terça-feira, 20 de outubro de 2026

O preço da fama.

“Dia de muito, véspera de nada!” Têm sido inúmeras as crónicas em que os leitores do Notícias de Coura sofrem com os meus lamentos por não ter assunto para escrever. Desta vez estou zangado, pois já tinha a crónica quase pronta e eis que surge mais uma novela a assombrar a Seleção Nacional de Futebol. Obviamente que não posso deixar escapar o tema que enche as televisões, mas também não quero perder o tema anterior. Vou tentar pela primeira vez escrever um texto a dois tempos, que começa com aquilo que tinha preparado e que termina com um assunto que não posso perder.

“O que tem no carro, o pingo doce…” Mas que raio de música é essa? Perguntei eu ignorando por completo o que tinha causado esta nova trend das crianças e adolescentes. Depois de me contarem a história, fui obviamente confirmar. Uma senhora, tinha invadido um palco onde decorria uma atuação musical. Fê-lo de forma tão natural que só quando arrancou o microfone ao músico e proferiu as palavras acima referidas é que a produção percebeu que algo não estava bem, e lá a retiraram do palco. Resultado: teve o seu minuto de fama! No dia seguinte esteve no programa da manhã da CMTV, e foi convidada para o podcast do Tiago Paiva (que confesso não conhecer), ao qual acabou por não ir pois apressou-se a pedir dois mil euros para estar presente! Passam-se alguns dias e eis que a mesma senhora, entretanto conhecida por “Diva do Pingo Doce”, é de novo notícia. Desta vez por desacatos com a senhoria, confusão e ofensas num café. Foi detida por suspeitas de injúrias a agentes policiais e por permanência ilegal em território nacional. Tem agora quinze dias para regularizar a sua situação. Não sei bem como caraterizar estas duas parvoíces, nem qual delas será a mais lamentável: um imigrante irregular num país subir a um palco e depois ir à televisão, ou a viralização nas redes sociais daquilo que essa pessoa cantou. Triste país.

Esta seria a parte do texto em que falaria sobre um tema polémico, a imigração ilegal, mas eis que rebenta a bomba na seleção nacional! Já não preciso correr riscos a escrever sobre um assunto que divide opiniões. A bomba na seleção era como os terramotos, sabemos que vamos ter um, não sabemos é quando!

Cristiano Ronaldo está em fim de carreira, infelizmente só ele parece não ter ainda percebido isso. Forçar a sua presença na equipa nacional é, desde há uns anos, um objetivo estratégico e comercial da Federação Portuguesa de Futebol, e do próprio jogador. Se é verdade que lhe tinha sido prometido que jogava dois jogos, ou que iria jogar trinta minutos noutro jogo é desde logo lamentável. E aqui a culpa foi do treinador Jorge Jesus, quem diz que Ronaldo tem outro estatuto, mas que teria de trabalhar como os outros para jogar, não poderia fazer tais promessas. Não está minimamente em causa tudo aquilo que Ronaldo deu à seleção e ao país. Portugal é hoje reconhecido mundialmente devido a Ronaldo. Existem milhões de pessoas pelo mundo que não fazem ideia onde fica Portugal, mas que ao ouvir o nome do país, dizem logo: Ronaldo! O que não pode acontecer é que o ego de um jogador se sobreponha aos interesses nacionais, por mais milhões que ele possa trazer à federação e ao país. Os estádios enchem por esse mundo fora para ver Ronaldo, e não a seleção portuguesa. Mas o que é afinal mais importante? Não será a seleção ganhar os jogos!? Para mim, como adepto, obviamente que é. Por mais promessas que lhe tivessem feito, é lamentável o amuo de Ronaldo. Abandonar o estágio da seleção é não ter consideração pela estrutura, pelos colegas e pelos portugueses. Custa-me bastante escrever isto, sempre admirei o seu espírito de sacrifício, a sua capacidade de trabalho e a sua solidariedade em tantas causas. É uma pena que tenha acabado assim.

Quanto ao Mister Jorge Jesus, sempre gostei imenso dele e até já lhe dediquei uma crónica (edição 376 do Notícias de Coura, 03 de dezembro de 2019), e não vou passar a gostar mais pelo facto de ter colocado Ronaldo no banco de suplentes. Poderei gostar sim, como decerto muitos portugueses, se a seleção praticar o futebol agradável e destemido que já vimos nos últimos dois jogos. Sei bem que ao primeiro tropeção vão logo agitar o fantasma da falta de Ronaldo, mas nesta seleção: “- Eu acredito!

Crónica publicada na edição 533 do Notícias de Coura, 13 de outubro de 2026




terça-feira, 6 de outubro de 2026

Sejam poupados.

O preço dos combustíveis está em valores que batem recordes semana após semana. Na última semana achei curioso ouvir nas notícias que as temperaturas iam subir dez graus, a gasolina oito e o gasóleo nove, cêntimos! Curiosa combinação! Desde o início do conflito no Médio Oriente o gasóleo já subiu cerca de sessenta cêntimos e a gasolina quarenta. (Se continua assim, o país vai ao charco.)

Perante o aumento do consumo deste bem que começa a ser cada vez mais escasso, a Ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, veio apelar à poupança dos portugueses e ao uso de transportes públicos. Ora aqui está uma boa ideia, nem sei como é que as empresas de distribuição ainda não se lembraram disso! Podiam dispensar os camiões e enviar as mercadorias de autocarro. Um absurdo. Obviamente que todos aqueles que têm a possibilidade de usar transportes públicos o fazem, pois não têm sequer escolha, andar de transporte próprio para muitos portugueses é absolutamente impossível. E muitos deles até têm viatura própria, mas fica-lhes dez vezes mais barato andar de autocarro. (Obviamente que esta opção é apenas possível para quem vive nos grandes centros urbanos, em grande parte do país a oferta de transportes públicos é irrelevante). O governo afirma semana após semana não estar a lucrar nada com o aumento dos preços, e vai minimizando o aumento dos preços com os ajustes no Imposto Sobre os Produtos Petrolíferos. Ainda assim, Portugal continua a ser um dos países com os combustíveis mais caros e onde os impostos sobre os mesmos são os mais altos.

Concordo com a Senhora Ministra do Ambiente quando ela diz que não podemos colocar em risco as contas públicas, mas não me parece que possa caraterizar como fortes apoios os que estão a ser dados a alguns setores como a agricultura, a pesca e os transportes públicos e de mercadorias, e também aos bombeiros. Na verdade, o único apoio existente chega a todos por igual, e para quem está atento ao preço do cabaz alimentar, verifica que ele não para de aumentar, semana após semana. Entretanto, está prevista a visita a Portugal do Ministro da Argélia responsável pelo setor dos combustíveis e o governo aguarda as eleições no Brasil para retomar ligações económicas neste setor. A culpa não é só de Portugal, toda a Europa viveu demasiado tempo ajoelhada à Rússia e aos Estados Unidos da América. Talvez já seja tarde demais para perceberem que essa dependência era tudo o que eles queriam. Fiquemos com o conselho: Sejamos poupados. E será que é só nos combustíveis que os portugueses devem ser poupados?

Na educação já se começou a poupar no número de turmas. Depois de se saber que havia centenas de alunos sem turma, o governo decide o problema numa reunião à noite: aumentem-se as turmas até trinta alunos. (Apetecia-me sugerir que aumentassem até quarenta alunos, acabava de uma vez por todas a falta de professores). O senhor Ministro da Educação já veio afirmar que “até aos trinta alunos não há evidência de que isso seja mau para a qualidade do ensino”. Obviamente que não! Imagine-se uma turma com vinte alunos, numa aula de cinquenta minutos o professor consegue dar uma atenção individualizada de mais de dois minutos a cada aluno. Se a turma tiver trinta, ou até quarenta a coisa é quase a mesma (é fazer as contas, como dizia António Guterres!). Na verdade, eu sei que o Sr. Ministro da Educação sabe o que se passa nas salas de aula do ensino público (a escola dos pobres como eu gosto de dizer)! Eu tenho turmas de trinta alunos, tenho sempre alguns alunos que aprendem tudo à primeira, podem ser ignorados porque safam-se sozinhos, depois há mais alguns que por mais esforço que o Professor faça, não querem saber daquilo para nada, há ainda um ou dois por turma que só aparecem de dois em dois meses para que a escola lhes passe o papel da matrícula e não percam o abono de família, restam dez ou doze que se vão esforçando e valendo o esforço diário de ensinar a quem quer aprender. (Estarei a ser irónico? Quem o quiser comprovar pode vir assistir ao trabalho dos professores no dia-a-dia, muitas vezes em condições inaceitáveis para um país como Portugal, em pleno século XXI).

E como estamos em maré de poupança, a crónica fica por aqui!


Crónica publicada na edição 532 do Notícias de Coura, 29 de setembro de 2026



terça-feira, 22 de setembro de 2026

Podia escrever sobre tanta coisa.

