terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Os polícias são maus.

No passado mês de novembro foram detidos dez militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) numa operação da Polícia Judiciária (PJ) contra o tráfico e a exploração de imigrantes nas zonas de Beja, Portalegre, Figueira da Foz e Porto. Nesta investigação está em causa a exploração de migrantes indostânicos em propriedades agrícolas. Os acusados são suspeitos de facilitarem a ação de um grupo criminoso que envolve os crimes de falsificação, auxílio à imigração ilegal, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Esta organização controla centenas de trabalhadores estrangeiros, a grande maioria em situação ilegal no sosso país. Aproveitando a sua vulnerabilidade, cobra-lhes alojamentos e alimentação e mantém-nos coagidos a trabalhar quase de graça através de ameaças. Os militares envolvidos são suspeitos de trabalharem como capatazes nessas explorações, vigiando e controlando os imigrantes. E pior, parece que estes militares faziam ver aos imigrantes que fazer queixa às autoridades não era uma alternativa.

Em junho de 2025 a PJ deteve seis pessoas suspeitas de integrar o Movimento Armilar Lusitano, um movimento que se pretendia constituir politicamente, mas apoiado numa milícia armada. Nesta operação foram apreendidas armas brancas, armas de fogo, munições de guerra e explosivos com origem militar, além de material com propaganda nazi. Um dos envolvidos é um elemento da PSP ao serviço da Polícia Municipal de Lisboa.

Em julho de 2025 o semanário Expresso publicou uma notícia onde dava conta de que o grupo 1143 liderado por Mário Machado estava a receber formação com armas reais, ministrada por ex-militares e militares ainda no ativo. O objetivo era estarem preparados para um cenário de guerra civil.

Em julho de 2021 os militares da GNR do posto de Vila Nova de Milfontes foram alertados para uma festa com centenas de jovens num parque de estacionamento, em violação das regras de distanciamento social do covid-19. Lá chegados, foram recebidos com cânticos de “fuck the police” e “filhos da puta” por parte de um jovem de 17 anos. Algemaram-no e assustaram-no, perguntando-lhe se sabia nadar com algemas. Depois libertaram-no e mandaram-no fugir. Obviamente que os militares foram condenados. Não vou escrever o que penso, mas gostava que este jovem fizesse o mesmo noutro país, por exemplo no Brasil.

Em dezembro de 2021 sete militares da GNR do posto de Odemira foram acusados de torturar, humilhar e proferir insultos racistas a migrantes oriundos do Bangladesh, do Paquistão e do Nepal. A pretexto de falsas operações stop, os militares filmaram-se a cometer estas humilhações, demonstrando satisfação e desprezo. Alguns deles, eram reincidentes neste tipo de comportamento.

Em agosto de 2025, dois polícias de Olhão foram acusados de homicídio. Após desacatos num supermercado detiveram dois homens marroquinos. Um deles sofreu um hematoma cerebral, teve de ser internado e morreu três semanas depois no Hospital de Faro.

Servem estes exemplos para provar o quê? Que os polícias são maus? Que abusam do seu poder? Obviamente que nestes casos concretos a resposta é óbvia: Sim, são maus. Estes em concreto são maus. E é por isso que muitos deles já foram julgados e condenados, e nalguns casos bem mais depressa e com mais severidade do que qualquer cidadão comum. (Mas isto é outra conversa, fica para outra crónica.)

Não podemos de forma nenhuma generalizar. Estas dezenas de militares não podem servir de exemplo para caraterizar os milhares que todos os dias trabalham pela segurança no país, pela nossa segurança. Generalizar é aquilo que fazem alguns políticos quando dizem que os ciganos são todos bandidos ou que os imigrantes só estão no nosso país para nos roubar os empregos e viver à custa do nosso dinheiro. Pessoas mal formadas existem em todas as categorias, etnias e grupos sociais. É como a fruta, se deixarmos uma maça podre no meio de um cesto de fruta em perfeitas condições, sabemos o que acontece.

Assim deve ser na vida. É nossa obrigação afastar as maças podres.

Crónica publicada na edição 515 do Notícias de Coura, 16 de dezembro de 2025




terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A justiça é cega.

