terça-feira, 20 de outubro de 2026

O preço da fama.

“Dia de muito, véspera de nada!” Têm sido inúmeras as crónicas em que os leitores do Notícias de Coura sofrem com os meus lamentos por não ter assunto para escrever. Desta vez estou zangado, pois já tinha a crónica quase pronta e eis que surge mais uma novela a assombrar a Seleção Nacional de Futebol. Obviamente que não posso deixar escapar o tema que enche as televisões, mas também não quero perder o tema anterior. Vou tentar pela primeira vez escrever um texto a dois tempos, que começa com aquilo que tinha preparado e que termina com um assunto que não posso perder.

“O que tem no carro, o pingo doce…” Mas que raio de música é essa? Perguntei eu ignorando por completo o que tinha causado esta nova trend das crianças e adolescentes. Depois de me contarem a história, fui obviamente confirmar. Uma senhora, tinha invadido um palco onde decorria uma atuação musical. Fê-lo de forma tão natural que só quando arrancou o microfone ao músico e proferiu as palavras acima referidas é que a produção percebeu que algo não estava bem, e lá a retiraram do palco. Resultado: teve o seu minuto de fama! No dia seguinte esteve no programa da manhã da CMTV, e foi convidada para o podcast do Tiago Paiva (que confesso não conhecer), ao qual acabou por não ir pois apressou-se a pedir dois mil euros para estar presente! Passam-se alguns dias e eis que a mesma senhora, entretanto conhecida por “Diva do Pingo Doce”, é de novo notícia. Desta vez por desacatos com a senhoria, confusão e ofensas num café. Foi detida por suspeitas de injúrias a agentes policiais e por permanência ilegal em território nacional. Tem agora quinze dias para regularizar a sua situação. Não sei bem como caraterizar estas duas parvoíces, nem qual delas será a mais lamentável: um imigrante irregular num país subir a um palco e depois ir à televisão, ou a viralização nas redes sociais daquilo que essa pessoa cantou. Triste país.

Esta seria a parte do texto em que falaria sobre um tema polémico, a imigração ilegal, mas eis que rebenta a bomba na seleção nacional! Já não preciso correr riscos a escrever sobre um assunto que divide opiniões. A bomba na seleção era como os terramotos, sabemos que vamos ter um, não sabemos é quando!

Cristiano Ronaldo está em fim de carreira, infelizmente só ele parece não ter ainda percebido isso. Forçar a sua presença na equipa nacional é, desde há uns anos, um objetivo estratégico e comercial da Federação Portuguesa de Futebol, e do próprio jogador. Se é verdade que lhe tinha sido prometido que jogava dois jogos, ou que iria jogar trinta minutos noutro jogo é desde logo lamentável. E aqui a culpa foi do treinador Jorge Jesus, quem diz que Ronaldo tem outro estatuto, mas que teria de trabalhar como os outros para jogar, não poderia fazer tais promessas. Não está minimamente em causa tudo aquilo que Ronaldo deu à seleção e ao país. Portugal é hoje reconhecido mundialmente devido a Ronaldo. Existem milhões de pessoas pelo mundo que não fazem ideia onde fica Portugal, mas que ao ouvir o nome do país, dizem logo: Ronaldo! O que não pode acontecer é que o ego de um jogador se sobreponha aos interesses nacionais, por mais milhões que ele possa trazer à federação e ao país. Os estádios enchem por esse mundo fora para ver Ronaldo, e não a seleção portuguesa. Mas o que é afinal mais importante? Não será a seleção ganhar os jogos!? Para mim, como adepto, obviamente que é. Por mais promessas que lhe tivessem feito, é lamentável o amuo de Ronaldo. Abandonar o estágio da seleção é não ter consideração pela estrutura, pelos colegas e pelos portugueses. Custa-me bastante escrever isto, sempre admirei o seu espírito de sacrifício, a sua capacidade de trabalho e a sua solidariedade em tantas causas. É uma pena que tenha acabado assim.

Quanto ao Mister Jorge Jesus, sempre gostei imenso dele e até já lhe dediquei uma crónica (edição 376 do Notícias de Coura, 03 de dezembro de 2019), e não vou passar a gostar mais pelo facto de ter colocado Ronaldo no banco de suplentes. Poderei gostar sim, como decerto muitos portugueses, se a seleção praticar o futebol agradável e destemido que já vimos nos últimos dois jogos. Sei bem que ao primeiro tropeção vão logo agitar o fantasma da falta de Ronaldo, mas nesta seleção: “- Eu acredito!