Foi um mês de agosto pequeno. Este ano as férias pareceram ainda mais pequenas fruto das trapalhadas nos exames nacionais do ensino secundário. Foi um mês assustador com os incêndios que queimaram centenas de hectares do concelho de Valpaços e que muito me assustaram. Agosto acabou, e com setembro voltam as aulas, o trabalho, e voltam as crónicas no Notícias de Coura. Sabia que elas só voltavam em setembro e de vez em quando escrevia umas coisas aqui nuns papéis para me apoiar quando chegasse a altura de escrever as minhas 700 palavras. O prazo acabou, pego nesses papéis e já não me lembro sobre as razões que me levaram a escrevê-los. Devia ter escrito uma frase ou duas, e não apenas uma ou duas palavras. Podia escrever sobre tanta coisa, e agora quase nada me resta.

Podia escrever sobre a moção de censura que o Chega vai apresentar amanhã. Mas para quê? Já se sabe o resultado, e também já se sabe que tudo o que o André Ventura promove é para ter palco mediático, para estar constantemente nas páginas da comunicação social. E na verdade, tem sido exímio nesse esforço. Eu ainda sou do tempo em que os Ministros se demitiam por coisas bem menos graves, como quando Jorge Coelho se demitiu do cargo de Ministro de Estado e Equipamento Social depois da queda da Ponte de Entre-os Rios, ou quando João Soares se demitiu do cargo de Ministro da Cultura depois de prometer umas “salutares bofetadas” a Vasco Pulido Valente e Augusto M. Seabra, cronistas do jornal Público. É verdade que Luís Neves, Ministro da Administração Interna, tem sido alvo de uma campanha agressiva nunca vista, mas também é verdade que os casos em que está envolvido são mais do que suficientes para ter tido o bom senso de se demitir. E para agravar a situação, ainda tem a ousadia de usar um tom provocador e autoritário, quem o ouvir, fica com sensação de que é ele o “dono disto tudo”.

Estive quase para escrever sobre o gang do Rolex, e o azar que teve em assaltar um “tipo” mais louco que eles. A estupidez do ladrão em assaltar um carro daquele tamanho com uma simples scooter, não podia dar certo. Roubaram-lhe o relógio, mas o assaltado era ainda mais maluco, perseguiu-o, acertou-lhe com o carro e o bandido teve o azar de ser atropelado e morrer. Não sou daqueles que rejubila com a morte do ladrão, “quem anda à chuva, molha-se”, e seria bem pior que morresse algum inocente apanhado no meio desta confusão. Aquilo que me parece é que se está a resvalar para um sentimento de “justiça popular”, são cada vez mais os exemplos das falhas gritantes da justiça que devia imperar, aquela dos tribunais, em que os culpados são punidos. Os cidadãos sentem que o Estado não os protege como devia, e se a justiça regressa às ruas, abana um dos pilares da democracia. E isso pode ser muito perigoso.

Podia também escrever sobre as constantes idiotices do Presidente Donald Trump. Há uns dias assinou uma ordem executiva para renomear o Lago Ontário para “Lago América”. A Apple juntou-se à Google e adotou o nome dado pelo presidente norte-americano. Poucos dias depois sugeriu mudar nome do estreito de Ormuz para "Estreito Trump", sugere também que o estado do Novo México deverá mudar de nome e passar a chamar-se "Nova América", enquanto publica uma imagem que mostra um mapa da América do Norte, América Central, Caraíbas, Groenlândia e Islândia totalmente coberto pela bandeira dos Estados Unidos. Já não há palavras sensatas que se possam escrever sobre este senhor. É parvoíce a mais para uma só pessoa, e o problema é que essa pessoa é Presidente dos Estados Unidos da América. Pior ainda, é os mercados internacionais reagirem a este tipo de declarações. O problema não é os EUA terem um dirigente que é louco, o problema são as consequências das suas ações para o resto mundo.

Podia finalmente escrever sobre o aumento brutal do preço dos combustíveis, mas isso iria trazer-me muitas saudades dos anos em que vivi em Paredes de Coura e ia abastecer a Tui, e poupava alguns euros que depois gastava nas muitas viagens que fazia até ao Monte de São Silvestre para fotografar o pôr-do-sol. E assim se termina uma crónica com uma imagem lindíssima!

Crónica publicada na edição 531 do Notícias de Coura, 15 de setembro de 2026






terça-feira, 11 de agosto de 2026

Orienta-me aí um atrelado!

Já em tempos usei a expressão “Orienta-me” para dar título a uma crónica. Foi em 2021 e escrevia eu sobre a “chico-espertice” dos portugueses em conseguir vantagens pela porta dos fundos. Nessa altura, as vacinas de combate ao Covid 19 eram destinadas aos grupos de risco, mas foram às centenas aqueles que se safaram por serem amigos ou familiares de pessoas com poder de decisão. Este tipo de comportamento é intrínseco ao povo português, e assim continuará a ser.

Vem isto a propósito dos casos e casinhos que envolvem o Ministro da Administração Interna, Luís Neves. A cada dia que passa são descobertas novas polémicas, às quais o Sr. Ministro vai tendo o desplante de nada esclarecer e a ousadia de continuar a afirmar que “a seu tempo” dará todos os esclarecimentos. Ao que parece, as obras na quinta do  Sr. Ministro foram feitas numa zona de reserva agrícola e reserva ecológica, foi também construído um parque de estacionamento e uma piscina. Sinceramente, nem considerava isso muito grave não fosse o descaramento do Sr. Ministro em vir dizer que não era uma piscina, tratava-se de um tanque de rega. O povo não é burro Sr. Ministro, tenha vergonha. Depois, descobre-se que o empreiteiro responsável é o mesmo que fez algumas obras para a Polícia Judiciária (e ao que parece, só uma delas por concurso público), mas até nem isso seria muito grave. Se o empreiteiro é bom, é natural que o Sr. Ministro o contrate. Mas não devia. Cabe aos políticos o mesmo que à mulher de César, não lhes basta ser sérios, têm de o parecer. Aquilo que já parecia um esquema de negócios pouco sérios, atinge o seu auge quando se descobre que nos armazéns do empreiteiro/amigo do Ministro está um atrelado que tinha sido apreendido numa operação de tráfico de droga. Não é preciso que Luís Neves esclareça nada. O amigo pediu-lhe um atrelado e ele desviou um das instalações da Polícia Judiciária (PJ). Simples. Com esta brincadeira vão safar-se os acusados de tráfico, os seus advogados já pediram a nulidade da prova e obviamente que isso terá de ser aceite. No meio disto tudo, irrito-me por ter de concordar com André Ventura quando afirma que parece que o Ministro tem o PSD e o PS na mão, ninguém lhe faz frente.

O Chega não perde a oportunidade para lançar gasolina para a fogueira e apresentou já uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) aos mandatos de Luís Neves como Diretor Nacional da PJ. Esta comissão vai devassar a PJ, o que não deixa de ser uma boa notícia para os delinquentes e bandidos de Portugal. Além de criar instabilidade no governo, vai acabar por colocar em causa os métodos de atuação desta polícia. O Partido Socialista acusa, e bem, o Chega de tentar fragilizar a PJ por causa das investigações às ligações do Chega ao Movimento 1143 e ao Movimento Armilar Lusitano. Não é de espantar este tipo de atuação do partido de André Ventura, já a CPI ao caso das gémeas e da suposta cunha do filho do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, não visava outra coisa que não fosse desgastar e denegrir a imagem do Presidente, e conseguiu. Tudo isto é vergonhoso demais.

Em 2004 Santana Lopes foi demitido (sei bem que foi a Assembleia da República que foi dissolvida, mas o resultado foi o mesmo), por bem menos. A diferença é que na altura havia uma oposição com capacidade de vencer eleições (Sócrates… de má memória!) O problema é o atual momento político. Os portugueses estão fartos de eleições é certo, e a alternativa é ainda pior. Que adianta o PS estar em 1.º lugar nas intenções de voto? Tem um líder sem carisma e que não consegue entusiasmar, e mesmo que vencesse as eleições, com quem faria governo? A Esquerda está em frangalhos e não me parece que tão cedo volte a ter hipótese de pensar em governar. E enquanto isso, o populismo avança, e tanto PS como o PSD continuam a dar-lhe palco. Esperemos que os incêndios que estão a devastar Espanha e França não se lembrem de vir para Portugal, se a coisa corre mal Luís Montenegro não tem outra solução que não seja demiti-lo. Talvez seja por isso que não vai de férias.

Boas férias e bom festival a todos!


Crónica publicada na edição 530 do Notícias de Coura, 4 de agosto de 2026



terça-feira, 28 de julho de 2026

Onda de calor.

Já não é a primeira ocasião em que a pretexto do calor decido colocar essa palavra no título de uma crónica. Da última vez foi em 2023, e aproveito novamente para falar de algumas coisas que aquecem a temperatura do país e do mundo. Neste caso, mais do que os quarenta graus que os termómetros possam atingir, são outras coisas que nos devem fazer subir a temperatura, a raiva, a indignação e a revolta. Vou deixar aqui pequenas considerações sobre algumas delas.