A expressão a justiça é cega, “significa que o sistema de justiça deve ser imparcial, tratando todos de forma igual e sem distinções”. Essa imparcialidade é representada simbolicamente pela imagem de uma deusa com uma venda nos olhos. Trouxe este assunto à conversa por causa dos tristes acontecimentos que foram notícia há uns dias, relacionados com o julgamento do ex-Primeiro Ministro José Sócrates. Segundo o humorista Ricardo Araújo Pereira, o advogado de Sócrates, Pedro Delille conseguiu atrasar o processo mais uma hora. Como? Chegando ao tribunal com uma hora de atraso! Levou uma reprimenda da Senhora Doutora Juíza e pelos vistos não gostou, ficou tão zangado com a situação que resolveu deixar de defender o seu constituinte, ao fim de mais de dez anos. Sócrates deve ter pensado: “Só me faltava mais esta!” E como a Lei de Murphy nunca falha, o que já estava mal conseguiu ainda ficar pior. A Senhora Doutora Juíza não perdeu tempo, e vendo um arguido sem advogado, eis que lhe nomeia oficiosamente um advogado de serviço ao Tribunal. Calha a fava a José Manuel Ramos, um advogado invisual e que tem de ser amparado pela sua assessora para fazer se movimentar. Gostava de acreditar que a Senhora Doutora Juíza não sabia quem estava de serviço, porque se sabia foi uma malvadez aquilo que fez, sabia perfeitamente o “circo mediático” que é este julgamento, não havia necessidade de “atirar” este homem para o meio da arena. Pior terá sido se o fez para provocar José Sócrates. Quero acreditar que José Manuel Ramos estava no lugar errado à hora errada. Mas com todo o respeito, parece-me que a Senhora Doutora Juíza esteve ainda pior nos momentos seguintes, ao negar à defesa do arguido um prazo de quarenta e oito horas para se colocar a par do processo. Nem que fosse o super-homem, José Manuel Ramos conseguiria conhecer em dois dias um processo com mais de cinquenta mil páginas e treze milhões de ficheiros informáticos. Acabou por dar mais alguns motivos para José Sócrates se lamentar e se vitimizar, e temos de lhe dar alguma razão, é a lei que estabelece um prazo para que ele apresente um novo advogado. (Obviamente que com isto atrasa ainda mais o julgamento, mas perder um advogado depois de dez anos não me parece que traga grandes vantagens.)

Com tudo isto, ganharam os humoristas algum material para fazer piadas, piadas também eu imaginei desde logo, mas que não pude partilhar, não sendo humorista de profissão podia ser acusado de falta de respeito para com uma pessoa invisual. Como simples cronista posso pelo menos afirmar que José Sócrates continua com uma postura arrogante, pelo que o próprio advogado disse, tentou falar com José Sócrates, mas não foi fácil. Obviamente que Sócrates, do alto da sua sapiência, apressou-se a dizer que “Era só o que faltava a Senhora Doutora Juíza escolher-me um advogado!” Era de bom tom dirigir-se a José Manuel Ramos, agradecer-lhe a disponibilidade e informar que iria escolher outro advogado. Mas se assim fosse não seria Sócrates, petulante como sempre, falando de uma forma que parece que somos todos burros e inferiores. O que se seguirá!? Nem Shakespeare seria capaz de inventar uma novela com tantas voltas e reviravoltas. Este julgamento arrisca-se a durar tanto tempo que todos os factos prescrevem e o Estado Português é condenado a pagar uma indemnização ao arguido, ou demora ainda mais tempo e o caso extingue-se pelo desaparecimento do arguido. Talvez aconteça o mesmo no julgamento de Ricardo Salgado. Aconteceu uma coisa parecida no caso João Rendeiro.

Será que vamos ter de dizer que o Brasil é que é um exemplo para o mundo? Lula da Silva esteve mesmo preso depois de ser Presidente. E hoje é Presidente! Bem… por cá também Isaltino Morais esteve preso depois de ser Presidente de Câmara e hoje é-o novamente. Há uns dias Bolsonaro foi preso pois esteve a brincar com um ferro de soldar na pulseira eletrónica!

Ainda bem que a justiça é cega, se visse tudo era bem capaz de pedir uma corda para se enforcar.

Crónica publicada na edição 514 do Notícias de Coura, 2 de dezembro de 2025 





segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Vai para a tua terra.

Nasci em Angola uns meses depois da revolução de abril de 1974. Fiz, juntamente com os meus Pais, parte dos milhares de retornados que tiveram de voltar à metrópole. Como nasci branco, nunca ninguém me mandou para a minha terra.

