terça-feira, 20 de outubro de 2026

O preço da fama.

“Dia de muito, véspera de nada!” Têm sido inúmeras as crónicas em que os leitores do Notícias de Coura sofrem com os meus lamentos por não ter assunto para escrever. Desta vez estou zangado, pois já tinha a crónica quase pronta e eis que surge mais uma novela a assombrar a Seleção Nacional de Futebol. Obviamente que não posso deixar escapar o tema que enche as televisões, mas também não quero perder o tema anterior. Vou tentar pela primeira vez escrever um texto a dois tempos, que começa com aquilo que tinha preparado e que termina com um assunto que não posso perder.

“O que tem no carro, o pingo doce…” Mas que raio de música é essa? Perguntei eu ignorando por completo o que tinha causado esta nova trend das crianças e adolescentes. Depois de me contarem a história, fui obviamente confirmar. Uma senhora, tinha invadido um palco onde decorria uma atuação musical. Fê-lo de forma tão natural que só quando arrancou o microfone ao músico e proferiu as palavras acima referidas é que a produção percebeu que algo não estava bem, e lá a retiraram do palco. Resultado: teve o seu minuto de fama! No dia seguinte esteve no programa da manhã da CMTV, e foi convidada para o podcast do Tiago Paiva (que confesso não conhecer), ao qual acabou por não ir pois apressou-se a pedir dois mil euros para estar presente! Passam-se alguns dias e eis que a mesma senhora, entretanto conhecida por “Diva do Pingo Doce”, é de novo notícia. Desta vez por desacatos com a senhoria, confusão e ofensas num café. Foi detida por suspeitas de injúrias a agentes policiais e por permanência ilegal em território nacional. Tem agora quinze dias para regularizar a sua situação. Não sei bem como caraterizar estas duas parvoíces, nem qual delas será a mais lamentável: um imigrante irregular num país subir a um palco e depois ir à televisão, ou a viralização nas redes sociais daquilo que essa pessoa cantou. Triste país.

Esta seria a parte do texto em que falaria sobre um tema polémico, a imigração ilegal, mas eis que rebenta a bomba na seleção nacional! Já não preciso correr riscos a escrever sobre um assunto que divide opiniões. A bomba na seleção era como os terramotos, sabemos que vamos ter um, não sabemos é quando!

Cristiano Ronaldo está em fim de carreira, infelizmente só ele parece não ter ainda percebido isso. Forçar a sua presença na equipa nacional é, desde há uns anos, um objetivo estratégico e comercial da Federação Portuguesa de Futebol, e do próprio jogador. Se é verdade que lhe tinha sido prometido que jogava dois jogos, ou que iria jogar trinta minutos noutro jogo é desde logo lamentável. E aqui a culpa foi do treinador Jorge Jesus, quem diz que Ronaldo tem outro estatuto, mas que teria de trabalhar como os outros para jogar, não poderia fazer tais promessas. Não está minimamente em causa tudo aquilo que Ronaldo deu à seleção e ao país. Portugal é hoje reconhecido mundialmente devido a Ronaldo. Existem milhões de pessoas pelo mundo que não fazem ideia onde fica Portugal, mas que ao ouvir o nome do país, dizem logo: Ronaldo! O que não pode acontecer é que o ego de um jogador se sobreponha aos interesses nacionais, por mais milhões que ele possa trazer à federação e ao país. Os estádios enchem por esse mundo fora para ver Ronaldo, e não a seleção portuguesa. Mas o que é afinal mais importante? Não será a seleção ganhar os jogos!? Para mim, como adepto, obviamente que é. Por mais promessas que lhe tivessem feito, é lamentável o amuo de Ronaldo. Abandonar o estágio da seleção é não ter consideração pela estrutura, pelos colegas e pelos portugueses. Custa-me bastante escrever isto, sempre admirei o seu espírito de sacrifício, a sua capacidade de trabalho e a sua solidariedade em tantas causas. É uma pena que tenha acabado assim.

Quanto ao Mister Jorge Jesus, sempre gostei imenso dele e até já lhe dediquei uma crónica (edição 376 do Notícias de Coura, 03 de dezembro de 2019), e não vou passar a gostar mais pelo facto de ter colocado Ronaldo no banco de suplentes. Poderei gostar sim, como decerto muitos portugueses, se a seleção praticar o futebol agradável e destemido que já vimos nos últimos dois jogos. Sei bem que ao primeiro tropeção vão logo agitar o fantasma da falta de Ronaldo, mas nesta seleção: “- Eu acredito!