Calor com os exames nacionais. Não vou escrever mais do que aquilo que já fiz na crónica passada, o Ministério da Educação decidiu arriscar com um processo que tem tudo para correr mal, e que eu continuo a acreditar que vai correr mal. Quando o jornal chegar às mãos dos leitores logo se vê se eu estava certo ou errado.

Calor na Seleção Nacional. Depois da eliminação previsível, e justa frente à Espanha, sente-se algum entusiasmo com a escolha de Jorge Jesus para selecionar nacional. Os portugueses não perderam tempo com as piadas que normalmente envolvem o treinador, mas eu acredito que em breve, além de nos rirmos com as piadas vamo-nos rir com os resultados e com o bom futebol, e aproveitando uma das tiradas de JJ, com ele na seleção, “o mau futebol, finish”!

Calor no mundial, e a interferência de Donald Trump que fez um telefonema ao presidente da FIFA para que o cartão vermelho mostrado a um jogador da seleção americana fosse perdoado. De nada lhe valeu, no jogo seguinte a seleção americana jogou tão mal que parecia estar envergonhada com a atitude do seu Presidente. As três viagens do 1.º Ministro Luís Montenegro, além de desnecessárias, e mesmo sendo feitas num avião militar, devem-se ter revelado uma canseira descomunal, não havia necessidade. Concordo com a importância de alguém que represente institucionalmente o país estar presente, mas há muitas personalidades que o poderiam ter feito. O preço dos bilhetes revelou-se também um aspeto de discussão. Os valores para os jogos da nossa seleção variaram entre os 225€ e os 600€. Se Portugal fosse à final os portugueses teriam de pagar entre 3500€ e 7400€. Um absurdo.

Calor com os disparates de Donald Trump na Cimeira da Nato, em que começou logo por afirmar que só lá estava pelo facto do anfitrião ser o seu amigo Erdogan. Perante esta falta de consideração aquilo que todos os líderes presentes deviam ter feito era simples: deixá-los aos dois sozinhos. Trump aproveita para reafirmar a necessidade de controlar a Gronelândia e termina a Cimeira afirmado ter havido “muito amor na sala”, na verdade, o negociador Trump conseguiu que todos os países aumentassem os seus investimentos militares, e obviamente que serão os Estados Unidos a ganhar com isso. Ao mesmo tempo, Trump não desiste de atacar o Irão, e até diz ter mil mísseis apontados e preparados para serem lançados. E assim se brinca às guerras e se condiciona o mercado mundial.

Calor nos festivais, cheios de gente, onde quer que sejam, quaisquer que sejam os artistas e bandas, qualquer que seja o preço dos bilhetes e independentemente da temperatura que se faça sentir. Além da alimentação e da saúde, negócios que sempre terão sucesso, os festivais são definitivamente o negócio do momento.

Calor e horror em Espanha com dezenas de mortos no incêndio de Almeria e com a tragédia de terem morrido a fugir do fogo. Faz lembrar Pedrógão em 2017, mas enquanto na Espanha as pessoas tinham indicações das autoridades para não abandonar as casa, no nosso país nem indicações houve. Calor na última sessão da Assembleia Municipal de Paredes de Coura. Se os leitores deixaram escapar a última edição do Notícias de Coura, por favor leiam a página três. A intervenção de José Augusto Caldas faz lembrar as piores intervenções do Chega na Assembleia da República.


Crónica publicada na edição 529 do Notícias de Coura, 21 de julho de 2026



terça-feira, 14 de julho de 2026

Se algo pode correr mal, correrá mal!

Resolvi usar a Lei de Murphy para dar título a esta crónica, a propósito do caos que está instalado no serviço de exames do ensino básico e secundário. A decisão do Ministério da Educação em digitalizar a totalidade dos exames nacionais de conclusão do ensino secundário e de acesso ao ensino superior, não foi ousada, foi tomada de forma leviana e sem base de sustentação que garantisse que o sistema aguentava tamanha quantidade de trabalho.

Quando deixei Coura e vim para uma nova escola na margem sul pensei que me ia safar do serviço informático dos exames, aqui ninguém me conhece, pensei. Pensei mal, nem um ano me livrei de tal tarefa. Não é que seja nada do outro mundo, mas já estava cansado de desde 2006 estar entregue a tal trabalho. Pois cá estou, o trabalho é de responsabilidade e as tarefas que tenho ainda são menos que em Coura, mas aqui os alunos são dez vezes mais! Temos mais exames aqui logo no primeiro dia que tinha em Coura durante as duas fases de exames!

Regressando à atualidade, no dia em que escrevo esta crónica os exames já deviam estar quase todos distribuídos aos professores corretores. Por aquilo que se vai lendo na Internet, ainda poucos foram entregues, e esses poucos há já imensos problemas. O Sr. Ministro da Educação garante que houve alguns atrasos, mas que está tudo a ser tratado, e que os prazos serão cumpridos. Ou seja, os Professores podem receber os exames com uma semana de atraso, mas terão de os corrigir dentro do prazo inicialmente previsto. Pior ainda, é o Ministério da Educação tenta “sacudir a água do capote”, isto é, atirar a culpa das falhas para as Direções das Escolas. O Ministro da Educação até já veio afirmar que a culpa é também dos agrafos, pois as escolas tinham instruções para não agrafar as provas e fizeram-no, e por cima do código QR! (Não quero acreditar que haja gente tão idiota nos secretariados de exames das escolas, mas nunca fiando.) Vi com agrado que alguns Diretores da região de Lisboa já emitiram um comunicado em que “manifestam a sua estranheza e profundo descontentamento relativamente ao comunicado divulgado pelo Júri Nacional de Exames/EduQA sobre o processo de classificação das provas dos exames nacionais.” A primeira subscritora é a Adriana Guerreiro, bem conhecida dos leitores do Notícias de Coura.

No meio do caos, há Professores que já morreram a ser chamados para classificar, professores de outros grupos disciplinares para corrigir provas de disciplinas para as quais não têm habilitação, só me apetece dizer que “há Professores capazes de tudo só para não ter de trabalhar”, alguns até morrem. (Não vá alguém ofender-se, é o meu lado sarcástico a escrever estas palavras).

Não costumo ser pessimista, mas todo este processo não me dá confiança nenhuma. Está em causa o futuro de milhares de alunos, e as dúvidas são ainda muitas. É bom que o Sr. Ministro já tenha garantido que nenhum aluno sairá prejudicado, mas isso só acontecerá se tudo correr bem, e estamos muito longe de acreditar que isso aconteça.

E agora que estou a terminar esta crónica, partilho com os leitores a minha ideia inicial: estava decidido a falar da fraca prestação da seleção portuguesa no Campeonato do Mundo. A nossa equipa joga no final desta semana com a Croácia, e se tivesse de apostar todas as minhas fichas, não apostava em Portugal. (Até porque já apostei o jogo com o Congo e perdi!) Obviamente que quero que a seleção ganhe, mas olhando para aquilo que temos jogado, só mesmo um milagre faria desta equipa campeã do mundo. É incrível como é que uma seleção com alguns dos melhores jogadores do mundo, que jogam nalgumas das melhores equipas do mundo, joga tão pouco. Espero enganar-me em todas estas minhas pessimistas previsões, e espero ver em breve no cargo de Selecionador Nacional alguém que nunca treinou nenhuma das minhas equipas, mas que aprendi a admirar: Jorge Jesus.


Crónica publicada na edição 528 do Notícias de Coura, 7 de julho de 2026





terça-feira, 30 de junho de 2026

O nosso vídeo viralizou Professor!

Nas últimas aulas do ano letivo muitos professores deixam que os alunos se divirtam de forma diferente, há aqueles que fazem festas com doces e bebidas, há outros que simplesmente deixam os alunos sair mais cedo, e num mundo “dominado” pelas redes sociais, há outros que não resistem a deixar os alunos fazer as “trends” da última aula. Aceitei fazê-lo, naturalmente! Os alunos explicaram-me rapidamente como seriam as filmagens e em menos de dois minutos estava pronto um vídeo de 10 segundos, aquele em que o Professor diz aos alunos: “Até à próxima aula!”, os alunos respondem: “Mas Professor, não há próxima aula!”, e o vídeo termina com o Professor a rodopiar, ou a dar uns saltos, fingindo-se feliz por ter terminado mais um ano letivo. O vídeo foi feito na minha conta do tiktok, os alunos filmaram, escolheram a música, colocaram legendas e efeitos, escolheram as hashtags e identificaram-se, eu só verifiquei se não havia nenhum erro ortográfico e cliquei no botão para publicar! Eles ficaram felizes, e eu feliz de os ver tão contentes por uma coisa tão simples. Não pensei mais na publicação, continuei a trabalhar e só no final do dia, já depois de jantar, voltei a abrir o tiktok para ver as novidades. Tinha mais de doze mil visualizações! Fiquei sem reação! Como era possível!? Os meus vídeos raramente chegam às mil visualizações, e mesmo que todos os alunos da escola o tivessem visto pouco passaria das três mil! Doze mil!? O algoritmo definitivamente surpreendeu-me! No dia seguinte, quando me viram correram para me dizer: “Professor, o nosso vídeo viralizou!”