Esta crónica, escrita ainda antes da anterior ser publicada, vem da minha necessidade de exteriorizar a minha revolta e indignação contra certa gente que não merece o mínimo de consideração nem respeito. Há uns dias, na Assembleia da República, a deputada do PS Eva Cruzeiro acusava o Chega de ser um partido racista. Zangados por terem de ouvir algumas verdades, os deputados do Chega começaram a berrar*, e como é normal, nos momentos de mais tensão e nervosismo as pessoas mostram aquilo que verdadeiramente são, não é, portanto, de admirar que o deputado Filipe Melo tenha gritado: “Vai para a tua terra.” Obviamente que o fez porque Eva Cruzeiro não é branca. Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega, insurge-se por ser chamado de racista e na sua intervenção chama vigaristas aos deputados do PS. Se dúvidas houvesse que o Chega é um partido racista, este é um exemplo claro do tipo de gente que se senta na Assembleia da República. Legitimamente eleitos é certo, o que só prova que em Portugal há racismo, e não é pouco. O crescimento da votação no Chega e a popularidade do seu líder são a prova disso, aquilo que as pessoas conhecem das propostas do Chega é que “vão cortar os subsídios aos ciganos, vão correr com os pretos e com os indianos prá terra deles”. Isto ouvi eu, ninguém me contou, várias vezes, em cafés, na rua e até na escola. Até a alguns alunos brasileiros que falam do Ventura como a salvação, só porque ele não gosta dos ciganos e dos Indianos. E eles, alguns até com os documentos de permanência em Portugal expirados, ficam admirados quando lhes digo: “Fazes muito bem, defende-o com unhas e dentes, mas vai preparando as malas porque se ele chega ao poder, vais de volta num contentor.” (Este é o meu lado irónico, os alunos percebem e até gostam de ouvir estas verdades.) Gostava muito de combater o Chega falando das suas ideias para a economia, a educação, a saúde, a justiça e outras áreas, mas não é fácil!

O mais lamentável de tudo, é que isto se passe na casa da democracia, e por culpa da falta de coragem do seu presidente, José Pedro Aguiar Branco, de impor limites à linguagem desta gente. Quem conduz os trabalhos na Assembleia da República tem o poder e o dever de fazer cumprir o seu regimento, que é claro quando diz que “O Presidente pode retirar a palavra a um orador que se torne injurioso ou ofensivo”. Infelizmente, o conceito de liberdade de expressão de Aguiar Branco aceita o desrespeito e a má educação como uma coisa normal. Nunca pensei escrever isto, mas já começo a ter saudades de Augusto Santos Silva.

Aconteceu também há dois ou três dias: uma grávida que tinha vindo da Guiné-Bissau, e não foi acompanhada no Serviço Nacional de Saúde durante a gravidez, faleceu. Um dia depois o bebé também perdeu a vida. André Ventura, não tem o mínimo de vergonha na cara para usar o caso e pedir a demissão da Ministra da Saúde. Se tudo tivesse corrido bem e a senhora estivesse à porta da Segurança Social, André Ventura mandava-a para a terra dela, e acusava-a de só ter vindo para Portugal para dar à luz e gastar o dinheiro dos portugueses. Assim, até nem se importa com a sua cor e finge lamentar a situação.

Vou fazer um esforço para deixar de escrever sobre este partido, se por um lado sei que lhe estou a dar palco e atenção, por outro, é difícil deixar de exprimir indignação perante tais comportamentos. Está feito o desabafo. Está escrita a crónica uma semana antes do prazo. O que dá imenso jeito, sabem porquê? No próximo fim-de-semana vou para a minha terra!

* "Berrar" significa gritar ou falar muito alto, muitas vezes com raiva ou intensidade. Deixo esta nota não vá alguém sentir-se ofendido e pensar que eu estou a fazer alguma alusão à frase “Quem berra são as cabras.”