Crónica publicada na edição 533 do Notícias de Coura, 13 de outubro de 2026




terça-feira, 6 de outubro de 2026

Sejam poupados.

O preço dos combustíveis está em valores que batem recordes semana após semana. Na última semana achei curioso ouvir nas notícias que as temperaturas iam subir dez graus, a gasolina oito e o gasóleo nove, cêntimos! Curiosa combinação! Desde o início do conflito no Médio Oriente o gasóleo já subiu cerca de sessenta cêntimos e a gasolina quarenta. (Se continua assim, o país vai ao charco.)

Perante o aumento do consumo deste bem que começa a ser cada vez mais escasso, a Ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, veio apelar à poupança dos portugueses e ao uso de transportes públicos. Ora aqui está uma boa ideia, nem sei como é que as empresas de distribuição ainda não se lembraram disso! Podiam dispensar os camiões e enviar as mercadorias de autocarro. Um absurdo. Obviamente que todos aqueles que têm a possibilidade de usar transportes públicos o fazem, pois não têm sequer escolha, andar de transporte próprio para muitos portugueses é absolutamente impossível. E muitos deles até têm viatura própria, mas fica-lhes dez vezes mais barato andar de autocarro. (Obviamente que esta opção é apenas possível para quem vive nos grandes centros urbanos, em grande parte do país a oferta de transportes públicos é irrelevante). O governo afirma semana após semana não estar a lucrar nada com o aumento dos preços, e vai minimizando o aumento dos preços com os ajustes no Imposto Sobre os Produtos Petrolíferos. Ainda assim, Portugal continua a ser um dos países com os combustíveis mais caros e onde os impostos sobre os mesmos são os mais altos.

Concordo com a Senhora Ministra do Ambiente quando ela diz que não podemos colocar em risco as contas públicas, mas não me parece que possa caraterizar como fortes apoios os que estão a ser dados a alguns setores como a agricultura, a pesca e os transportes públicos e de mercadorias, e também aos bombeiros. Na verdade, o único apoio existente chega a todos por igual, e para quem está atento ao preço do cabaz alimentar, verifica que ele não para de aumentar, semana após semana. Entretanto, está prevista a visita a Portugal do Ministro da Argélia responsável pelo setor dos combustíveis e o governo aguarda as eleições no Brasil para retomar ligações económicas neste setor. A culpa não é só de Portugal, toda a Europa viveu demasiado tempo ajoelhada à Rússia e aos Estados Unidos da América. Talvez já seja tarde demais para perceberem que essa dependência era tudo o que eles queriam. Fiquemos com o conselho: Sejamos poupados. E será que é só nos combustíveis que os portugueses devem ser poupados?

Na educação já se começou a poupar no número de turmas. Depois de se saber que havia centenas de alunos sem turma, o governo decide o problema numa reunião à noite: aumentem-se as turmas até trinta alunos. (Apetecia-me sugerir que aumentassem até quarenta alunos, acabava de uma vez por todas a falta de professores). O senhor Ministro da Educação já veio afirmar que “até aos trinta alunos não há evidência de que isso seja mau para a qualidade do ensino”. Obviamente que não! Imagine-se uma turma com vinte alunos, numa aula de cinquenta minutos o professor consegue dar uma atenção individualizada de mais de dois minutos a cada aluno. Se a turma tiver trinta, ou até quarenta a coisa é quase a mesma (é fazer as contas, como dizia António Guterres!). Na verdade, eu sei que o Sr. Ministro da Educação sabe o que se passa nas salas de aula do ensino público (a escola dos pobres como eu gosto de dizer)! Eu tenho turmas de trinta alunos, tenho sempre alguns alunos que aprendem tudo à primeira, podem ser ignorados porque safam-se sozinhos, depois há mais alguns que por mais esforço que o Professor faça, não querem saber daquilo para nada, há ainda um ou dois por turma que só aparecem de dois em dois meses para que a escola lhes passe o papel da matrícula e não percam o abono de família, restam dez ou doze que se vão esforçando e valendo o esforço diário de ensinar a quem quer aprender. (Estarei a ser irónico? Quem o quiser comprovar pode vir assistir ao trabalho dos professores no dia-a-dia, muitas vezes em condições inaceitáveis para um país como Portugal, em pleno século XXI).