Não adianta procurar uma explicação lógica para tal fenómeno, não foi o conteúdo, não foi a música nem sequer as hashtags utilizadas, até porque experimentei a mesma habilidade dois dias depois, e mesmo com iguais procedimentos pouco passou das três mil visualizações. Umberto Eco acerca do êxito das redes sociais escreveu um dia que o mesmo se deve ao facto de “a comunicação não se deslocar diretamente, mas como as bolas de bilhar: as ideias têm de ressaltar noutro sítio para ganharem força. Na lógica das redes sociais, um conteúdo torna-se viral não pelo seu conteúdo, mas pelas republicações, no fundo, o eco torna-se mais importante que a voz.” Não há explicação lógica, na verdade foi um acaso, uma publicação feita à hora certa! (Teve o mérito de ser decisiva na avaliação final atribuída à aluna cujo talento permitiu tal feito. Como Professor da disciplina de Tecnologias de Informação e Comunicação não poderia deixar de valorizar o talento de uma aluna que fez de uma publicação na conta do Professor um vídeo viral.)

Vivemos um tempo assustador. Ou se colocam limites às capacidades da inteligência artificial ou a raça humana entrou mesmo num caminho de não retorno. Temos consciência da responsabilidade do ser humano em provocar a sua própria destruição, mas não havia necessidade de o fazermos tão depressa. Há tarefas que demoravam horas e horas a planear, hoje demoram poucos minutos. Planear as férias é um pequeno exemplo. Até ao ano passado eu demorava horas e horas a planear um período de férias de seis ou sete dias. Pesquisava os monumentos a visitar, os itinerários a fazer, as estradas e os locais de paragem, os tempos de viagem, os restaurantes a experimentar, os custos da alimentação e dos monumentos. Era um trabalho que demorava bastantes horas, para no final imprimir um documento de cinco ou seis páginas com o programa. Hoje, basta perder meia hora a descrever detalhadamente o que se quer, as datas, os locais, o dinheiro que se quer gastar, o esforço físico que se quer fazer e os locais que se querem visitar. Esperamos uns minutos e é só descarregar o documento. Fazem-se uns ajustes e estão planeadas as férias. Fantástico! Ficamos com mais tempo para… para quê!? O segredo está aqui, há que saber aproveitar o tempo que a inteligência artificial nos dá, para a transformar em inteligência racional, ou simplesmente algo mais natural, algo mais humano.

Como utilizador das novas tecnologias, são inúmeras as vantagens da utilização da inteligência artificial para determinadas tarefas, mas acreditem que me irrito profundamente quando tenho de provar ao computador que “não sou um robô”, e selecionar todas as imagens que têm motas, bicicletas ou autocarros. Irra.

Crónica publicada na edição 527 do Notícias de Coura, 23 de junho de 2026




terça-feira, 16 de junho de 2026

Viagem ao Fitavale!

Foi em 2011 que nasceu o Fitavale, o Festival Itinerante de Teatro Amador do Vale do Minho, em que num fim-de-semana estreavam cinco peças de teatro das companhias de teatro amador dos concelhos de Melgaço, Monção, Valença, Paredes de Coura e Vila Nova de Cerveira. Um conceito inovador onde os atores dos diferentes concelhos se podiam conhecer e se fortaleciam os laços entre os grupos, todos estreavam a sua peça num concelho que não o seu. Criava-se uma autêntica romaria de teatro que encheu de boas memórias todos quantos dela participaram. Ninguém se esquece de quando o Presidente da Câmara de Vila Nova de Cerveira teve um lapso ao dar as boas-vindas ao “Fitivale”, da presença sempre sorridente da Wendy, a cadelinha do Rui Mendonça e do fantástico arroz de pato feito pela Dona Lúcia de Paredes de Coura que era sempre o jantar do último dia do festival. Participei como ator do TAC durante alguns anos neste magnífico evento, e mesmo depois de deixar de ser ator ou assistente de encenação, nunca faltei. O Fitavale tornou-se uma imagem do mês de Maio, como disse um dia João Pedro Vaz, ex-Diretor Artístico das Comédias do Minho: “No mês de maio os portugueses vão a Fátima, as pessoas do Vale do Minho vão ao Fitavale.”

Desde 2019 que vim viver para a margem sul, e só perdi o Fitavale de 2025 pois só soube das datas dois dias antes, quando recebi o Notícias de Coura. (Fiquei bastante zangado na altura, mas já me passou!) Parece loucura fazer quase mil quilómetros num fim-de-semana para ir ao teatro, mas é uma loucura tão saudável como os fazer para ir ao futebol ou a um festival de música. (Pior seria fazer duzentos quilómetros para comer uma posta à Mirandesa, como algumas pessoas da minha aldeia de Vilarandelo faziam em tempos!) Este ano o conceito foi diferente. Os grupos trabalharam em conjunto a obra “O pior é que fica” de José Maria Vieira Mendes, a partir da qual nasceram cinco criações distintas trabalhadas durante vários meses com os grupos amadores e sob a orientação de cinco atores das Comédias do Minho. Depois de estrearem nos seus próprios concelhos, o festival terminou com uma apresentação conjunta na tarde do dia 30 de maio, no auditório do Centro Cultural de Verdoejo. Foi uma agradável surpresa ver a nova imagem das instalações, aquela velha sala de teatro de cimento e telhado de zinco, deu origem a uma fantástica obra arquitetónica por fora (fazendo lembrar a Casa da Música do Porto), e simples, mas funcional por dentro, e com ar condicionado! Os atores já não derretem, como durante muitos anos (nos) aconteceu. Os grupos estão muito diferentes, muitas das pessoas são novas, mas em todos eles permanecem alguns atores que conheci há muitos anos, e assim é fácil identificar o grupo, há sempre alguém que a nossa memória não esquece.

O que me ficou das apresentações deste ano foi a beleza da imagem, a obra não me parece de fácil interpretação, mas todos os grupos conseguiram mostrar a pertinência e atualidade da mesma, a preocupação do ser humano naquilo que mostra, a necessidade de agradar aos demais, como se as coisas só existissem quando são apreciadas pelos outros, a dificuldade em manter convicções e crenças num mundo minado pela “coisa” social e pelo imediatismo, a ilusão das memórias e a raiva por vezes sentida quando nos apercebemos que não as podemos trazer de volta. O título da obra remete para a necessidade de saber superar os momentos de perda, dor e sofrimento, e não deixar que o que fica seja o pior. Lembrar os melhores momentos é sempre a melhor solução para atenuar o sofrimento, mas se fosse fácil, se calhar esta obra nem existiria. Voltei cansado, mas feliz, cumprida a romaria deste ano está perdoada a falta do ano passado e nasce já a vontade de viajar ao Minho em 2027. Esta era uma crónica que já estava praticamente pronta desde há uns dias, eu sabia que depois de voltar só teria de colocar em palavras o resumo de mais uma viagem ao Fitavale.


Crónica publicada na edição 526 do Notícias de Coura, 9 de junho de 2026





domingo, 7 de junho de 2026

Violência nas escolas.

Manhã de segunda-feira, percorro a internet em busca de assuntos que me ajudem a escrever mais uma crónica, e já depois de pedir ao Chat GPT que me dê ideias (obviamente que não resultou pois limita-se a dar-me ideias ainda menos abundantes que as que eu vou tendo em carteira), resolvo dar uma vista de olhos pelas capas dos jornais. Naturalmente, a mais chamativa é a do Correio da Manhã: “Crianças agredidas à vassourada em creche”. A notícia refere-se a uma creche de Amares e retrata situações de maus-tratos tão abomináveis que prefiro não enumerar.

As situações de violência nas escolas são, infelizmente, notícia quase todas as semanas. Nas creches e escolas primárias envolvem normalmente a violência dos educadores e/ou funcionários sobre as crianças, nas escolas básicas e secundárias a situação inverte-se e passam a ser os funcionários e os professores alvo das agressões dos alunos e em muitos casos dos Pais ou Encarregados de Educação.

Para que os leitores do Notícias de Coura não me “insultem” a meio da crónica, quero deixar desde já claro que obviamente sou contra a violência, em qualquer contexto. E quando leio notícias como aquela que acima referi, sou defensor de medidas punitivas severas, a violência gratuita sobre crianças indefesas merecia ser punida com uma castigo que aqui não escrevo, sob o risco de pensarem que sou militante do Chega. (Não sou, mas nestas coisas quase pareço.)

