terça-feira, 19 de maio de 2026

É desta que vou para a tropa!

Noite de segunda-feira, véspera do dia limite para enviar a minha crónica para o Notícias de Coura. Navego pela Internet à procura de algo interessante ou provocador. Não me apetece voltar a dar espaço a Donald Trump e às idiotices que diariamente faz e diz, infelizmente com consequências nefastas para o mundo. Estou com vontade de escrever sobre as inconsequentes provas de monitorização das aprendizagens (as provas ModA), mas é um assunto que me irrita e me deixa nervoso, e tenho de aprender a afastar-me de tudo aquilo que me pode subir a tensão arterial. E é nesta busca desorganizada que esbarro com uma notícia publicada há poucos minutos e que me desperta a curiosidade: “439 euros e carta gratuita: AD quer incentivos para atrair jovens ao serviço militar.” Como bom português que sou apressei-me ainda antes de ler a pensar: “Uau, que fortuna! Quem é que eles pensam que vão convencer com este valor monetário!?” Depois de ler a notícia verifiquei que de facto até pode ser um valor interessante. Os jovens frequentam um programa com a duração de três a seis semanas, têm atividades de cariz teórico e prático em áreas de formação como a liderança, a autonomia e a disciplina, acompanham os militares em ações de apoio às populações, e ainda podem tirar a carta de condução gratuitamente. Na verdade, só pela carta de condução já valeria a pena.

Com este programa o governo pretende estimular os jovens a olhar para a carreira militar como uma boa opção de vida, visando desta forma ultrapassar a dificuldade dos últimos anos em fazer subir o número de voluntários para as forças armadas. Desde o fim do serviço militar obrigatório que se tem lutado para atrair os jovens para a carreira militar. Parece-me uma iniciativa interessante e muito válida e ouve a preocupação dos proponentes referirem que “não pretendem militarizar a sociedade, mas sim oferecer aos jovens a oportunidade de servir o país de forma voluntária.”

Como não seria de admirar, o Chega tratou logo de propor alterações ao Dia da Defesa Nacional, alargando-o para cinco dias úteis, pretendendo também o regresso das inspeções militares aos cidadãos convocados. Por momentos, voltei a recordar o pesadelo que foi ir à inspeção no longínquo ano de 1997. No meu tempo, e como andava na Universidade, podia-se adiar a inspeção até ao último ano do curso. Mas no último ano, e na altura dos últimos exames, não tive escapatória. Lá fui eu à cidade do Porto, passar dia e meio num qualquer quartel que não me recordo o nome, a ouvir uns quantos discursos sobre matérias que nada me diziam e a fazer uns quantos testes médicos para testar a visão, a audição, se tinha ou não os pés-chatos, e num dos últimos, o mais constrangedor de todos, onde tínhamos de despir as cuecas para comprovar se de facto éramos do sexo masculino. (Naquele tempo só havia dois sexos.) Lembro-me destas pequenas coisas e do custo de um Sumol no bar do quartel, vinte e cinco escudos! Uma pechincha. Não conhecia ninguém no meio daquelas paredes e passei o tempo quase todo a estudar para um exame que tinha dali a dias. Valeu a pena pois tive dezassete valores. (Naquela altura era uma excelente nota, acreditem!)

Quando hoje oiço falar da importância do serviço militar obrigatório na aprendizagem de regras de respeito e responsabilidade de muitos jovens, até posso perceber, mas nunca senti que me tivesse feito falta. Obviamente que não defendo que se volte a tornar obrigatório, mas defendo que é preciso investir nos vários ramos das forças armadas para atrair os jovens a ingressarem na mesma e até prosseguirem os seus estudos. Falta investimento, falta dar vencimentos atrativos e condições de progressão e apoios sociais dignos. Cada vez mais os países precisam de ter militares em quantidade, valorizados, respeitados e motivados para a importante missão que têm. E não é para irem para nenhuma guerra, é para contribuírem para um país seguro. E perguntam-me vocês, e bem: “Então e se voltasses atrás? Ias para a tropa?” Nem que quisesse ir não podia, eles colocaram-me um carimbo vermelho na cédula militar que dizia: Inapto. Se fiquei triste? Não! Nunca me senti tão feliz por ter problemas respiratórios!


Crónica publicada na edição 524 do Notícias de Coura, 12 de maio de 2026



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