Já não é a primeira ocasião em que a pretexto do calor decido colocar essa palavra no título de uma crónica. Da última vez foi em 2023, e aproveito novamente para falar de algumas coisas que aquecem a temperatura do país e do mundo. Neste caso, mais do que os quarenta graus que os termómetros possam atingir, são outras coisas que nos devem fazer subir a temperatura, a raiva, a indignação e a revolta. Vou deixar aqui pequenas considerações sobre algumas delas.
Calor com os exames nacionais. Não vou escrever mais do que aquilo que já fiz na crónica passada, o Ministério da Educação decidiu arriscar com um processo que tem tudo para correr mal, e que eu continuo a acreditar que vai correr mal. Quando o jornal chegar às mãos dos leitores logo se vê se eu estava certo ou errado.
Calor na Seleção Nacional. Depois da eliminação previsível, e justa frente à Espanha, sente-se algum entusiasmo com a escolha de Jorge Jesus para selecionar nacional. Os portugueses não perderam tempo com as piadas que normalmente envolvem o treinador, mas eu acredito que em breve, além de nos rirmos com as piadas vamo-nos rir com os resultados e com o bom futebol, e aproveitando uma das tiradas de JJ, com ele na seleção, “o mau futebol, finish”!
Calor no mundial, e a interferência de Donald Trump que fez um telefonema ao presidente da FIFA para que o cartão vermelho mostrado a um jogador da seleção americana fosse perdoado. De nada lhe valeu, no jogo seguinte a seleção americana jogou tão mal que parecia estar envergonhada com a atitude do seu Presidente. As três viagens do 1.º Ministro Luís Montenegro, além de desnecessárias, e mesmo sendo feitas num avião militar, devem-se ter revelado uma canseira descomunal, não havia necessidade. Concordo com a importância de alguém que represente institucionalmente o país estar presente, mas há muitas personalidades que o poderiam ter feito. O preço dos bilhetes revelou-se também um aspeto de discussão. Os valores para os jogos da nossa seleção variaram entre os 225€ e os 600€. Se Portugal fosse à final os portugueses teriam de pagar entre 3500€ e 7400€. Um absurdo.
Calor com os disparates de Donald Trump na Cimeira da Nato, em que começou logo por afirmar que só lá estava pelo facto do anfitrião ser o seu amigo Erdogan. Perante esta falta de consideração aquilo que todos os líderes presentes deviam ter feito era simples: deixá-los aos dois sozinhos. Trump aproveita para reafirmar a necessidade de controlar a Gronelândia e termina a Cimeira afirmado ter havido “muito amor na sala”, na verdade, o negociador Trump conseguiu que todos os países aumentassem os seus investimentos militares, e obviamente que serão os Estados Unidos a ganhar com isso. Ao mesmo tempo, Trump não desiste de atacar o Irão, e até diz ter mil mísseis apontados e preparados para serem lançados. E assim se brinca às guerras e se condiciona o mercado mundial.
Calor nos festivais, cheios de gente, onde quer que sejam, quaisquer que sejam os artistas e bandas, qualquer que seja o preço dos bilhetes e independentemente da temperatura que se faça sentir. Além da alimentação e da saúde, negócios que sempre terão sucesso, os festivais são definitivamente o negócio do momento.
Calor e horror em Espanha com dezenas de mortos no incêndio de Almeria e com a tragédia de terem morrido a fugir do fogo. Faz lembrar Pedrógão em 2017, mas enquanto na Espanha as pessoas tinham indicações das autoridades para não abandonar as casa, no nosso país nem indicações houve. Calor na última sessão da Assembleia Municipal de Paredes de Coura. Se os leitores deixaram escapar a última edição do Notícias de Coura, por favor leiam a página três. A intervenção de José Augusto Caldas faz lembrar as piores intervenções do Chega na Assembleia da República.
Crónica publicada na edição 529 do Notícias de Coura, 21 de julho de 2026