Lembro-me dos meus tempos de estudante, andei até à terceira classe numa escola em Canelas, Vila Nova de Gaia. A minha Professora dava-nos reguadas, uma, duas ou três conforme a gravidade do erro. Depois, na quarta classe fui para Vilarandelo, Trás-os-Montes. Apanhei o Professor Bernardino, conhecido pela violência nas terras em redor. Batia-nos com uma cana-da-Índia nas orelhas e dava-nos bofetadas da cara. A sua mão era bem maior que a nossa cara. Bateu-me algumas vezes, a pior foi quando me deu duas chapadas, uma de cada lado. Lembro-me que andei o dia todo sem sentir a cara, tal e qual uma anestesia do dentista. Isto não se passou no tempo da outra senhora, foi em 1984, era natural os Professores baterem nos alunos, e não era por se portarem mal, era simplesmente por não darem as respostas corretas, ou demorarem mais de um segundo a dizer quatro, quando ele perguntava, dois vezes dois. Quando hoje penso ou falo nisto, há pessoas que não acreditam, acham um exagero. Obviamente que era um exagero, um comportamento inadmissível, quase sou tentado a considerar que aquele Professor era uma besta. Ainda assim não lhe guardo rancor. Trás-os-Montes era ainda uma região esquecida pelo país, e eu fui daqueles que tive imensos Professores sem habilitação para dar aulas. Felizmente, muitos deles, deixarem-me excelentes recordações e eram excelentes profissionais. Em 1986 lembro-me que o professor de Educação Musical chegava à sala a cantar para nos dar os bons dias “Bom, dia, bom dia, bom dia para vós…”, quem não respondia e estava na brincadeira levava logo uma bofetada antes de entrar para a sala de aula! Em 1988 lembro-me de levar algumas chapadas. Era assim que o Presidente do Conselho Executivo resolvia aquelas patifarias que eu e o meu amigo Paulo fazíamos. Coisas inocentes aos dias de hoje. Ele ainda nos perguntava se podia ser ele a resolver a situação ou se preferíamos que chamasse os nossos Pais. Respondiamos sempre: - Pode resolver o Senhor Professor. Eu chegava-me à frente, levava uma chapada ou duas, a seguir o Paulo. Depois mandava-nos corrigir o que eventualmente tínhamos feito e a situação ficava resolvida. Se lhe guardo algum rancor? Absolutamente nenhum. Creio que a violência física terminou nesse ano, mas ainda me assusto quando penso no regime militar que eram as aulas de matemática do Professor Gonzaga em 1992, em Chaves. O único barulho que nos era permitido era o da respiração, ai daquele que se atrevesse a falar com o colega do lado ou a cruzar a perna na sala de aula.

Hoje os tempos são outros e obviamente que ninguém defende que se volte ao antigamente, embora por vezes possamos pensar: “Isto no meu tempo resolvia-se com um par de bofetadas!” Nos dias de hoje um simples grito de um Professor perante a insolência e a má educação de algum aluno leva logo a que se receba uma queixa pois está a traumatizar a criança e “chegou a casa muito perturbado pois o Professor gritou com ele”. Passou-se do oito ao oitenta, e aquilo que se passa nalgumas escolas é espelho do que se passa na sociedade, há uma sensação de impunidade constante, os castigos são brandos e na maior parte dos casos inexistentes.

Não guardo rancor desses tempos, mas a escola de hoje deve educar sem medo, nenhuma aprendizagem justifica a violência nem a humilhação de uma criança.

Crónica publicada na edição 525 do Notícias de Coura, 26 de maio de 2026




terça-feira, 19 de maio de 2026

É desta que vou para a tropa!

Noite de segunda-feira, véspera do dia limite para enviar a minha crónica para o Notícias de Coura. Navego pela Internet à procura de algo interessante ou provocador. Não me apetece voltar a dar espaço a Donald Trump e às idiotices que diariamente faz e diz, infelizmente com consequências nefastas para o mundo. Estou com vontade de escrever sobre as inconsequentes provas de monitorização das aprendizagens (as provas ModA), mas é um assunto que me irrita e me deixa nervoso, e tenho de aprender a afastar-me de tudo aquilo que me pode subir a tensão arterial. E é nesta busca desorganizada que esbarro com uma notícia publicada há poucos minutos e que me desperta a curiosidade: “439 euros e carta gratuita: AD quer incentivos para atrair jovens ao serviço militar.” Como bom português que sou apressei-me ainda antes de ler a pensar: “Uau, que fortuna! Quem é que eles pensam que vão convencer com este valor monetário!?” Depois de ler a notícia verifiquei que de facto até pode ser um valor interessante. Os jovens frequentam um programa com a duração de três a seis semanas, têm atividades de cariz teórico e prático em áreas de formação como a liderança, a autonomia e a disciplina, acompanham os militares em ações de apoio às populações, e ainda podem tirar a carta de condução gratuitamente. Na verdade, só pela carta de condução já valeria a pena.

Com este programa o governo pretende estimular os jovens a olhar para a carreira militar como uma boa opção de vida, visando desta forma ultrapassar a dificuldade dos últimos anos em fazer subir o número de voluntários para as forças armadas. Desde o fim do serviço militar obrigatório que se tem lutado para atrair os jovens para a carreira militar. Parece-me uma iniciativa interessante e muito válida e ouve a preocupação dos proponentes referirem que “não pretendem militarizar a sociedade, mas sim oferecer aos jovens a oportunidade de servir o país de forma voluntária.”

Como não seria de admirar, o Chega tratou logo de propor alterações ao Dia da Defesa Nacional, alargando-o para cinco dias úteis, pretendendo também o regresso das inspeções militares aos cidadãos convocados. Por momentos, voltei a recordar o pesadelo que foi ir à inspeção no longínquo ano de 1997. No meu tempo, e como andava na Universidade, podia-se adiar a inspeção até ao último ano do curso. Mas no último ano, e na altura dos últimos exames, não tive escapatória. Lá fui eu à cidade do Porto, passar dia e meio num qualquer quartel que não me recordo o nome, a ouvir uns quantos discursos sobre matérias que nada me diziam e a fazer uns quantos testes médicos para testar a visão, a audição, se tinha ou não os pés-chatos, e num dos últimos, o mais constrangedor de todos, onde tínhamos de despir as cuecas para comprovar se de facto éramos do sexo masculino. (Naquele tempo só havia dois sexos.) Lembro-me destas pequenas coisas e do custo de um Sumol no bar do quartel, vinte e cinco escudos! Uma pechincha. Não conhecia ninguém no meio daquelas paredes e passei o tempo quase todo a estudar para um exame que tinha dali a dias. Valeu a pena pois tive dezassete valores. (Naquela altura era uma excelente nota, acreditem!)

Quando hoje oiço falar da importância do serviço militar obrigatório na aprendizagem de regras de respeito e responsabilidade de muitos jovens, até posso perceber, mas nunca senti que me tivesse feito falta. Obviamente que não defendo que se volte a tornar obrigatório, mas defendo que é preciso investir nos vários ramos das forças armadas para atrair os jovens a ingressarem na mesma e até prosseguirem os seus estudos. Falta investimento, falta dar vencimentos atrativos e condições de progressão e apoios sociais dignos. Cada vez mais os países precisam de ter militares em quantidade, valorizados, respeitados e motivados para a importante missão que têm. E não é para irem para nenhuma guerra, é para contribuírem para um país seguro. E perguntam-me vocês, e bem: “Então e se voltasses atrás? Ias para a tropa?” Nem que quisesse ir não podia, eles colocaram-me um carimbo vermelho na cédula militar que dizia: Inapto. Se fiquei triste? Não! Nunca me senti tão feliz por ter problemas respiratórios!


Crónica publicada na edição 524 do Notícias de Coura, 12 de maio de 2026



segunda-feira, 4 de maio de 2026

O pacote.

Passaram quase nove meses desde que o governo começou a negociar com sindicatos e patrões o pacote laboral. Está a chegar a hora de dar à luz a nova legislação laboral, os patrões já estão prontos para assinar pois dizem ser uma proposta equilibrada, a UGT ainda negoceia, mas obviamente que a vai rejeitar pois afirma que apesar de haver consensos ainda não suficientes, a CGTP há muito que está fora das negociações e prefere mostrar a sua posição nas ruas. As reuniões já foram mais de cinquenta e é rara a semana em que não há notícias nas televisões sobre as negociações. De tanto ouvir este assunto dei-me ao trabalho de fazer alguma pesquisa e tentar ficar a par do que se está a passar.

Licença parental pode chegar aos seis meses. Mais do que justa, mas insuficiente. Se o governo quer mesmo incentivar a natalidade devia ter a coragem de conceder aos Pais pelo menos um ano para cuidar dos filhos nos primeiros meses de vida. Em termos de custos representaria para o Orçamento de Estado menos do que aquilo que o Estado paga nas parcerias público privadas rodoviárias. Traria vantagens na motivação para os jovens serem Pais, traria uma inquestionável melhoria na qualidade de vida dos bebés no primeiro ano de vida e ajudaria a ultrapassar a falta de vagas nas creches. E qual era o problema de todas as autoestradas passarem a ser pagas por quem as utiliza? Seria mais do que justo.