E como estamos em maré de poupança, a crónica fica por aqui!


Crónica publicada na edição 532 do Notícias de Coura, 29 de setembro de 2026



terça-feira, 22 de setembro de 2026

Podia escrever sobre tanta coisa.

Foi um mês de agosto pequeno. Este ano as férias pareceram ainda mais pequenas fruto das trapalhadas nos exames nacionais do ensino secundário. Foi um mês assustador com os incêndios que queimaram centenas de hectares do concelho de Valpaços e que muito me assustaram. Agosto acabou, e com setembro voltam as aulas, o trabalho, e voltam as crónicas no Notícias de Coura. Sabia que elas só voltavam em setembro e de vez em quando escrevia umas coisas aqui nuns papéis para me apoiar quando chegasse a altura de escrever as minhas 700 palavras. O prazo acabou, pego nesses papéis e já não me lembro sobre as razões que me levaram a escrevê-los. Devia ter escrito uma frase ou duas, e não apenas uma ou duas palavras. Podia escrever sobre tanta coisa, e agora quase nada me resta.

Podia escrever sobre a moção de censura que o Chega vai apresentar amanhã. Mas para quê? Já se sabe o resultado, e também já se sabe que tudo o que o André Ventura promove é para ter palco mediático, para estar constantemente nas páginas da comunicação social. E na verdade, tem sido exímio nesse esforço. Eu ainda sou do tempo em que os Ministros se demitiam por coisas bem menos graves, como quando Jorge Coelho se demitiu do cargo de Ministro de Estado e Equipamento Social depois da queda da Ponte de Entre-os Rios, ou quando João Soares se demitiu do cargo de Ministro da Cultura depois de prometer umas “salutares bofetadas” a Vasco Pulido Valente e Augusto M. Seabra, cronistas do jornal Público. É verdade que Luís Neves, Ministro da Administração Interna, tem sido alvo de uma campanha agressiva nunca vista, mas também é verdade que os casos em que está envolvido são mais do que suficientes para ter tido o bom senso de se demitir. E para agravar a situação, ainda tem a ousadia de usar um tom provocador e autoritário, quem o ouvir, fica com sensação de que é ele o “dono disto tudo”.

Estive quase para escrever sobre o gang do Rolex, e o azar que teve em assaltar um “tipo” mais louco que eles. A estupidez do ladrão em assaltar um carro daquele tamanho com uma simples scooter, não podia dar certo. Roubaram-lhe o relógio, mas o assaltado era ainda mais maluco, perseguiu-o, acertou-lhe com o carro e o bandido teve o azar de ser atropelado e morrer. Não sou daqueles que rejubila com a morte do ladrão, “quem anda à chuva, molha-se”, e seria bem pior que morresse algum inocente apanhado no meio desta confusão. Aquilo que me parece é que se está a resvalar para um sentimento de “justiça popular”, são cada vez mais os exemplos das falhas gritantes da justiça que devia imperar, aquela dos tribunais, em que os culpados são punidos. Os cidadãos sentem que o Estado não os protege como devia, e se a justiça regressa às ruas, abana um dos pilares da democracia. E isso pode ser muito perigoso.

Podia também escrever sobre as constantes idiotices do Presidente Donald Trump. Há uns dias assinou uma ordem executiva para renomear o Lago Ontário para “Lago América”. A Apple juntou-se à Google e adotou o nome dado pelo presidente norte-americano. Poucos dias depois sugeriu mudar nome do estreito de Ormuz para "Estreito Trump", sugere também que o estado do Novo México deverá mudar de nome e passar a chamar-se "Nova América", enquanto publica uma imagem que mostra um mapa da América do Norte, América Central, Caraíbas, Groenlândia e Islândia totalmente coberto pela bandeira dos Estados Unidos. Já não há palavras sensatas que se possam escrever sobre este senhor. É parvoíce a mais para uma só pessoa, e o problema é que essa pessoa é Presidente dos Estados Unidos da América. Pior ainda, é os mercados internacionais reagirem a este tipo de declarações. O problema não é os EUA terem um dirigente que é louco, o problema são as consequências das suas ações para o resto mundo.