Crónica publicada na edição 513 do Notícias de Coura, 18 de novembro de 2025




terça-feira, 11 de novembro de 2025

Chega, Burca e Benfica

Escrevi a última crónica antes do dia das eleições legislativas. Tal como referi na mesma, só me preocupavam os resultados de três freguesias, e em todas elas as minhas previsões se comprovaram. Foi mesmo por distração que me esqueci de mencionar o município onde trabalho, o Montijo. Na noite das eleições estava apenas preocupado com o resultado de uma Junta de Freguesia, onde o candidato por um Movimento Independente era (é) meu colega de trabalho e no qual deposito grande confiança. É um jovem cheio de vontade de trabalhar e com uma capacidade de iniciativa, nomeadamente através do associativismo, que nunca vi em lado algum. Embora me tenha lembrado ao final da tarde e enviado uma mensagem de boa sorte na contagem dos votos, só me voltei a lembrar do Montijo quando lá para as onze da noite, oiço o Ricardo Costa na SIC Notícias dizer que o “o Montijo está prestes a virar para o Chega.” Passou-me imediatamente o sono, entre mensagens e consultas a sites e a várias redes sociais, só me fui deitar às tantas, quando a contagem acabou e o Montijo permanecia em mãos democratas. Não estranho o facto de o Chega ter muita votação, o que eu acho incompreensível é que muitos dos seus apoiantes, e alguns nem sequer votam, são imigrantes, aqueles que o partido de André Ventura diz serem necessários para trabalhar e que são bem-vindos se vierem por bem, mas que faz tudo para lhes fechar a porta e se possível, despachá-los de volta ao seu país. (Eu também considero há muito que tem de haver limites à entrada de estrangeiros, e acima de tudo não permitir que vivam em condições desumanas, mas alinhar no discurso da extrema-direita é inaceitável).

A proibição da burca, e outros disfarces parecidos, já há muito deveria estar legislada no nosso país, não havia necessidade de esperar tanto tempo para agora dar o mérito da medida ao partido Chega. Mais do que uma veste religiosa, a burca é, tal como uma máscara de Carnaval, uma forma de ocultação do rosto, colocando em causa a segurança e identificação do seu portador em locais públicos. Irrita-me ouvir na televisão algumas mulheres afirmarem que essa proibição é uma limitação da sua liberdade, não será maior limitação a sua obrigatoriedade, proibindo-lhes mostrar o rosto? (na verdade elas andam de burca por obrigação, não por vontade). Imaginem só que uma mulher, fazendo valer o seu direito de usar a burca, vai assim vestida fazer o exame de condução, ou até um exame de acesso à Universidade. Será mesmo ela que está por detrás das vestes!? Quando visitam determinados países as mulheres europeias têm de tapar o cabelo, se temos de respeitar os costumes desses países, é justo que também respeitem os nossos. Obviamente que o partido Chega, à boleia da burca e da ideia de garantir a segurança, quer é fazer um ataque a determinados povos. O Chega continuará a fazer aquilo que os eleitores lhe permitirem. (A democracia tem destas coisas). Aliás, é pelo facto de a democracia ser o que é, que André Ventura tem o direito de dizer que “eram necessários 3 Salazares neste país”, tivesse ele sofrido o que muitos portugueses sofreram, não seria tão saudosista. Gente com a idade de André Ventura só fala com saudade dos tempos da ditadura se for esse o regime que ambiciona para o futuro.

A primeira volta das eleições do Benfica bateu o recorde mundial de número de votantes, foram mais de oitenta e cinco mil sócios que exerceram o seu direito! Segundo uma notícia do observador, “o Benfica teve mais votantes do que 98% dos municípios na autárquicas”! Para aqueles que ainda têm a ousadia, ou desfaçatez, de questionar a grandeza do Benfica, esta é mais uma prova da grandeza do clube, e mais uma prova de que no nosso país, o futebol interessa muito mais ao povo que a política. Os portugueses esperam horas na fila para votar no Benfica, esperam horas para entrar para um concerto musical, para um último adeus a uma figura conhecida e também para uma celebração religiosa. Quantos de nós esperariam três ou quatro horas para votar numas eleições legislativas? (Preparava-me para dizer que eu não, mas depois lembrei-me que já em tempos fiz mais de 500km para votar em José Sócrates!)

Crónica publicada na edição 512 do Notícias de Coura, 4 de novembro de 2025






segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Políticos inúteis.

Não posso deixar de pedir desde já desculpa aos políticos que ficaram indignados com o título desta crónica, e são em grande número uma vez que este é um jornal de Coura, uma terra que me permitiu conhecer alguns que me fizeram ter a certeza de que de facto “os políticos não são todos iguais”. Ao mesmo tempo, este é um título que agarra logo nos leitores, há tanta gente que adora falar mal dos políticos que por momentos se esquecem que são eles que os elegem (eles não, nós, pois também eu já ajudei a eleger alguns que não o mereciam).

