. Vou deixar aqui pequenas considerações sobre algumas delas.

Calor com os exames nacionais. Não vou escrever mais do que aquilo que já fiz na crónica passada, o Ministério da Educação decidiu arriscar com um processo que tem tudo para correr mal, e que eu continuo a acreditar que vai correr mal. Quando o jornal chegar às mãos dos leitores logo se vê se eu estava certo ou errado.

Calor na Seleção Nacional. Depois da eliminação previsível, e justa frente à Espanha, sente-se algum entusiasmo com a escolha de Jorge Jesus para selecionar nacional. Os portugueses não perderam tempo com as piadas que normalmente envolvem o treinador, mas eu acredito que em breve, além de nos rirmos com as piadas vamo-nos rir com os resultados e com o bom futebol, e aproveitando uma das tiradas de JJ, com ele na seleção, “o mau futebol, finish”!

Calor no mundial, e a interferência de Donald Trump que fez um telefonema ao presidente da FIFA para que o cartão vermelho mostrado a um jogador da seleção americana fosse perdoado. De nada lhe valeu, no jogo seguinte a seleção americana jogou tão mal que parecia estar envergonhada com a atitude do seu Presidente. As três viagens do 1.º Ministro Luís Montenegro, além de desnecessárias, e mesmo sendo feitas num avião militar, devem-se ter revelado uma canseira descomunal, não havia necessidade. Concordo com a importância de alguém que represente institucionalmente o país estar presente, mas há muitas personalidades que o poderiam ter feito. O preço dos bilhetes revelou-se também um aspeto de discussão. Os valores para os jogos da nossa seleção variaram entre os 225€ e os 600€. Se Portugal fosse à final os portugueses teriam de pagar entre 3500€ e 7400€. Um absurdo.

Calor com os disparates de Donald Trump na Cimeira da Nato, em que começou logo por afirmar que só lá estava pelo facto do anfitrião ser o seu amigo Erdogan. Perante esta falta de consideração aquilo que todos os líderes presentes deviam ter feito era simples: deixá-los aos dois sozinhos. Trump aproveita para reafirmar a necessidade de controlar a Gronelândia e termina a Cimeira afirmado ter havido “muito amor na sala”, na verdade, o negociador Trump conseguiu que todos os países aumentassem os seus investimentos militares, e obviamente que serão os Estados Unidos a ganhar com isso. Ao mesmo tempo, Trump não desiste de atacar o Irão, e até diz ter mil mísseis apontados e preparados para serem lançados. E assim se brinca às guerras e se condiciona o mercado mundial.

Calor nos festivais, cheios de gente, onde quer que sejam, quaisquer que sejam os artistas e bandas, qualquer que seja o preço dos bilhetes e independentemente da temperatura que se faça sentir. Além da alimentação e da saúde, negócios que sempre terão sucesso, os festivais são definitivamente o negócio do momento.

Calor e horror em Espanha com dezenas de mortos no incêndio de Almeria e com a tragédia de terem morrido a fugir do fogo. Faz lembrar Pedrógão em 2017, mas enquanto na Espanha as pessoas tinham indicações das autoridades para não abandonar as casa, no nosso país nem indicações houve. Calor na última sessão da Assembleia Municipal de Paredes de Coura. Se os leitores deixaram escapar a última edição do Notícias de Coura, por favor leiam a página três. A intervenção de José Augusto Caldas faz lembrar as piores intervenções do Chega na Assembleia da República.


Crónica publicada na edição 529 do Notícias de Coura, 21 de julho de 2026



terça-feira, 14 de julho de 2026

Se algo pode correr mal, correrá mal!

Resolvi usar a Lei de Murphy para dar título a esta crónica, a propósito do caos que está instalado no serviço de exames do ensino básico e secundário. A decisão do Ministério da Educação em digitalizar a totalidade dos exames nacionais de conclusão do ensino secundário e de acesso ao ensino superior, não foi ousada, foi tomada de forma leviana e sem base de sustentação que garantisse que o sistema aguentava tamanha quantidade de trabalho.

Quando deixei Coura e vim para uma nova escola na margem sul pensei que me ia safar do serviço informático dos exames, aqui ninguém me conhece, pensei. Pensei mal, nem um ano me livrei de tal tarefa. Não é que seja nada do outro mundo, mas já estava cansado de desde 2006 estar entregue a tal trabalho. Pois cá estou, o trabalho é de responsabilidade e as tarefas que tenho ainda são menos que em Coura, mas aqui os alunos são dez vezes mais! Temos mais exames aqui logo no primeiro dia que tinha em Coura durante as duas fases de exames!

Regressando à atualidade, no dia em que escrevo esta crónica os exames já deviam estar quase todos distribuídos aos professores corretores. Por aquilo que se vai lendo na Internet, ainda poucos foram entregues, e esses poucos há já imensos problemas. O Sr. Ministro da Educação garante que houve alguns atrasos, mas que está tudo a ser tratado, e que os prazos serão cumpridos. Ou seja, os Professores podem receber os exames com uma semana de atraso, mas terão de os corrigir dentro do prazo inicialmente previsto. Pior ainda, é o Ministério da Educação tenta “sacudir a água do capote”, isto é, atirar a culpa das falhas para as Direções das Escolas. O Ministro da Educação até já veio afirmar que a culpa é também dos agrafos, pois as escolas tinham instruções para não agrafar as provas e fizeram-no, e por cima do código QR! (Não quero acreditar que haja gente tão idiota nos secretariados de exames das escolas, mas nunca fiando.) Vi com agrado que alguns Diretores da região de Lisboa já emitiram um comunicado em que “manifestam a sua estranheza e profundo descontentamento relativamente ao comunicado divulgado pelo Júri Nacional de Exames/EduQA sobre o processo de classificação das provas dos exames nacionais.” A primeira subscritora é a Adriana Guerreiro, bem conhecida dos leitores do Notícias de Coura.

No meio do caos, há Professores que já morreram a ser chamados para classificar, professores de outros grupos disciplinares para corrigir provas de disciplinas para as quais não têm habilitação, só me apetece dizer que “há Professores capazes de tudo só para não ter de trabalhar”, alguns até morrem. (Não vá alguém ofender-se, é o meu lado sarcástico a escrever estas palavras).

Não costumo ser pessimista, mas todo este processo não me dá confiança nenhuma. Está em causa o futuro de milhares de alunos, e as dúvidas são ainda muitas. É bom que o Sr. Ministro já tenha garantido que nenhum aluno sairá prejudicado, mas isso só acontecerá se tudo correr bem, e estamos muito longe de acreditar que isso aconteça.

E agora que estou a terminar esta crónica, partilho com os leitores a minha ideia inicial: estava decidido a falar da fraca prestação da seleção portuguesa no Campeonato do Mundo. A nossa equipa joga no final desta semana com a Croácia, e se tivesse de apostar todas as minhas fichas, não apostava em Portugal. (Até porque já apostei o jogo com o Congo e perdi!) Obviamente que quero que a seleção ganhe, mas olhando para aquilo que temos jogado, só mesmo um milagre faria desta equipa campeã do mundo. É incrível como é que uma seleção com alguns dos melhores jogadores do mundo, que jogam nalgumas das melhores equipas do mundo, joga tão pouco. Espero enganar-me em todas estas minhas pessimistas previsões, e espero ver em breve no cargo de Selecionador Nacional alguém que nunca treinou nenhuma das minhas equipas, mas que aprendi a admirar: Jorge Jesus.


Crónica publicada na edição 528 do Notícias de Coura, 7 de julho de 2026