“Dia de muito, véspera de nada!” Têm sido inúmeras as crónicas em que os leitores do Notícias de Coura sofrem com os meus lamentos por não ter assunto para escrever. Desta vez estou zangado, pois já tinha a crónica quase pronta e eis que surge mais uma novela a assombrar a Seleção Nacional de Futebol. Obviamente que não posso deixar escapar o tema que enche as televisões, mas também não quero perder o tema anterior. Vou tentar pela primeira vez escrever um texto a dois tempos, que começa com aquilo que tinha preparado e que termina com um assunto que não posso perder.
“O que tem no carro, o pingo doce…” Mas que raio de música é essa? Perguntei eu ignorando por completo o que tinha causado esta nova trend das crianças e adolescentes. Depois de me contarem a história, fui obviamente confirmar. Uma senhora, tinha invadido um palco onde decorria uma atuação musical. Fê-lo de forma tão natural que só quando arrancou o microfone ao músico e proferiu as palavras acima referidas é que a produção percebeu que algo não estava bem, e lá a retiraram do palco. Resultado: teve o seu minuto de fama! No dia seguinte esteve no programa da manhã da CMTV, e foi convidada para o podcast do Tiago Paiva (que confesso não conhecer), ao qual acabou por não ir pois apressou-se a pedir dois mil euros para estar presente! Passam-se alguns dias e eis que a mesma senhora, entretanto conhecida por “Diva do Pingo Doce”, é de novo notícia. Desta vez por desacatos com a senhoria, confusão e ofensas num café. Foi detida por suspeitas de injúrias a agentes policiais e por permanência ilegal em território nacional. Tem agora quinze dias para regularizar a sua situação. Não sei bem como caraterizar estas duas parvoíces, nem qual delas será a mais lamentável: um imigrante irregular num país subir a um palco e depois ir à televisão, ou a viralização nas redes sociais daquilo que essa pessoa cantou. Triste país.
Esta seria a parte do texto em que falaria sobre um tema polémico, a imigração ilegal, mas eis que rebenta a bomba na seleção nacional! Já não preciso correr riscos a escrever sobre um assunto que divide opiniões. A bomba na seleção era como os terramotos, sabemos que vamos ter um, não sabemos é quando!
Cristiano Ronaldo está em fim de carreira, infelizmente só ele parece não ter ainda percebido isso. Forçar a sua presença na equipa nacional é, desde há uns anos, um objetivo estratégico e comercial da Federação Portuguesa de Futebol, e do próprio jogador. Se é verdade que lhe tinha sido prometido que jogava dois jogos, ou que iria jogar trinta minutos noutro jogo é desde logo lamentável. E aqui a culpa foi do treinador Jorge Jesus, quem diz que Ronaldo tem outro estatuto, mas que teria de trabalhar como os outros para jogar, não poderia fazer tais promessas. Não está minimamente em causa tudo aquilo que Ronaldo deu à seleção e ao país. Portugal é hoje reconhecido mundialmente devido a Ronaldo. Existem milhões de pessoas pelo mundo que não fazem ideia onde fica Portugal, mas que ao ouvir o nome do país, dizem logo: Ronaldo! O que não pode acontecer é que o ego de um jogador se sobreponha aos interesses nacionais, por mais milhões que ele possa trazer à federação e ao país. Os estádios enchem por esse mundo fora para ver Ronaldo, e não a seleção portuguesa. Mas o que é afinal mais importante? Não será a seleção ganhar os jogos!? Para mim, como adepto, obviamente que é. Por mais promessas que lhe tivessem feito, é lamentável o amuo de Ronaldo. Abandonar o estágio da seleção é não ter consideração pela estrutura, pelos colegas e pelos portugueses. Custa-me bastante escrever isto, sempre admirei o seu espírito de sacrifício, a sua capacidade de trabalho e a sua solidariedade em tantas causas. É uma pena que tenha acabado assim.
Quanto ao Mister Jorge Jesus, sempre gostei imenso dele e até já lhe dediquei uma crónica (edição 376 do Notícias de Coura, 03 de dezembro de 2019), e não vou passar a gostar mais pelo facto de ter colocado Ronaldo no banco de suplentes. Poderei gostar sim, como decerto muitos portugueses, se a seleção praticar o futebol agradável e destemido que já vimos nos últimos dois jogos. Sei bem que ao primeiro tropeção vão logo agitar o fantasma da falta de Ronaldo, mas nesta seleção: “- Eu acredito!
Crónica publicada na edição 533 do Notícias de Coura, 13 de outubro de 2026

