Foi há dias notícia no país vizinho a morte de Noelia Castillo. Abandonada pela sorte durante toda a vida, Noelia viu na eutanásia a solução para ter alguma dignidade. Teve uma infância trágica, numa família que perdeu a casa e viveu na rua. O Estado que a acolheu não a protegeu, foi vítima de agressão sexual no centro de acolhimento, tentou-se suicidar e acabou paraplégica. O Estado Espanhol que agora lhe permite acabar com o sofrimento não soube nunca impedir que esta fosse a sua escolha, e que acaba por não ser uma escolha verdadeiramente livre pois já mais nada lhe restava. Será que se pode falar em dignidade no final da vida quando não houve quase nenhuma durante um percurso de sofrimento e dor? A escolha de Noelia é de uma coragem extraordinária e no fundo, ainda bem que viveu num país que, pelo menos, lhe permitiu decidir sobre a sua própria vida, pois viver é um direito, não uma obrigação.
José Saramago passou a ser de leitura opcional para os alunos do 12.º ano. O governo justificou de imediato a decisão como meramente técnica e que não está em causa o passado político de Saramago, pois até incluíram nas opções Mário de Carvalho, escritor com ligação ao Partido Comunista. Só quem nunca ninguém leu, ou ouviu Saramago é que engole esta desculpa. As obras de Saramago estão cheias de crítica social, de crítica ao capitalismo, aos poderes instalados, convidando o leitor a questionar as estruturas de poder, e talvez isso não seja muito conveniente. Na minha opinião Saramago é o único autor de língua portuguesa que devia ser mesmo de leitura obrigatória, com todo o respeito por Eça de Queirós, Fernando Pessoa e tantos outros clássicos. A obra do Prémio Nobel perdurará por séculos, e quanto a isso não há nada que as opções ideológicas do governo possam fazer. Além de que, sendo de leitura opcional, os Professores de Português saberão certamente fazer as escolhas sensatas.
André Ventura voltou a ser protagonista. Desta vez, na sessão comemorativa dos 50 anos da Constituição teve um discurso de uma grande falta de educação e respeito pelos convidados, pelos deputados e pela democracia. Ventura tem todo o direito de querer rever a Constituição, e a seu tempo a Assembleia da República lhe dirá se está ou não de acordo com os seus ideais. Mas neste momento há problemas bem mais importantes para resolver que a questão da revisão constitucional, como afirmou, e bem, António José Seguro, “Não é a Constituição que impede a resolução dos problemas concretos dos portugueses. A frustração que os portugueses sentem não é com a Constituição, mas sim com o seu incumprimento.” Os Portugueses, como há pouco tempo se viu, não depositam confiança em André Ventura. Está na altura de o povo erguer a voz contra a falta de decência que é prática constante na Assembleia da República.
Donald Trump continua a destruir o Planeta. Literalmente. A atual crise que vivemos com o aumento constante do preço do petróleo deve-se à falta de preparação política de um homem que preside ao país mais poderoso do mundo. Nos dias de hoje já quase não se fala na Ucrânia, na anexação da Gronelândia, nem no Caso Epstein e na destruição da Palestina. A estratégia de Trump é lançar o caos sobre um assunto, e como nunca atinge os êxitos que constantemente proclama, lança novas confusões, desvia atenções e mantém-se assim nas bocas do mundo. Agora é com o Irão, a cada dia que passa ameaça com ataques e como não lhe dão troco vai prolongando os prazos. A Europa já há muito que devia ter tido a coragem de perceber que a NATO já não faz sentido no atual contexto, já não estamos num mundo bipolar para termos de depender dos Estados Unidos para nos proteger da Rússia. Qual será a próxima trapalhada de Donald Trump?
Por fim, não posso deixar de pedir desculpa a José Saramago e Noelia Castillo por juntar os seus nomes ao de Ventura e Trump no título da crónica, mas por vezes é bom por lado a lado quem merece ser respeitado e quem não respeita ninguém.
Crónica publicada na edição 522 do Notícias de Coura, 14 de abril de 2026
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