Limitação da dispensa para amamentação até aos dois anos de vida. A lei atual prevê que esse período se prolongue “durante o tempo que durar a amamentação”, sem prazo máximo. Acredito que possa haver crianças que ainda necessitem da amamentação após os dois anos de vida, mas devem ser raras. Uma lei destas leva a que haja abusos e corre-se o risco de haver mães com licença de amamentação até a criança ir para a escola primária. Podem dizer-me que devia haver mais fiscalização, concordo. Mas dois anos de licença parece-me mais do que suficiente.

Fim da Reintegração Automática. A proposta do governo pretende acabar com a obrigatoriedade de a empresa readmitir um trabalhador, mesmo que o Tribunal considere que o despedimento foi ilícito. Esta medida parece-me um completo absurdo e um atentado aos direitos dos trabalhadores, já para não falar numa completa falta de respeito pela decisão do Tribunal. O governo pretende substituir essa reintegração por uma indemnização. Acredito que a indemnização até possa ser a melhor solução para ambas as partes, mas deve ficar nas mãos do trabalhador essa decisão.

Alargamento dos serviços mínimos a mais setores. O governo quer integrar as creches e os lares nos serviços mínimos em casos de greve. Sobre esta medida não vou tecer grandes considerações, qualquer dia os serviços mínimos são tantos que as greves passam a ter muito pouca influência na vida das pessoas. Já para não falar naqueles serviços mínimos considerados ilegais pelos Tribunais, mas que impediram os Professores de fazer greve às avaliações finais em 2023. O problema aqui é que, as decisões dos tribunais chegam meses depois dos factos ilegais. Alguém é responsabilizado? Não. Seja qual for a ideologia do governo, as greves irritam muita gente e é sempre bom limitar as suas consequências.

Quando este artigo chegar às mãos dos leitores do Notícias de Coura, as reuniões já devem ter terminado e o governo estará pronto para apresentar o pacote na Assembleia da República. Caberá aos deputados eleitos pelos portugueses decidir. Sobre a discussão e o sentido de voto dos partidos não vale a pena fazer previsões. O Parlamento anda tal mal frequentado que com certeza terei motivos para escrever mais uma crónica sobre o que se irá passar. Caberá depois ao Presidente da República a sua promulgação. Poderá até manter as suas convicções e vetar a lei, mas se ela voltar a ser aprovada nos mesmos moldes não lhe resta outra alternativa que não a sua promulgação.


Crónica publicada na edição 523 do Notícias de Coura, 28 de abril de 2026





segunda-feira, 20 de abril de 2026

Noelia, Saramago, Ventura e Trump

Foi há dias notícia no país vizinho a morte de Noelia Castillo. Abandonada pela sorte durante toda a vida, Noelia viu na eutanásia a solução para ter alguma dignidade. Teve uma infância trágica, numa família que perdeu a casa e viveu na rua. O Estado que a acolheu não a protegeu, foi vítima de agressão sexual no centro de acolhimento, tentou-se suicidar e acabou paraplégica. O Estado Espanhol que agora lhe permite acabar com o sofrimento não soube nunca impedir que esta fosse a sua escolha, e que acaba por não ser uma escolha verdadeiramente livre pois já mais nada lhe restava. Será que se pode falar em dignidade no final da vida quando não houve quase nenhuma durante um percurso de sofrimento e dor? A escolha de Noelia é de uma coragem extraordinária e no fundo, ainda bem que viveu num país que, pelo menos, lhe permitiu decidir sobre a sua própria vida, pois viver é um direito, não uma obrigação.

José Saramago passou a ser de leitura opcional para os alunos do 12.º ano. O governo justificou de imediato a decisão como meramente técnica e que não está em causa o passado político de Saramago, pois até incluíram nas opções Mário de Carvalho, escritor com ligação ao Partido Comunista. Só quem nunca ninguém leu, ou ouviu Saramago é que engole esta desculpa. As obras de Saramago estão cheias de crítica social, de crítica ao capitalismo, aos poderes instalados, convidando o leitor a questionar as estruturas de poder, e talvez isso não seja muito conveniente. Na minha opinião Saramago é o único autor de língua portuguesa que devia ser mesmo de leitura obrigatória, com todo o respeito por Eça de Queirós, Fernando Pessoa e tantos outros clássicos. A obra do Prémio Nobel perdurará por séculos, e quanto a isso não há nada que as opções ideológicas do governo possam fazer. Além de que, sendo de leitura opcional, os Professores de Português saberão certamente fazer as escolhas sensatas.

André Ventura voltou a ser protagonista. Desta vez, na sessão comemorativa dos 50 anos da Constituição teve um discurso de uma grande falta de educação e respeito pelos convidados, pelos deputados e pela democracia. Ventura tem todo o direito de querer rever a Constituição, e a seu tempo a Assembleia da República lhe dirá se está ou não de acordo com os seus ideais. Mas neste momento há problemas bem mais importantes para resolver que a questão da revisão constitucional, como afirmou, e bem, António José Seguro, “Não é a Constituição que impede a resolução dos problemas concretos dos portugueses. A frustração que os portugueses sentem não é com a Constituição, mas sim com o seu incumprimento.” Os Portugueses, como há pouco tempo se viu, não depositam confiança em André Ventura. Está na altura de o povo erguer a voz contra a falta de decência que é prática constante na Assembleia da República.

Donald Trump continua a destruir o Planeta. Literalmente. A atual crise que vivemos com o aumento constante do preço do petróleo deve-se à falta de preparação política de um homem que preside ao país mais poderoso do mundo. Nos dias de hoje já quase não se fala na Ucrânia, na anexação da Gronelândia, nem no Caso Epstein e na destruição da Palestina. A estratégia de Trump é lançar o caos sobre um assunto, e como nunca atinge os êxitos que constantemente proclama, lança novas confusões, desvia atenções e mantém-se assim nas bocas do mundo. Agora é com o Irão, a cada dia que passa ameaça com ataques e como não lhe dão troco vai prolongando os prazos. A Europa já há muito que devia ter tido a coragem de perceber que a NATO já não faz sentido no atual contexto, já não estamos num mundo bipolar para termos de depender dos Estados Unidos para nos proteger da Rússia. Qual será a próxima trapalhada de Donald Trump?

Por fim, não posso deixar de pedir desculpa a José Saramago e Noelia Castillo por juntar os seus nomes ao de Ventura e Trump no título da crónica, mas por vezes é bom por lado a lado quem merece ser respeitado e quem não respeita ninguém.

Crónica publicada na edição 522 do Notícias de Coura, 14 de abril de 2026




segunda-feira, 6 de abril de 2026

Advogados, influencers e almoços para pobres.

Estranha mistura esta que resolvi fazer para dar título a esta nova crónica! Nomear uma profissão tem sempre a vantagem de fazer com que aqueles que lerem o título vão decerto ler o texto à procura de alguma coisa para me contrariar.

Como já em tempos escrevi, se calhar até mais do que uma vez, sinto-me no direito de falar de José Sócrates pois fiz umas centenas de quilómetros em 2005 para votar nele. Têm sido notícia nos últimos dias os constantes pedidos de escusa dos advogados de Sócrates para o defender no processo marquês, quer aqueles que ele próprio escolheu, quer os oficiosos que o tribunal lhe nomeia. O que ainda não tinha acontecido era Sócrates ter vários advogados em simultâneo numa mesma sessão de julgamento. Logo de manhã Sócrates estava sem defensor, pois o advogado oficioso indicado pela Ordem dos Advogados tinha pedido escusa. Entretanto, a ordem dos Advogados escolheu Luís Esteves, um advogado que já em tempos defendeu o seu motorista, mas como o foi por nomeação e não por sorteio o Tribunal pediu esclarecimentos à Ordem! É então sorteado um novo advogado oficioso, Humberto Monteiro. A confusão aumenta quando Filipe Batista, advogado da ex-mulher de Sócrates, se apresenta com uma procuração para o defender, mas na condição do Tribunal lhe dar dez dias para analisar o processo, coisa que o tribunal não fez. Quando se pensa que este processo já não pode surpreender mais, eis que algo de impensável acontece! E como isto não fica decerto por aqui, terei oportunidade de voltar a falar do assunto mais algumas vezes, até ele acabar, muito provavelmente com a prescrição de todos os crimes.

Quando vim para a margem sul, uma das coisas que me chocou foi ver as Associações de Estudantes convidarem Influencers para viram às escolas “animar” a campanha eleitoral. (Não na minha escola, mas noutras aqui ao redor). Convidam um artista conhecido que vem fazer umas danças, colocar umas músicas barulhentas, dar uns toques numa bola e tirar umas fotos com os alunos, e assim se ganham imensos votos. O jornal Público expôs o problema há uns dias pois teve acesso a muitos vídeos onde esses tais influencers promovem conteúdos de cariz sexual e misógino. A culpa é, obviamente, dos Diretores desses estabelecimentos, é mau que tenham autorizado a entrada dessas pessoas sem avaliar o tipo de discurso e atividades que iriam fazer, é ainda pior que se protejam no facto de não terem conhecimento da atividade. Mas há pior. O Ministério da Educação envia um parecer às escolas, mas não pede responsabilidades, e num tom condescendente chega-se até a fundamentar com o Regime Geral de Proteção de Dados, dando a entender que o problema foi essas coisas terem sido filmadas e publicadas, e não o conteúdo das mesmas. (Ouvi um dia Agostinho da Silva dizer que “roubar é um bom negócio, desde que não se seja apanhado”.) Li também no jornal Público que “algumas direções escolares tornaram-se ilhas de poder absoluto, alimentadas por eleições obscuras, conselhos gerais fechados e jogos de bastidores.” (Convém dizer que não abordo este assunto por nada pessoal, tanto em Coura durante 13 anos como agora no Montijo desde 2019, sempre me deram mais do que aquilo que eu pedi.)