Podia finalmente escrever sobre o aumento brutal do preço dos combustíveis, mas isso iria trazer-me muitas saudades dos anos em que vivi em Paredes de Coura e ia abastecer a Tui, e poupava alguns euros que depois gastava nas muitas viagens que fazia até ao Monte de São Silvestre para fotografar o pôr-do-sol. E assim se termina uma crónica com uma imagem lindíssima!

Crónica publicada na edição 531 do Notícias de Coura, 15 de setembro de 2026






terça-feira, 11 de agosto de 2026

Orienta-me aí um atrelado!

Já em tempos usei a expressão “Orienta-me” para dar título a uma crónica. Foi em 2021 e escrevia eu sobre a “chico-espertice” dos portugueses em conseguir vantagens pela porta dos fundos. Nessa altura, as vacinas de combate ao Covid 19 eram destinadas aos grupos de risco, mas foram às centenas aqueles que se safaram por serem amigos ou familiares de pessoas com poder de decisão. Este tipo de comportamento é intrínseco ao povo português, e assim continuará a ser.

Vem isto a propósito dos casos e casinhos que envolvem o Ministro da Administração Interna, Luís Neves. A cada dia que passa são descobertas novas polémicas, às quais o Sr. Ministro vai tendo o desplante de nada esclarecer e a ousadia de continuar a afirmar que “a seu tempo” dará todos os esclarecimentos. Ao que parece, as obras na quinta do  Sr. Ministro foram feitas numa zona de reserva agrícola e reserva ecológica, foi também construído um parque de estacionamento e uma piscina. Sinceramente, nem considerava isso muito grave não fosse o descaramento do Sr. Ministro em vir dizer que não era uma piscina, tratava-se de um tanque de rega. O povo não é burro Sr. Ministro, tenha vergonha. Depois, descobre-se que o empreiteiro responsável é o mesmo que fez algumas obras para a Polícia Judiciária (e ao que parece, só uma delas por concurso público), mas até nem isso seria muito grave. Se o empreiteiro é bom, é natural que o Sr. Ministro o contrate. Mas não devia. Cabe aos políticos o mesmo que à mulher de César, não lhes basta ser sérios, têm de o parecer. Aquilo que já parecia um esquema de negócios pouco sérios, atinge o seu auge quando se descobre que nos armazéns do empreiteiro/amigo do Ministro está um atrelado que tinha sido apreendido numa operação de tráfico de droga. Não é preciso que Luís Neves esclareça nada. O amigo pediu-lhe um atrelado e ele desviou um das instalações da Polícia Judiciária (PJ). Simples. Com esta brincadeira vão safar-se os acusados de tráfico, os seus advogados já pediram a nulidade da prova e obviamente que isso terá de ser aceite. No meio disto tudo, irrito-me por ter de concordar com André Ventura quando afirma que parece que o Ministro tem o PSD e o PS na mão, ninguém lhe faz frente.

O Chega não perde a oportunidade para lançar gasolina para a fogueira e apresentou já uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) aos mandatos de Luís Neves como Diretor Nacional da PJ. Esta comissão vai devassar a PJ, o que não deixa de ser uma boa notícia para os delinquentes e bandidos de Portugal. Além de criar instabilidade no governo, vai acabar por colocar em causa os métodos de atuação desta polícia. O Partido Socialista acusa, e bem, o Chega de tentar fragilizar a PJ por causa das investigações às ligações do Chega ao Movimento 1143 e ao Movimento Armilar Lusitano. Não é de espantar este tipo de atuação do partido de André Ventura, já a CPI ao caso das gémeas e da suposta cunha do filho do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, não visava outra coisa que não fosse desgastar e denegrir a imagem do Presidente, e conseguiu. Tudo isto é vergonhoso demais.

Em 2004 Santana Lopes foi demitido (sei bem que foi a Assembleia da República que foi dissolvida, mas o resultado foi o mesmo), por bem menos. A diferença é que na altura havia uma oposição com capacidade de vencer eleições (Sócrates… de má memória!) O problema é o atual momento político. Os portugueses estão fartos de eleições é certo, e a alternativa é ainda pior. Que adianta o PS estar em 1.º lugar nas intenções de voto? Tem um líder sem carisma e que não consegue entusiasmar, e mesmo que vencesse as eleições, com quem faria governo? A Esquerda está em frangalhos e não me parece que tão cedo volte a ter hipótese de pensar em governar. E enquanto isso, o populismo avança, e tanto PS como o PSD continuam a dar-lhe palco. Esperemos que os incêndios que estão a devastar Espanha e França não se lembrem de vir para Portugal, se a coisa corre mal Luís Montenegro não tem outra solução que não seja demiti-lo. Talvez seja por isso que não vai de férias.

