Manhã de segunda-feira, percorro a internet em busca de assuntos que me ajudem a escrever mais uma crónica, e já depois de pedir ao Chat GPT que me dê ideias (obviamente que não resultou pois limita-se a dar-me ideias ainda menos abundantes que as que eu vou tendo em carteira), resolvo dar uma vista de olhos pelas capas dos jornais. Naturalmente, a mais chamativa é a do Correio da Manhã: “Crianças agredidas à vassourada em creche”. A notícia refere-se a uma creche de Amares e retrata situações de maus-tratos tão abomináveis que prefiro não enumerar.
As situações de violência nas escolas são, infelizmente, notícia quase todas as semanas. Nas creches e escolas primárias envolvem normalmente a violência dos educadores e/ou funcionários sobre as crianças, nas escolas básicas e secundárias a situação inverte-se e passam a ser os funcionários e os professores alvo das agressões dos alunos e em muitos casos dos Pais ou Encarregados de Educação.
Para que os leitores do Notícias de Coura não me “insultem” a meio da crónica, quero deixar desde já claro que obviamente sou contra a violência, em qualquer contexto. E quando leio notícias como aquela que acima referi, sou defensor de medidas punitivas severas, a violência gratuita sobre crianças indefesas merecia ser punida com uma castigo que aqui não escrevo, sob o risco de pensarem que sou militante do Chega. (Não sou, mas nestas coisas quase pareço.)
Lembro-me dos meus tempos de estudante, andei até à terceira classe numa escola em Canelas, Vila Nova de Gaia. A minha Professora dava-nos reguadas, uma, duas ou três conforme a gravidade do erro. Depois, na quarta classe fui para Vilarandelo, Trás-os-Montes. Apanhei o Professor Bernardino, conhecido pela violência nas terras em redor. Batia-nos com uma cana-da-Índia nas orelhas e dava-nos bofetadas da cara. A sua mão era bem maior que a nossa cara. Bateu-me algumas vezes, a pior foi quando me deu duas chapadas, uma de cada lado. Lembro-me que andei o dia todo sem sentir a cara, tal e qual uma anestesia do dentista. Isto não se passou no tempo da outra senhora, foi em 1984, era natural os Professores baterem nos alunos, e não era por se portarem mal, era simplesmente por não darem as respostas corretas, ou demorarem mais de um segundo a dizer quatro, quando ele perguntava, dois vezes dois. Quando hoje penso ou falo nisto, há pessoas que não acreditam, acham um exagero. Obviamente que era um exagero, um comportamento inadmissível, quase sou tentado a considerar que aquele Professor era uma besta. Ainda assim não lhe guardo rancor. Trás-os-Montes era ainda uma região esquecida pelo país, e eu fui daqueles que tive imensos Professores sem habilitação para dar aulas. Felizmente, muitos deles, deixarem-me excelentes recordações e eram excelentes profissionais. Em 1986 lembro-me que o professor de Educação Musical chegava à sala a cantar para nos dar os bons dias “Bom, dia, bom dia, bom dia para vós…”, quem não respondia e estava na brincadeira levava logo uma bofetada antes de entrar para a sala de aula! Em 1988 lembro-me de levar algumas chapadas. Era assim que o Presidente do Conselho Executivo resolvia aquelas patifarias que eu e o meu amigo Paulo fazíamos. Coisas inocentes aos dias de hoje. Ele ainda nos perguntava se podia ser ele a resolver a situação ou se preferíamos que chamasse os nossos Pais. Respondiamos sempre: - Pode resolver o Senhor Professor. Eu chegava-me à frente, levava uma chapada ou duas, a seguir o Paulo. Depois mandava-nos corrigir o que eventualmente tínhamos feito e a situação ficava resolvida. Se lhe guardo algum rancor? Absolutamente nenhum. Creio que a violência física terminou nesse ano, mas ainda me assusto quando penso no regime militar que eram as aulas de matemática do Professor Gonzaga em 1992, em Chaves. O único barulho que nos era permitido era o da respiração, ai daquele que se atrevesse a falar com o colega do lado ou a cruzar a perna na sala de aula.
Hoje os tempos são outros e obviamente que ninguém defende que se volte ao antigamente, embora por vezes possamos pensar: “Isto no meu tempo resolvia-se com um par de bofetadas!” Nos dias de hoje um simples grito de um Professor perante a insolência e a má educação de algum aluno leva logo a que se receba uma queixa pois está a traumatizar a criança e “chegou a casa muito perturbado pois o Professor gritou com ele”. Passou-se do oito ao oitenta, e aquilo que se passa nalgumas escolas é espelho do que se passa na sociedade, há uma sensação de impunidade constante, os castigos são brandos e na maior parte dos casos inexistentes.
Não guardo rancor desses tempos, mas a escola de hoje deve educar sem medo, nenhuma aprendizagem justifica a violência nem a humilhação de uma criança.
Crónica publicada na edição 525 do Notícias de Coura, 26 de maio de 2026
Sem comentários:
Enviar um comentário