Para terminar, vamos ao almoço dos pobres. Foi há dias notícia que na cantina dos Salesianos de Manique, em Cascais, os alunos recebem refeições diferentes. Quem paga mensalidade pode escolher um de três pratos, quem é financiado pelo Estado come o prato dos pobres. É verdade que o valor pago pelo Estado para as refeições é uma ofensa, pode não ser fácil gerir, mas não é impossível, e por isso a importância de ter dirigentes capazes. Nunca me canso de dizer que na cantina da Escola de Paredes de Coura se comia melhor que em muitos restaurantes. Nunca mais comi numa cantina, ainda sinto o sabor do frango assado à quinta-feira! Permitir que isso aconteça numa escola é inaceitável, talvez não se trate de incompetência da direção do colégio, talvez seja mesmo falta de coração, bom senso e moral. Seria importante que a tutela tivesse a coragem de questionar a razão dos Salesianos de Manique terem escrito no seu Projeto Educativo que “procuram ser uma escola que é expressão da familiaridade de uma casa”.

Crónica publicada na edição 521 do Notícias de Coura, 31 de março de 2026




terça-feira, 17 de março de 2026

Já falta pouco para ganhar o Nobel da paz.

E de repente, os Estados Unidos da América decidem começar mais uma guerra. Bombardear uma escola no sul do Irão e matar dezenas de estudantes parece ter sido a melhor opção para lutar contra um regime que, segundo Donald Trump, é um perigo nuclear para a América. Alguém devia lembrar o presidente americano que a Coreia do Norte também é uma potência nuclear e a distância para os Estados Unidos até chega a ser menor que para o Irão. Bombardear uma escola pode ter a justificação de ser um dos locais onde se escondem os túneis de acesso do Hamas, esse perigoso grupo terrorista tão ameaçador para a América. Acho que estou a fazer confusão, o Hamas é aquele grupo que ameaça o Estado-amigo da América, Israel, cujo líder, Benjamim Netanyahu, já afirmou que este ataque visa travar o “regime de terror” do Irão, e garante que está disposto a prolongar a guerra o tempo necessário para eliminar uma “ameaça existencial representada pelo regime do Irão”.

O líder supremo do Irão morreu, o aiatola Ali Khamenei foi morto num ataque aéreo americano e israelita, juntamente com a filha, o neto, a nora e o genro. Algum povo, tanto no Irão como noutras partes do mundo, rejubilou com a morte do líder, mas acreditar que isto representará uma transição para uma democracia parece-me esperança a mais. Será mais um capítulo de violência e disputa pela soberania do país.

Sobre a justificação de ser um regime teocrático, a Arábia Saudita também o é. Por que será que os Estados Unidos da América não pensam também em libertar o povo!? Falta ainda referir a urgência em atacar o Irão num altura em que decorriam negociações e onde o Irão já tinha aceitado a condição imposta por Donald Trump de não produzir armas nucleares. Trump e Netanyahu não podiam perder a oportunidade de aniquilar Khamenei. Donald Trump quer controlar o Médio Oriente e atacando o Irão fragiliza também a Rússia e a China. Com tudo isto, já ninguém fala de Nicolas Maduro, da Gronelândia e do caso Epstein, o caso onde Trump tem a desfaçatez de afirmar ser o único inocente, apesar das dezenas de imagens e vídeos que provam provavelmente o contrário. Que ele manda na América está visto, que quer mandar no mundo é uma evidência. Deste lado do atlântico, os “fracos” líderes europeus pouco ou nada dizem ou fazem. Só falta mesmo atribuir-lhe o Prémio Nobel da Paz.

Por terras de Portugal o assunto veio fazer esquecer a crise provocada pelo temporal que arrasou a zona de Leiria e inundou a zona de Alcácer do Sal, e nem Passos Coelho conseguiu ser manchete mais do que dois dias nas televisões, depois das suas declarações terem incendiado o PSD. Não se percebe este aparecimento de Passos Coelho, criticando o governo por ser pouco reformista e dizendo que o mesmo devia ter feito um acordo de legislatura com o Chega e a Iniciativa Liberal. Será que Passos está à beira de ficar desempregado e quer voltar à política!? Ele sabe que tem muitos seguidores desejosos do seu regresso e um deles até é o líder da oposição, mas pensar que poderia voltar agora parece-me um disparate. A menos que algum parágrafo da Procuradoria-Geral da República pudesse fazer Montenegro demitir-se, como em tempos aconteceu a António Costa.

O PCP já veio condenar o ataque e insistir para que o governo tome uma posição sobre o mesmo e impeça os Estados Unidos da América de usar a Base das Lajes nos Açores. Servisse a Base das Lajes para apoiar os amigos Russos contra os malfeitores dos Ucranianos, e a posição do PCP seria evidentemente oposta.

Com a guerra, até Marcelo Rebelo de Sousa e António José Seguro ficaram esquecidos. Em condições normais todas as televisões andariam com Marcelo nesta última semana em funções, nos últimos abraços e beijinhos do Presidente do povo. Quanto a António José Seguro, discreto como é, deve estar a agradecer terem-se esquecido dele, mas obviamente que continua a trabalhar na sua futura missão. Alguém não se esqueça de lhe lembrar que no dia 9 toma posse como Presidente da República!


Crónica publicada na edição 520 do Notícias de Coura, 10 de março de 2026




terça-feira, 3 de março de 2026

Vou já despachar esta crónica!

Aproxima-se a semana de interrupção letiva do Carnaval. Embora sendo só três dias de “folga”, queria ver se os juntava ao fim-de-semana anterior para ficar sem compromissos profissionais nenhuns. As aulas já estão preparadas até ao dia vinte de fevereiro sendo que a única obrigação que se aproxima para esses dias é escrever a próxima crónica do Notícias de Coura. Pela segunda vez desde 2012, vou escrever uma crónica ainda antes de receber o jornal com a anterior! Hoje é domingo, dia da segunda volta das eleições presidenciais. Como já votei antecipadamente hoje nem preciso de sair de casa, aproveito para fazer algumas arrumações (entenda-se arrumar uns milhares de fotografias que tenho para aqui espalhadas em cartões de memória, pen’s e discos externos, esta modernice dos telemóveis tirarem fotografias é uma grande chatice!) Estou nisto desde as oito da manhã, já me começa a doer a cabeça e, portanto, é altura de fazer uma pausa. Vamos lá escrever umas seiscentas ou setecentas palavras!

O país sofreu na última semana algo inimaginável, a região de Leiria parece um cenário de guerra e aqui pela minha zona o Rio Tejo triplicou de tamanho. Apesar de termos recebido algumas mensagens de alerta, o país não estava preparado para isto. Não estava nem vai estar, pois como infelizmente se ouviu de Maria Lúcia Amaral, Ministra da Administração interna, “Estamos todos a aprender.” Lamentável. Os governantes não são eleitos para aprender, são eleitos para tomar decisões. Para variar, vão ser criadas equipas e grupos de trabalho, vai-se facilitar o acesso a apoios, há imenso dinheiro a precisar de poucos papéis para ser distribuído, daqui a uns tempos volta a acontecer o mesmo e vão-se descobrir alguns oportunistas que de certeza vão aproveitar as cheias para reconstruir as casas de férias. Foi assim com os incêndios, vai ser assim com as cheias, é uma coisa portuguesa. O país precisava mesmo de um abanão, infelizmente o único que anda por aí a tentar vestir o fato de salvador da pátria e a prometer acabar com o “sistema”, é um populista cujo discurso só serve mesmo para conversa de café.

Faltam pouco mais de quatro horas para fecharem as urnas, e embora haja algumas freguesias que só vão às urnas na próxima semana e a abstenção possa voltar a ter valores elevados, o próximo Presidente da República vai ser António José Seguro. Pode não ter entusiasmado até agora nos discursos ou nas propostas, mas demonstrou ter postura de chefe de estado. Seguro foi uma surpresa na primeira volta, quem sabe não virá a ser um boa surpresa no Palácio de Belém. Sobre as eleições não há muito a acrescentar, a única coisa que me deixa curioso é saber quais serão os argumentos de vitória do discurso de vitória de André Ventura, que provavelmente irá à missa pelas dezanove horas. Independentemente da sua percentagem, não pode haver segundas leituras, mesmo que tenha mais de trinta por cento dos votos não se pode arrogar no direito de querer obrigar o governo a fazer o que ele quer. Vai tentar, e somos bem capazes de ter eleições legislativas antecipadas lá para 2027. (Por momentos tive uma visão de futuro: André Ventura a ganhar as eleições, mas António José Seguro a não lhe dar posse por não garantir condições de estabilidade na Assembleia da República. Tinha uma certa piada!)

