segunda-feira, 20 de abril de 2026

Noelia, Saramago, Ventura e Trump

Foi há dias notícia no país vizinho a morte de Noelia Castillo. Abandonada pela sorte durante toda a vida, Noelia viu na eutanásia a solução para ter alguma dignidade. Teve uma infância trágica, numa família que perdeu a casa e viveu na rua. O Estado que a acolheu não a protegeu, foi vítima de agressão sexual no centro de acolhimento, tentou-se suicidar e acabou paraplégica. O Estado Espanhol que agora lhe permite acabar com o sofrimento não soube nunca impedir que esta fosse a sua escolha, e que acaba por não ser uma escolha verdadeiramente livre pois já mais nada lhe restava. Será que se pode falar em dignidade no final da vida quando não houve quase nenhuma durante um percurso de sofrimento e dor? A escolha de Noelia é de uma coragem extraordinária e no fundo, ainda bem que viveu num país que, pelo menos, lhe permitiu decidir sobre a sua própria vida, pois viver é um direito, não uma obrigação.

José Saramago passou a ser de leitura opcional para os alunos do 12.º ano. O governo justificou de imediato a decisão como meramente técnica e que não está em causa o passado político de Saramago, pois até incluíram nas opções Mário de Carvalho, escritor com ligação ao Partido Comunista. Só quem nunca ninguém leu, ou ouviu Saramago é que engole esta desculpa. As obras de Saramago estão cheias de crítica social, de crítica ao capitalismo, aos poderes instalados, convidando o leitor a questionar as estruturas de poder, e talvez isso não seja muito conveniente. Na minha opinião Saramago é o único autor de língua portuguesa que devia ser mesmo de leitura obrigatória, com todo o respeito por Eça de Queirós, Fernando Pessoa e tantos outros clássicos. A obra do Prémio Nobel perdurará por séculos, e quanto a isso não há nada que as opções ideológicas do governo possam fazer. Além de que, sendo de leitura opcional, os Professores de Português saberão certamente fazer as escolhas sensatas.

André Ventura voltou a ser protagonista. Desta vez, na sessão comemorativa dos 50 anos da Constituição teve um discurso de uma grande falta de educação e respeito pelos convidados, pelos deputados e pela democracia. Ventura tem todo o direito de querer rever a Constituição, e a seu tempo a Assembleia da República lhe dirá se está ou não de acordo com os seus ideais. Mas neste momento há problemas bem mais importantes para resolver que a questão da revisão constitucional, como afirmou, e bem, António José Seguro, “Não é a Constituição que impede a resolução dos problemas concretos dos portugueses. A frustração que os portugueses sentem não é com a Constituição, mas sim com o seu incumprimento.” Os Portugueses, como há pouco tempo se viu, não depositam confiança em André Ventura. Está na altura de o povo erguer a voz contra a falta de decência que é prática constante na Assembleia da República.

Donald Trump continua a destruir o Planeta. Literalmente. A atual crise que vivemos com o aumento constante do preço do petróleo deve-se à falta de preparação política de um homem que preside ao país mais poderoso do mundo. Nos dias de hoje já quase não se fala na Ucrânia, na anexação da Gronelândia, nem no Caso Epstein e na destruição da Palestina. A estratégia de Trump é lançar o caos sobre um assunto, e como nunca atinge os êxitos que constantemente proclama, lança novas confusões, desvia atenções e mantém-se assim nas bocas do mundo. Agora é com o Irão, a cada dia que passa ameaça com ataques e como não lhe dão troco vai prolongando os prazos. A Europa já há muito que devia ter tido a coragem de perceber que a NATO já não faz sentido no atual contexto, já não estamos num mundo bipolar para termos de depender dos Estados Unidos para nos proteger da Rússia. Qual será a próxima trapalhada de Donald Trump?

Por fim, não posso deixar de pedir desculpa a José Saramago e Noelia Castillo por juntar os seus nomes ao de Ventura e Trump no título da crónica, mas por vezes é bom por lado a lado quem merece ser respeitado e quem não respeita ninguém.

Crónica publicada na edição 522 do Notícias de Coura, 14 de abril de 2026




segunda-feira, 6 de abril de 2026

Advogados, influencers e almoços para pobres.

