terça-feira, 16 de junho de 2026

Viagem ao Fitavale!

Foi em 2011 que nasceu o Fitavale, o Festival Itinerante de Teatro Amador do Vale do Minho, em que num fim-de-semana estreavam cinco peças de teatro das companhias de teatro amador dos concelhos de Melgaço, Monção, Valença, Paredes de Coura e Vila Nova de Cerveira. Um conceito inovador onde os atores dos diferentes concelhos se podiam conhecer e se fortaleciam os laços entre os grupos, todos estreavam a sua peça num concelho que não o seu. Criava-se uma autêntica romaria de teatro que encheu de boas memórias todos quantos dela participaram. Ninguém se esquece de quando o Presidente da Câmara de Vila Nova de Cerveira teve um lapso ao dar as boas-vindas ao “Fitivale”, da presença sempre sorridente da Wendy, a cadelinha do Rui Mendonça e do fantástico arroz de pato feito pela Dona Lúcia de Paredes de Coura que era sempre o jantar do último dia do festival. Participei como ator do TAC durante alguns anos neste magnífico evento, e mesmo depois de deixar de ser ator ou assistente de encenação, nunca faltei. O Fitavale tornou-se uma imagem do mês de Maio, como disse um dia João Pedro Vaz, ex-Diretor Artístico das Comédias do Minho: “No mês de maio os portugueses vão a Fátima, as pessoas do Vale do Minho vão ao Fitavale.”

Desde 2019 que vim viver para a margem sul, e só perdi o Fitavale de 2025 pois só soube das datas dois dias antes, quando recebi o Notícias de Coura. (Fiquei bastante zangado na altura, mas já me passou!) Parece loucura fazer quase mil quilómetros num fim-de-semana para ir ao teatro, mas é uma loucura tão saudável como os fazer para ir ao futebol ou a um festival de música. (Pior seria fazer duzentos quilómetros para comer uma posta à Mirandesa, como algumas pessoas da minha aldeia de Vilarandelo faziam em tempos!) Este ano o conceito foi diferente. Os grupos trabalharam em conjunto a obra “O pior é que fica” de José Maria Vieira Mendes, a partir da qual nasceram cinco criações distintas trabalhadas durante vários meses com os grupos amadores e sob a orientação de cinco atores das Comédias do Minho. Depois de estrearem nos seus próprios concelhos, o festival terminou com uma apresentação conjunta na tarde do dia 30 de maio, no auditório do Centro Cultural de Verdoejo. Foi uma agradável surpresa ver a nova imagem das instalações, aquela velha sala de teatro de cimento e telhado de zinco, deu origem a uma fantástica obra arquitetónica por fora (fazendo lembrar a Casa da Música do Porto), e simples, mas funcional por dentro, e com ar condicionado! Os atores já não derretem, como durante muitos anos (nos) aconteceu. Os grupos estão muito diferentes, muitas das pessoas são novas, mas em todos eles permanecem alguns atores que conheci há muitos anos, e assim é fácil identificar o grupo, há sempre alguém que a nossa memória não esquece.

O que me ficou das apresentações deste ano foi a beleza da imagem, a obra não me parece de fácil interpretação, mas todos os grupos conseguiram mostrar a pertinência e atualidade da mesma, a preocupação do ser humano naquilo que mostra, a necessidade de agradar aos demais, como se as coisas só existissem quando são apreciadas pelos outros, a dificuldade em manter convicções e crenças num mundo minado pela “coisa” social e pelo imediatismo, a ilusão das memórias e a raiva por vezes sentida quando nos apercebemos que não as podemos trazer de volta. O título da obra remete para a necessidade de saber superar os momentos de perda, dor e sofrimento, e não deixar que o que fica seja o pior. Lembrar os melhores momentos é sempre a melhor solução para atenuar o sofrimento, mas se fosse fácil, se calhar esta obra nem existiria. Voltei cansado, mas feliz, cumprida a romaria deste ano está perdoada a falta do ano passado e nasce já a vontade de viajar ao Minho em 2027. Esta era uma crónica que já estava praticamente pronta desde há uns dias, eu sabia que depois de voltar só teria de colocar em palavras o resumo de mais uma viagem ao Fitavale.


Crónica publicada na edição 526 do Notícias de Coura, 9 de junho de 2026





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