terça-feira, 22 de setembro de 2026

Podia escrever sobre tanta coisa.

Foi um mês de agosto pequeno. Este ano as férias pareceram ainda mais pequenas fruto das trapalhadas nos exames nacionais do ensino secundário. Foi um mês assustador com os incêndios que queimaram centenas de hectares do concelho de Valpaços e que muito me assustaram. Agosto acabou, e com setembro voltam as aulas, o trabalho, e voltam as crónicas no Notícias de Coura. Sabia que elas só voltavam em setembro e de vez em quando escrevia umas coisas aqui nuns papéis para me apoiar quando chegasse a altura de escrever as minhas 700 palavras. O prazo acabou, pego nesses papéis e já não me lembro sobre as razões que me levaram a escrevê-los. Devia ter escrito uma frase ou duas, e não apenas uma ou duas palavras. Podia escrever sobre tanta coisa, e agora quase nada me resta.

Podia escrever sobre a moção de censura que o Chega vai apresentar amanhã. Mas para quê? Já se sabe o resultado, e também já se sabe que tudo o que o André Ventura promove é para ter palco mediático, para estar constantemente nas páginas da comunicação social. E na verdade, tem sido exímio nesse esforço. Eu ainda sou do tempo em que os Ministros se demitiam por coisas bem menos graves, como quando Jorge Coelho se demitiu do cargo de Ministro de Estado e Equipamento Social depois da queda da Ponte de Entre-os Rios, ou quando João Soares se demitiu do cargo de Ministro da Cultura depois de prometer umas “salutares bofetadas” a Vasco Pulido Valente e Augusto M. Seabra, cronistas do jornal Público. É verdade que Luís Neves, Ministro da Administração Interna, tem sido alvo de uma campanha agressiva nunca vista, mas também é verdade que os casos em que está envolvido são mais do que suficientes para ter tido o bom senso de se demitir. E para agravar a situação, ainda tem a ousadia de usar um tom provocador e autoritário, quem o ouvir, fica com sensação de que é ele o “dono disto tudo”.

Estive quase para escrever sobre o gang do Rolex, e o azar que teve em assaltar um “tipo” mais louco que eles. A estupidez do ladrão em assaltar um carro daquele tamanho com uma simples scooter, não podia dar certo. Roubaram-lhe o relógio, mas o assaltado era ainda mais maluco, perseguiu-o, acertou-lhe com o carro e o bandido teve o azar de ser atropelado e morrer. Não sou daqueles que rejubila com a morte do ladrão, “quem anda à chuva, molha-se”, e seria bem pior que morresse algum inocente apanhado no meio desta confusão. Aquilo que me parece é que se está a resvalar para um sentimento de “justiça popular”, são cada vez mais os exemplos das falhas gritantes da justiça que devia imperar, aquela dos tribunais, em que os culpados são punidos. Os cidadãos sentem que o Estado não os protege como devia, e se a justiça regressa às ruas, abana um dos pilares da democracia. E isso pode ser muito perigoso.

Podia também escrever sobre as constantes idiotices do Presidente Donald Trump. Há uns dias assinou uma ordem executiva para renomear o Lago Ontário para “Lago América”. A Apple juntou-se à Google e adotou o nome dado pelo presidente norte-americano. Poucos dias depois sugeriu mudar nome do estreito de Ormuz para "Estreito Trump", sugere também que o estado do Novo México deverá mudar de nome e passar a chamar-se "Nova América", enquanto publica uma imagem que mostra um mapa da América do Norte, América Central, Caraíbas, Groenlândia e Islândia totalmente coberto pela bandeira dos Estados Unidos. Já não há palavras sensatas que se possam escrever sobre este senhor. É parvoíce a mais para uma só pessoa, e o problema é que essa pessoa é Presidente dos Estados Unidos da América. Pior ainda, é os mercados internacionais reagirem a este tipo de declarações. O problema não é os EUA terem um dirigente que é louco, o problema são as consequências das suas ações para o resto mundo.

Podia finalmente escrever sobre o aumento brutal do preço dos combustíveis, mas isso iria trazer-me muitas saudades dos anos em que vivi em Paredes de Coura e ia abastecer a Tui, e poupava alguns euros que depois gastava nas muitas viagens que fazia até ao Monte de São Silvestre para fotografar o pôr-do-sol. E assim se termina uma crónica com uma imagem lindíssima!

Crónica publicada na edição 531 do Notícias de Coura, 15 de setembro de 2026