Boas férias e bom festival a todos!


Crónica publicada na edição 530 do Notícias de Coura, 4 de agosto de 2026



terça-feira, 28 de julho de 2026

Onda de calor.

Já não é a primeira ocasião em que a pretexto do calor decido colocar essa palavra no título de uma crónica. Da última vez foi em 2023, e aproveito novamente para falar de algumas coisas que aquecem a temperatura do país e do mundo. Neste caso, mais do que os quarenta graus que os termómetros possam atingir, são outras coisas que nos devem fazer subir a temperatura, a raiva, a indignação e a revolta. Vou deixar aqui pequenas considerações sobre algumas delas.

Calor com os exames nacionais. Não vou escrever mais do que aquilo que já fiz na crónica passada, o Ministério da Educação decidiu arriscar com um processo que tem tudo para correr mal, e que eu continuo a acreditar que vai correr mal. Quando o jornal chegar às mãos dos leitores logo se vê se eu estava certo ou errado.

Calor na Seleção Nacional. Depois da eliminação previsível, e justa frente à Espanha, sente-se algum entusiasmo com a escolha de Jorge Jesus para selecionar nacional. Os portugueses não perderam tempo com as piadas que normalmente envolvem o treinador, mas eu acredito que em breve, além de nos rirmos com as piadas vamo-nos rir com os resultados e com o bom futebol, e aproveitando uma das tiradas de JJ, com ele na seleção, “o mau futebol, finish”!

Calor no mundial, e a interferência de Donald Trump que fez um telefonema ao presidente da FIFA para que o cartão vermelho mostrado a um jogador da seleção americana fosse perdoado. De nada lhe valeu, no jogo seguinte a seleção americana jogou tão mal que parecia estar envergonhada com a atitude do seu Presidente. As três viagens do 1.º Ministro Luís Montenegro, além de desnecessárias, e mesmo sendo feitas num avião militar, devem-se ter revelado uma canseira descomunal, não havia necessidade. Concordo com a importância de alguém que represente institucionalmente o país estar presente, mas há muitas personalidades que o poderiam ter feito. O preço dos bilhetes revelou-se também um aspeto de discussão. Os valores para os jogos da nossa seleção variaram entre os 225€ e os 600€. Se Portugal fosse à final os portugueses teriam de pagar entre 3500€ e 7400€. Um absurdo.

Calor com os disparates de Donald Trump na Cimeira da Nato, em que começou logo por afirmar que só lá estava pelo facto do anfitrião ser o seu amigo Erdogan. Perante esta falta de consideração aquilo que todos os líderes presentes deviam ter feito era simples: deixá-los aos dois sozinhos. Trump aproveita para reafirmar a necessidade de controlar a Gronelândia e termina a Cimeira afirmado ter havido “muito amor na sala”, na verdade, o negociador Trump conseguiu que todos os países aumentassem os seus investimentos militares, e obviamente que serão os Estados Unidos a ganhar com isso. Ao mesmo tempo, Trump não desiste de atacar o Irão, e até diz ter mil mísseis apontados e preparados para serem lançados. E assim se brinca às guerras e se condiciona o mercado mundial.

Calor nos festivais, cheios de gente, onde quer que sejam, quaisquer que sejam os artistas e bandas, qualquer que seja o preço dos bilhetes e independentemente da temperatura que se faça sentir. Além da alimentação e da saúde, negócios que sempre terão sucesso, os festivais são definitivamente o negócio do momento.

Calor e horror em Espanha com dezenas de mortos no incêndio de Almeria e com a tragédia de terem morrido a fugir do fogo. Faz lembrar Pedrógão em 2017, mas enquanto na Espanha as pessoas tinham indicações das autoridades para não abandonar as casa, no nosso país nem indicações houve. Calor na última sessão da Assembleia Municipal de Paredes de Coura. Se os leitores deixaram escapar a última edição do Notícias de Coura, por favor leiam a página três. A intervenção de José Augusto Caldas faz lembrar as piores intervenções do Chega na Assembleia da República.