Estranha mistura esta que resolvi fazer para dar título a esta nova crónica! Nomear uma profissão tem sempre a vantagem de fazer com que aqueles que lerem o título vão decerto ler o texto à procura de alguma coisa para me contrariar.

Como já em tempos escrevi, se calhar até mais do que uma vez, sinto-me no direito de falar de José Sócrates pois fiz umas centenas de quilómetros em 2005 para votar nele. Têm sido notícia nos últimos dias os constantes pedidos de escusa dos advogados de Sócrates para o defender no processo marquês, quer aqueles que ele próprio escolheu, quer os oficiosos que o tribunal lhe nomeia. O que ainda não tinha acontecido era Sócrates ter vários advogados em simultâneo numa mesma sessão de julgamento. Logo de manhã Sócrates estava sem defensor, pois o advogado oficioso indicado pela Ordem dos Advogados tinha pedido escusa. Entretanto, a ordem dos Advogados escolheu Luís Esteves, um advogado que já em tempos defendeu o seu motorista, mas como o foi por nomeação e não por sorteio o Tribunal pediu esclarecimentos à Ordem! É então sorteado um novo advogado oficioso, Humberto Monteiro. A confusão aumenta quando Filipe Batista, advogado da ex-mulher de Sócrates, se apresenta com uma procuração para o defender, mas na condição do Tribunal lhe dar dez dias para analisar o processo, coisa que o tribunal não fez. Quando se pensa que este processo já não pode surpreender mais, eis que algo de impensável acontece! E como isto não fica decerto por aqui, terei oportunidade de voltar a falar do assunto mais algumas vezes, até ele acabar, muito provavelmente com a prescrição de todos os crimes.

Quando vim para a margem sul, uma das coisas que me chocou foi ver as Associações de Estudantes convidarem Influencers para viram às escolas “animar” a campanha eleitoral. (Não na minha escola, mas noutras aqui ao redor). Convidam um artista conhecido que vem fazer umas danças, colocar umas músicas barulhentas, dar uns toques numa bola e tirar umas fotos com os alunos, e assim se ganham imensos votos. O jornal Público expôs o problema há uns dias pois teve acesso a muitos vídeos onde esses tais influencers promovem conteúdos de cariz sexual e misógino. A culpa é, obviamente, dos Diretores desses estabelecimentos, é mau que tenham autorizado a entrada dessas pessoas sem avaliar o tipo de discurso e atividades que iriam fazer, é ainda pior que se protejam no facto de não terem conhecimento da atividade. Mas há pior. O Ministério da Educação envia um parecer às escolas, mas não pede responsabilidades, e num tom condescendente chega-se até a fundamentar com o Regime Geral de Proteção de Dados, dando a entender que o problema foi essas coisas terem sido filmadas e publicadas, e não o conteúdo das mesmas. (Ouvi um dia Agostinho da Silva dizer que “roubar é um bom negócio, desde que não se seja apanhado”.) Li também no jornal Público que “algumas direções escolares tornaram-se ilhas de poder absoluto, alimentadas por eleições obscuras, conselhos gerais fechados e jogos de bastidores.” (Convém dizer que não abordo este assunto por nada pessoal, tanto em Coura durante 13 anos como agora no Montijo desde 2019, sempre me deram mais do que aquilo que eu pedi.)

Para terminar, vamos ao almoço dos pobres. Foi há dias notícia que na cantina dos Salesianos de Manique, em Cascais, os alunos recebem refeições diferentes. Quem paga mensalidade pode escolher um de três pratos, quem é financiado pelo Estado come o prato dos pobres. É verdade que o valor pago pelo Estado para as refeições é uma ofensa, pode não ser fácil gerir, mas não é impossível, e por isso a importância de ter dirigentes capazes. Nunca me canso de dizer que na cantina da Escola de Paredes de Coura se comia melhor que em muitos restaurantes. Nunca mais comi numa cantina, ainda sinto o sabor do frango assado à quinta-feira! Permitir que isso aconteça numa escola é inaceitável, talvez não se trate de incompetência da direção do colégio, talvez seja mesmo falta de coração, bom senso e moral. Seria importante que a tutela tivesse a coragem de questionar a razão dos Salesianos de Manique terem escrito no seu Projeto Educativo que “procuram ser uma escola que é expressão da familiaridade de uma casa”.

Crónica publicada na edição 521 do Notícias de Coura, 31 de março de 2026