Crónica publicada na edição 533 do Notícias de Coura, 13 de outubro de 2026




terça-feira, 6 de outubro de 2026

Sejam poupados.

O preço dos combustíveis está em valores que batem recordes semana após semana. Na última semana achei curioso ouvir nas notícias que as temperaturas iam subir dez graus, a gasolina oito e o gasóleo nove, cêntimos! Curiosa combinação! Desde o início do conflito no Médio Oriente o gasóleo já subiu cerca de sessenta cêntimos e a gasolina quarenta. (Se continua assim, o país vai ao charco.)

Perante o aumento do consumo deste bem que começa a ser cada vez mais escasso, a Ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, veio apelar à poupança dos portugueses e ao uso de transportes públicos. Ora aqui está uma boa ideia, nem sei como é que as empresas de distribuição ainda não se lembraram disso! Podiam dispensar os camiões e enviar as mercadorias de autocarro. Um absurdo. Obviamente que todos aqueles que têm a possibilidade de usar transportes públicos o fazem, pois não têm sequer escolha, andar de transporte próprio para muitos portugueses é absolutamente impossível. E muitos deles até têm viatura própria, mas fica-lhes dez vezes mais barato andar de autocarro. (Obviamente que esta opção é apenas possível para quem vive nos grandes centros urbanos, em grande parte do país a oferta de transportes públicos é irrelevante). O governo afirma semana após semana não estar a lucrar nada com o aumento dos preços, e vai minimizando o aumento dos preços com os ajustes no Imposto Sobre os Produtos Petrolíferos. Ainda assim, Portugal continua a ser um dos países com os combustíveis mais caros e onde os impostos sobre os mesmos são os mais altos.

Concordo com a Senhora Ministra do Ambiente quando ela diz que não podemos colocar em risco as contas públicas, mas não me parece que possa caraterizar como fortes apoios os que estão a ser dados a alguns setores como a agricultura, a pesca e os transportes públicos e de mercadorias, e também aos bombeiros. Na verdade, o único apoio existente chega a todos por igual, e para quem está atento ao preço do cabaz alimentar, verifica que ele não para de aumentar, semana após semana. Entretanto, está prevista a visita a Portugal do Ministro da Argélia responsável pelo setor dos combustíveis e o governo aguarda as eleições no Brasil para retomar ligações económicas neste setor. A culpa não é só de Portugal, toda a Europa viveu demasiado tempo ajoelhada à Rússia e aos Estados Unidos da América. Talvez já seja tarde demais para perceberem que essa dependência era tudo o que eles queriam. Fiquemos com o conselho: Sejamos poupados. E será que é só nos combustíveis que os portugueses devem ser poupados?

Na educação já se começou a poupar no número de turmas. Depois de se saber que havia centenas de alunos sem turma, o governo decide o problema numa reunião à noite: aumentem-se as turmas até trinta alunos. (Apetecia-me sugerir que aumentassem até quarenta alunos, acabava de uma vez por todas a falta de professores). O senhor Ministro da Educação já veio afirmar que “até aos trinta alunos não há evidência de que isso seja mau para a qualidade do ensino”. Obviamente que não! Imagine-se uma turma com vinte alunos, numa aula de cinquenta minutos o professor consegue dar uma atenção individualizada de mais de dois minutos a cada aluno. Se a turma tiver trinta, ou até quarenta a coisa é quase a mesma (é fazer as contas, como dizia António Guterres!). Na verdade, eu sei que o Sr. Ministro da Educação sabe o que se passa nas salas de aula do ensino público (a escola dos pobres como eu gosto de dizer)! Eu tenho turmas de trinta alunos, tenho sempre alguns alunos que aprendem tudo à primeira, podem ser ignorados porque safam-se sozinhos, depois há mais alguns que por mais esforço que o Professor faça, não querem saber daquilo para nada, há ainda um ou dois por turma que só aparecem de dois em dois meses para que a escola lhes passe o papel da matrícula e não percam o abono de família, restam dez ou doze que se vão esforçando e valendo o esforço diário de ensinar a quem quer aprender. (Estarei a ser irónico? Quem o quiser comprovar pode vir assistir ao trabalho dos professores no dia-a-dia, muitas vezes em condições inaceitáveis para um país como Portugal, em pleno século XXI).

E como estamos em maré de poupança, a crónica fica por aqui!


Crónica publicada na edição 532 do Notícias de Coura, 29 de setembro de 2026