Crónica publicada na edição 529 do Notícias de Coura, 21 de julho de 2026



terça-feira, 14 de julho de 2026

Se algo pode correr mal, correrá mal!

Resolvi usar a Lei de Murphy para dar título a esta crónica, a propósito do caos que está instalado no serviço de exames do ensino básico e secundário. A decisão do Ministério da Educação em digitalizar a totalidade dos exames nacionais de conclusão do ensino secundário e de acesso ao ensino superior, não foi ousada, foi tomada de forma leviana e sem base de sustentação que garantisse que o sistema aguentava tamanha quantidade de trabalho.

Quando deixei Coura e vim para uma nova escola na margem sul pensei que me ia safar do serviço informático dos exames, aqui ninguém me conhece, pensei. Pensei mal, nem um ano me livrei de tal tarefa. Não é que seja nada do outro mundo, mas já estava cansado de desde 2006 estar entregue a tal trabalho. Pois cá estou, o trabalho é de responsabilidade e as tarefas que tenho ainda são menos que em Coura, mas aqui os alunos são dez vezes mais! Temos mais exames aqui logo no primeiro dia que tinha em Coura durante as duas fases de exames!

Regressando à atualidade, no dia em que escrevo esta crónica os exames já deviam estar quase todos distribuídos aos professores corretores. Por aquilo que se vai lendo na Internet, ainda poucos foram entregues, e esses poucos há já imensos problemas. O Sr. Ministro da Educação garante que houve alguns atrasos, mas que está tudo a ser tratado, e que os prazos serão cumpridos. Ou seja, os Professores podem receber os exames com uma semana de atraso, mas terão de os corrigir dentro do prazo inicialmente previsto. Pior ainda, é o Ministério da Educação tenta “sacudir a água do capote”, isto é, atirar a culpa das falhas para as Direções das Escolas. O Ministro da Educação até já veio afirmar que a culpa é também dos agrafos, pois as escolas tinham instruções para não agrafar as provas e fizeram-no, e por cima do código QR! (Não quero acreditar que haja gente tão idiota nos secretariados de exames das escolas, mas nunca fiando.) Vi com agrado que alguns Diretores da região de Lisboa já emitiram um comunicado em que “manifestam a sua estranheza e profundo descontentamento relativamente ao comunicado divulgado pelo Júri Nacional de Exames/EduQA sobre o processo de classificação das provas dos exames nacionais.” A primeira subscritora é a Adriana Guerreiro, bem conhecida dos leitores do Notícias de Coura.

No meio do caos, há Professores que já morreram a ser chamados para classificar, professores de outros grupos disciplinares para corrigir provas de disciplinas para as quais não têm habilitação, só me apetece dizer que “há Professores capazes de tudo só para não ter de trabalhar”, alguns até morrem. (Não vá alguém ofender-se, é o meu lado sarcástico a escrever estas palavras).

Não costumo ser pessimista, mas todo este processo não me dá confiança nenhuma. Está em causa o futuro de milhares de alunos, e as dúvidas são ainda muitas. É bom que o Sr. Ministro já tenha garantido que nenhum aluno sairá prejudicado, mas isso só acontecerá se tudo correr bem, e estamos muito longe de acreditar que isso aconteça.

E agora que estou a terminar esta crónica, partilho com os leitores a minha ideia inicial: estava decidido a falar da fraca prestação da seleção portuguesa no Campeonato do Mundo. A nossa equipa joga no final desta semana com a Croácia, e se tivesse de apostar todas as minhas fichas, não apostava em Portugal. (Até porque já apostei o jogo com o Congo e perdi!) Obviamente que quero que a seleção ganhe, mas olhando para aquilo que temos jogado, só mesmo um milagre faria desta equipa campeã do mundo. É incrível como é que uma seleção com alguns dos melhores jogadores do mundo, que jogam nalgumas das melhores equipas do mundo, joga tão pouco. Espero enganar-me em todas estas minhas pessimistas previsões, e espero ver em breve no cargo de Selecionador Nacional alguém que nunca treinou nenhuma das minhas equipas, mas que aprendi a admirar: Jorge Jesus.


Crónica publicada na edição 528 do Notícias de Coura, 7 de julho de 2026





terça-feira, 30 de junho de 2026

O nosso vídeo viralizou Professor!