Deixemos a política nacional. Vamos dar um salto à América. Na última semana Donald Trump partilhou um vídeo de Barack e Michelle Obama retratados como macacos. Pouco depois, a Casa Branca retirou o vídeo afirmando tratar-se de um erro de um funcionário. Em qualquer país civilizado o funcionário seria imediatamente despedido. Na América não. Provavelmente pelo facto de o funcionário ser o Presidente e de ter afirmado posteriormente que não pretende pedir desculpas. Gostava de terminar esta crónica antecipada com a ideia daquilo que poderá ser a próxima, mas é melhor não me antecipar àquilo que agora é costume chamar-se “a espuma dos dias”. Vamos esperar que as próximas semanas sejam de acalmia, política e meteorológica.


Crónica publicada na edição 519 do Notícias de Coura, 24 de fevereiro de 2026



terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

E para enfermeira? Será que dá?

Vem este título a propósito das avaliações de alguns alunos que estão agora no 10.º ano e chegam ao final do 1.º semestre com seis valores a Matemática, Biologia e Físico-Química. Terem escolhido a área de Ciências e Tecnologias parece ter sido uma má aposta. Uma das crianças, alertada por uma Professora para a gravidade da situação, desabafou que escolheu esta área pois queria ser Médica. “Assim nunca vais conseguir”, explicou a Professora fazendo-lhe notar que estas disciplinas são as específicas, as essenciais para Medicina, pois serão provavelmente aquelas cujas notas de exame serão decisivas para a determinação da média necessária para Medicina. Triste e pensativa terá questionado: “E para enfermeira Stôra? Será que dá?”

Não se trata aqui de uma menorização da profissão, naturalmente que a área da saúde é por certo aquela que lhe agrada, ou então aquela que os Pais acham que ela deve seguir. Mas que isto acontece é certo, quando não entram em Medicina alguns alunos tentam Medicina Veterinária, ou Medicina Dentária, ou Enfermagem. São escolhas, infelizmente não devia ser assim. Ainda me lembro bem de ver uma aluna brilhante que tive em Coura chegar ao final do 12.º ano com uma média de 18 ou 19 e a escolha dela ser Direito! Pois se era o que ela ambicionava, qual a admiração? Dizia um colega meu na altura: “Um desperdício, ter esta média e não ir para Medicina!” Uma idiotice respondi-lhe eu. Desperdício é o curso de Medicina não ter tantas vagas quantos médicos precisamos e pior ainda, quantos alunos se calhar davam excelentes médicos e por uma ou duas décimas não o são. Idiotice é serem muitas vezes os Pais a pressionar os excelentes alunos a ir para Medicina. Têm o futuro garantido é certo, um curso longo e muito trabalhoso, mas boas oportunidades de carreira. Mas valerá a pena tamanho esforço? Especialmente se essa não for a sua vocação?

Não me canso de partilhar com alguns dos meus alunos a minha própria experiência. Licenciei-me em Gestão e nunca pensei nessa altura vir a ser professor. Cheguei mesmo a dizer que “Era o que faltava ir aturar crianças!” Mas o futuro quis que assim acontecesse, e depois de terminar o primeiro dia como professor senti que era aquilo que gostava e que queria fazer o resto da vida. Não foi um percurso fácil. Entre horários incompletos, dois anos (inesquecíveis) a trabalhar nos Açores, o desespero dos miniconcursos do mês de setembro sem nunca saber onde seria colocado, a tristeza de ir para a fila do Centro de Emprego, a esperança só surgiu quando resolvi tirar outra licenciatura para estabilizar em definitivo.

Muitos dos atuais Professores não sabem o que isso é, quantos e quantos ficam efetivos logo no primeiro ano em que concorrem. E ainda bem! Podem passar as férias descansados pois em setembro têm emprego. (Embora circulem pelas redes sociais algumas notícias alarmantes sobre a estabilidade do corpo docente!)

Aprendi na Universidade que há algumas áreas onde o emprego é garantido, a alimentação, pois todos temos de comer e beber, a saúde, todos nós temos de fazer exames e tomar medicamentos ao longo da vida, e a morte, pois até à data dela ninguém se livrou. Ser professor é também atualmente uma boa aposta, a classe docente está envelhecida de tal forma, que nos próximos cinco anos irão para a reforma mais de vinte mil professores. Não se tem um ordenado deslumbrante e, dependendo da escola, viverão inundados em papéis, terão de se irritar algumas vezes com a indisciplina e mais tarde ou mais cedo irão aprender que o importante é o sucesso educativo (isto é, os alunos não reprovarem, aprenderem fica para segundo plano). Se se arrependerem pensem duas vezes antes de abandonar a carreira, é que a experiência de Professor só serve mesmo para dar aulas ou explicações, nada mais! Não acreditem quando virem notícias de que cada vez mais Professores pensam em abandonar a carreira, ando cá desde 1998 e só me lembro de um caso. A malta fala mal disto, mas ninguém se vai embora!


Crónica publicada na edição 518 do Notícias de Coura, 10 de fevereiro de 2026





terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Segunda volta

Depois de mais de um ano de campanha eleitoral para as eleições presidenciais, vamos ter, tal como era previsível, mais três semanas de espera.

Quando em novembro de 2024 Pedro Nuno Santos afirmava que António José Seguro era “um grande quadro do Partido Socialista e que os militantes do PS tinham muito apreço por ele”, estava longe de imaginar que isso seria o gatilho que faria despertar nele a vontade de avançar. António José Seguro viu nas palavras do ex-líder do partido um “descuido” que não poderia deixar de aproveitar, mais do que vontade de ser Presidente da República, tinha a oportunidade de colocar o partido entre a espada e a parede, depois da maldade que António Costa lhe tinha feito em 2014. E se bem o pensou, melhor o fez. O PS tardou a declarar-lhe o apoio, ainda assim, acredito mesmo que muitos dos militantes fizeram já na primeira volta aquilo que os comunistas fizeram em 1986 com Mário Soares, taparam os olhos e colocaram a cruz em Seguro. E de repente, António José Seguro que se candidatou para fazer pirraça ao PS, vai ser Presidente da República. Embora sem ter feito uma campanha entusiasmante, foi de longe a mais séria e à altura daquilo que deve a postura do mais alto magistrado da nação.

André Ventura, aquele que aparecia como vencedor em quase todas as sondagens, fica-se pelo segundo lugar. Disputar a segunda volta é um grande feito para um candidato de um partido que nasceu há pouco mais de seis anos. Já se autoproclamou líder da direita, e vai decerto passar estas três semanas a “berrar” pelos votos da direita. Já começou por dizer que Seguro representa o regresso de José Sócrates, António Costa e Eduardo Ferro Rodrigues. E como não acredito que nem a IL nem a AD lhe declarem apoio, não demorará muito a despir o fato de moderado que vestiu nas últimas duas semanas e a utilizar argumentos baixos na campanha eleitoral. Ou Luís Montenegro suaviza a sua governação, ou vai ter a vida muito difícil na Assembleia da República.

Gouveia e Melo partia como o favorito, numa corrida que se anunciava praticamente como decidida. Correu mal, bastante mal. Para quem se anunciava como “fora dos partidos”, tinha gente a mais dos partidos à sua volta.

Marques Mendes teve um resultado desastroso. Passou os últimos dez anos como comentador político nas noites de domingo, substituindo o anterior comentador, Marcelo Rebelo de Sousa. Desta vez a televisão não conseguiu produzir outro Presidente da República.

João Cotrim de Figueiredo fez uma campanha que espelha bem aquilo que o país gosta, confusão e mexerico. Lançou suspeitas sobre Marques Mendes, colocou-o à luta com Gouveia e Melo e saiu de fininho. Rodeado de jovens quase chegava à segunda volta, tropeçou na última semana quando achou que devia piscar o olho ao eleitorado do Chega e reclamar o apoio da AD, sugerindo a Luís Montenegro que apoiasse a sua candidatura. Este apelo ao voto útil acabou por ajudar ainda mais António José Seguro. Quando é necessário sacrificar os ideias e votar de forma útil, a esquerda nunca falha.

Por fim, Manuel João Vieira! O candidato que só desistia se ganhasse e que prometia vinho canalizado em todas as casas, obteve mais de sessenta mil votos ficando à frente do candidato oficial do Livre, Jorge Pinto. Foi destaque no jornal britânico The Gaurdian onde terminava dizendo “Se as pessoas querem apostar no absurdo, que apostem pelo menos no absurdo e no surrealismo dos seus sonhos e desejos. Isso é das coisas mais honestas que existem”.


Crónica publicada na edição 517 do Notícias de Coura, 27 de janeiro de 2026