terça-feira, 11 de agosto de 2026

Orienta-me aí um atrelado!

Já em tempos usei a expressão “Orienta-me” para dar título a uma crónica. Foi em 2021 e escrevia eu sobre a “chico-espertice” dos portugueses em conseguir vantagens pela porta dos fundos. Nessa altura, as vacinas de combate ao Covid 19 eram destinadas aos grupos de risco, mas foram às centenas aqueles que se safaram por serem amigos ou familiares de pessoas com poder de decisão. Este tipo de comportamento é intrínseco ao povo português, e assim continuará a ser.

Vem isto a propósito dos casos e casinhos que envolvem o Ministro da Administração Interna, Luís Neves. A cada dia que passa são descobertas novas polémicas, às quais o Sr. Ministro vai tendo o desplante de nada esclarecer e a ousadia de continuar a afirmar que “a seu tempo” dará todos os esclarecimentos. Ao que parece, as obras na quinta do  Sr. Ministro foram feitas numa zona de reserva agrícola e reserva ecológica, foi também construído um parque de estacionamento e uma piscina. Sinceramente, nem considerava isso muito grave não fosse o descaramento do Sr. Ministro em vir dizer que não era uma piscina, tratava-se de um tanque de rega. O povo não é burro Sr. Ministro, tenha vergonha. Depois, descobre-se que o empreiteiro responsável é o mesmo que fez algumas obras para a Polícia Judiciária (e ao que parece, só uma delas por concurso público), mas até nem isso seria muito grave. Se o empreiteiro é bom, é natural que o Sr. Ministro o contrate. Mas não devia. Cabe aos políticos o mesmo que à mulher de César, não lhes basta ser sérios, têm de o parecer. Aquilo que já parecia um esquema de negócios pouco sérios, atinge o seu auge quando se descobre que nos armazéns do empreiteiro/amigo do Ministro está um atrelado que tinha sido apreendido numa operação de tráfico de droga. Não é preciso que Luís Neves esclareça nada. O amigo pediu-lhe um atrelado e ele desviou um das instalações da Polícia Judiciária (PJ). Simples. Com esta brincadeira vão safar-se os acusados de tráfico, os seus advogados já pediram a nulidade da prova e obviamente que isso terá de ser aceite. No meio disto tudo, irrito-me por ter de concordar com André Ventura quando afirma que parece que o Ministro tem o PSD e o PS na mão, ninguém lhe faz frente.

O Chega não perde a oportunidade para lançar gasolina para a fogueira e apresentou já uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) aos mandatos de Luís Neves como Diretor Nacional da PJ. Esta comissão vai devassar a PJ, o que não deixa de ser uma boa notícia para os delinquentes e bandidos de Portugal. Além de criar instabilidade no governo, vai acabar por colocar em causa os métodos de atuação desta polícia. O Partido Socialista acusa, e bem, o Chega de tentar fragilizar a PJ por causa das investigações às ligações do Chega ao Movimento 1143 e ao Movimento Armilar Lusitano. Não é de espantar este tipo de atuação do partido de André Ventura, já a CPI ao caso das gémeas e da suposta cunha do filho do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, não visava outra coisa que não fosse desgastar e denegrir a imagem do Presidente, e conseguiu. Tudo isto é vergonhoso demais.

Em 2004 Santana Lopes foi demitido (sei bem que foi a Assembleia da República que foi dissolvida, mas o resultado foi o mesmo), por bem menos. A diferença é que na altura havia uma oposição com capacidade de vencer eleições (Sócrates… de má memória!) O problema é o atual momento político. Os portugueses estão fartos de eleições é certo, e a alternativa é ainda pior. Que adianta o PS estar em 1.º lugar nas intenções de voto? Tem um líder sem carisma e que não consegue entusiasmar, e mesmo que vencesse as eleições, com quem faria governo? A Esquerda está em frangalhos e não me parece que tão cedo volte a ter hipótese de pensar em governar. E enquanto isso, o populismo avança, e tanto PS como o PSD continuam a dar-lhe palco. Esperemos que os incêndios que estão a devastar Espanha e França não se lembrem de vir para Portugal, se a coisa corre mal Luís Montenegro não tem outra solução que não seja demiti-lo. Talvez seja por isso que não vai de férias.

Boas férias e bom festival a todos!


Crónica publicada na edição 530 do Notícias de Coura, 4 de agosto de 2026



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