terça-feira, 30 de junho de 2026

O nosso vídeo viralizou Professor!

Nas últimas aulas do ano letivo muitos professores deixam que os alunos se divirtam de forma diferente, há aqueles que fazem festas com doces e bebidas, há outros que simplesmente deixam os alunos sair mais cedo, e num mundo “dominado” pelas redes sociais, há outros que não resistem a deixar os alunos fazer as “trends” da última aula. Aceitei fazê-lo, naturalmente! Os alunos explicaram-me rapidamente como seriam as filmagens e em menos de dois minutos estava pronto um vídeo de 10 segundos, aquele em que o Professor diz aos alunos: “Até à próxima aula!”, os alunos respondem: “Mas Professor, não há próxima aula!”, e o vídeo termina com o Professor a rodopiar, ou a dar uns saltos, fingindo-se feliz por ter terminado mais um ano letivo. O vídeo foi feito na minha conta do tiktok, os alunos filmaram, escolheram a música, colocaram legendas e efeitos, escolheram as hashtags e identificaram-se, eu só verifiquei se não havia nenhum erro ortográfico e cliquei no botão para publicar! Eles ficaram felizes, e eu feliz de os ver tão contentes por uma coisa tão simples. Não pensei mais na publicação, continuei a trabalhar e só no final do dia, já depois de jantar, voltei a abrir o tiktok para ver as novidades. Tinha mais de doze mil visualizações! Fiquei sem reação! Como era possível!? Os meus vídeos raramente chegam às mil visualizações, e mesmo que todos os alunos da escola o tivessem visto pouco passaria das três mil! Doze mil!? O algoritmo definitivamente surpreendeu-me! No dia seguinte, quando me viram correram para me dizer: “Professor, o nosso vídeo viralizou!”

Não adianta procurar uma explicação lógica para tal fenómeno, não foi o conteúdo, não foi a música nem sequer as hashtags utilizadas, até porque experimentei a mesma habilidade dois dias depois, e mesmo com iguais procedimentos pouco passou das três mil visualizações. Umberto Eco acerca do êxito das redes sociais escreveu um dia que o mesmo se deve ao facto de “a comunicação não se deslocar diretamente, mas como as bolas de bilhar: as ideias têm de ressaltar noutro sítio para ganharem força. Na lógica das redes sociais, um conteúdo torna-se viral não pelo seu conteúdo, mas pelas republicações, no fundo, o eco torna-se mais importante que a voz.” Não há explicação lógica, na verdade foi um acaso, uma publicação feita à hora certa! (Teve o mérito de ser decisiva na avaliação final atribuída à aluna cujo talento permitiu tal feito. Como Professor da disciplina de Tecnologias de Informação e Comunicação não poderia deixar de valorizar o talento de uma aluna que fez de uma publicação na conta do Professor um vídeo viral.)

Vivemos um tempo assustador. Ou se colocam limites às capacidades da inteligência artificial ou a raça humana entrou mesmo num caminho de não retorno. Temos consciência da responsabilidade do ser humano em provocar a sua própria destruição, mas não havia necessidade de o fazermos tão depressa. Há tarefas que demoravam horas e horas a planear, hoje demoram poucos minutos. Planear as férias é um pequeno exemplo. Até ao ano passado eu demorava horas e horas a planear um período de férias de seis ou sete dias. Pesquisava os monumentos a visitar, os itinerários a fazer, as estradas e os locais de paragem, os tempos de viagem, os restaurantes a experimentar, os custos da alimentação e dos monumentos. Era um trabalho que demorava bastantes horas, para no final imprimir um documento de cinco ou seis páginas com o programa. Hoje, basta perder meia hora a descrever detalhadamente o que se quer, as datas, os locais, o dinheiro que se quer gastar, o esforço físico que se quer fazer e os locais que se querem visitar. Esperamos uns minutos e é só descarregar o documento. Fazem-se uns ajustes e estão planeadas as férias. Fantástico! Ficamos com mais tempo para… para quê!? O segredo está aqui, há que saber aproveitar o tempo que a inteligência artificial nos dá, para a transformar em inteligência racional, ou simplesmente algo mais natural, algo mais humano.

Como utilizador das novas tecnologias, são inúmeras as vantagens da utilização da inteligência artificial para determinadas tarefas, mas acreditem que me irrito profundamente quando tenho de provar ao computador que “não sou um robô”, e selecionar todas as imagens que têm motas, bicicletas ou autocarros. Irra.

Crónica publicada na edição 527 do Notícias de Coura, 23 de junho de 2026




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