Nas últimas aulas do ano letivo muitos professores deixam que os alunos se divirtam de forma diferente, há aqueles que fazem festas com doces e bebidas, há outros que simplesmente deixam os alunos sair mais cedo, e num mundo “dominado” pelas redes sociais, há outros que não resistem a deixar os alunos fazer as “trends” da última aula. Aceitei fazê-lo, naturalmente! Os alunos explicaram-me rapidamente como seriam as filmagens e em menos de dois minutos estava pronto um vídeo de 10 segundos, aquele em que o Professor diz aos alunos: “Até à próxima aula!”, os alunos respondem: “Mas Professor, não há próxima aula!”, e o vídeo termina com o Professor a rodopiar, ou a dar uns saltos, fingindo-se feliz por ter terminado mais um ano letivo. O vídeo foi feito na minha conta do tiktok, os alunos filmaram, escolheram a música, colocaram legendas e efeitos, escolheram as hashtags e identificaram-se, eu só verifiquei se não havia nenhum erro ortográfico e cliquei no botão para publicar! Eles ficaram felizes, e eu feliz de os ver tão contentes por uma coisa tão simples. Não pensei mais na publicação, continuei a trabalhar e só no final do dia, já depois de jantar, voltei a abrir o tiktok para ver as novidades. Tinha mais de doze mil visualizações! Fiquei sem reação! Como era possível!? Os meus vídeos raramente chegam às mil visualizações, e mesmo que todos os alunos da escola o tivessem visto pouco passaria das três mil! Doze mil!? O algoritmo definitivamente surpreendeu-me! No dia seguinte, quando me viram correram para me dizer: “Professor, o nosso vídeo viralizou!”

Não adianta procurar uma explicação lógica para tal fenómeno, não foi o conteúdo, não foi a música nem sequer as hashtags utilizadas, até porque experimentei a mesma habilidade dois dias depois, e mesmo com iguais procedimentos pouco passou das três mil visualizações. Umberto Eco acerca do êxito das redes sociais escreveu um dia que o mesmo se deve ao facto de “a comunicação não se deslocar diretamente, mas como as bolas de bilhar: as ideias têm de ressaltar noutro sítio para ganharem força. Na lógica das redes sociais, um conteúdo torna-se viral não pelo seu conteúdo, mas pelas republicações, no fundo, o eco torna-se mais importante que a voz.” Não há explicação lógica, na verdade foi um acaso, uma publicação feita à hora certa! (Teve o mérito de ser decisiva na avaliação final atribuída à aluna cujo talento permitiu tal feito. Como Professor da disciplina de Tecnologias de Informação e Comunicação não poderia deixar de valorizar o talento de uma aluna que fez de uma publicação na conta do Professor um vídeo viral.)

Vivemos um tempo assustador. Ou se colocam limites às capacidades da inteligência artificial ou a raça humana entrou mesmo num caminho de não retorno. Temos consciência da responsabilidade do ser humano em provocar a sua própria destruição, mas não havia necessidade de o fazermos tão depressa. Há tarefas que demoravam horas e horas a planear, hoje demoram poucos minutos. Planear as férias é um pequeno exemplo. Até ao ano passado eu demorava horas e horas a planear um período de férias de seis ou sete dias. Pesquisava os monumentos a visitar, os itinerários a fazer, as estradas e os locais de paragem, os tempos de viagem, os restaurantes a experimentar, os custos da alimentação e dos monumentos. Era um trabalho que demorava bastantes horas, para no final imprimir um documento de cinco ou seis páginas com o programa. Hoje, basta perder meia hora a descrever detalhadamente o que se quer, as datas, os locais, o dinheiro que se quer gastar, o esforço físico que se quer fazer e os locais que se querem visitar. Esperamos uns minutos e é só descarregar o documento. Fazem-se uns ajustes e estão planeadas as férias. Fantástico! Ficamos com mais tempo para… para quê!? O segredo está aqui, há que saber aproveitar o tempo que a inteligência artificial nos dá, para a transformar em inteligência racional, ou simplesmente algo mais natural, algo mais humano.

Como utilizador das novas tecnologias, são inúmeras as vantagens da utilização da inteligência artificial para determinadas tarefas, mas acreditem que me irrito profundamente quando tenho de provar ao computador que “não sou um robô”, e selecionar todas as imagens que têm motas, bicicletas ou autocarros. Irra.

Crónica publicada na edição 527 do Notícias de Coura, 23 de junho de 2026