Esta crónica vai ser publicada uma semana depois das eleições autárquicas, mas está a ser escrita uns dias antes, pelo que as minhas palavras não terão qualquer influência na intenção de voto de ninguém. Além do mais, o resultado destas eleições só me interessa em duas ou três freguesias: Vilarandelo, em Trás-os-Montes, onde espero que a junta se mantenha entregue a quem tratou de arranjar o caminho para a casa dos meus Pais; Samouco, onde resido, e onde o atual elenco camarário tem alcatroado muitas das estradas que uso, inclusive até à minha porta, e apesar de estar zangado com o partido em termo nacionais, votarei certamente de forma útil, também para ajudar a que determinado partido de extrema-direita não pense que é maior do que aquilo que infelizmente já é; e depois Coura, onde naturalmente a autarquia continuará muito bem entregue, na talvez única autarquia nacional que tem a ousadia de estabelecer como prioridades a educação e a cultura.

Introdução feita, está na hora de bater nalguns políticos, daqueles que me apetece incluir no grupo de “gente que não interessa”!

Mariana Mortágua, líder do Bloco de Esquerda e deputada única do partido, embarcou numa flotilha humanitária a caminho de Gaza. A acreditar nas intenções da mesma, o objetiva é levar ajuda humanitária, alimentos, medicamentos e outros bens essenciais. Afirmam também querer chamar a atenção do mundo para o genocídio que se está a viver na Palestina. Não é necessária nenhuma flotilha para tudo isto, eu até louvo a intenção, mas é óbvio que o que procuram é mediatismo e tempo de antena. Todo o mundo sabe que o ataque do Hamas a Israel a 7 de outubro é inqualificável; todo o mundo sabe que o Hamas é um grupo terrorista que usa o povo como escudo e que é urgente eliminar; todo o mundo sabe que por mais que haja acordos de paz, o Hamas nunca vai deixar de existir e lutar pela sua pátria (embora o faça de forma deplorável); mas também todo o mundo sabe, ou devia saber, que o ataque do Hamas serviu de pretexto a Israel para tentar acabar de vez com a Palestina, para tentar ocupar definitivamente uma terra que nunca lhe pertenceu.

Embora Mariana Mortágua não mereça grandes aplausos pela atitude, Nuno Melo, Ministro da Defesa, merece ainda menos pelas declarações proferidas sobre a mesma. Mesmo tendo alguma razão quando diz que foi um gesto panfletário, é absurdo dizer que os ativistas foram em direção à Faixa de Gaza para defender um grupo terrorista e que ele prefere estar ao lado da democracia e da liberdade. É triste saber que um ministro de Portugal está ao lado de Israel, na sua demanda pela ocupação total definitiva da palestina e pela eliminação do seu povo, pois é isso que Israel sempre pretendeu. Não nos devemos surpreender, este é o ministro que afirmou há tempos que “Olivença é nossa.” Nas palavras de um comentador, “Isto é Nuno Melo, a ser Nuno Melo.” É o preço que o PSD paga pela formação da AD, e por ter de dar uns lugares de destaque ao CDS-PP.

Para terminar, não posso deixar de aproveitar a atribuição do prémio Nobel da Paz à líder da oposição da Venezuela, Maria Corina Machado, para trazer à crónica o político mais inútil de todos os tempos. Donald Trump passou semanas a afirmar que o prémio teria de lhe ser atribuído, que só ele o merecia pois já teria acabado com inúmeras guerras. Consegue ser ainda mais ridículo quando afirma que Corina Machado lhe ligou a dizer que aceita o prémio em sua homenagem. Mas será que não há ninguém com coragem suficiente para chamar mentiroso a Donald Trump?

Crónica publicada na edição 511 do Notícias de Coura, 21 de outubro de 2025





terça-feira, 14 de outubro de 2025

A tasca das gravatas

Em maio de 2016 escrevi uma crónica intitulada “O circo das gravatas!” Os deputados brasileiros votavam o impeachment à Presidente Dilma Rousseff, e eu admirava-me com as intervenções absurdas de alguns deles. Nos últimos dias estive atento a algumas das intervenções dos deputados portugueses na Assembleia da República, enquanto no Brasil dá vontade de rir, aqui entre nós a situação só pode envergonhar quem se der minimamente ao respeito. Alguns deputados que estão na nossa Assembleia da República têm comportamentos que estão ao nível das tascas mais brejeiras e mal frequentadas que possamos imaginar. Como portugueses temos mesmo de olhar para tudo isto e ter consciência que é esta gente que nos representa e que toma decisões que influenciam a nossa vida. É nestas alturas que eu percebo as razões que levam muita gente a abster-se e a não votar.

Começo pelo desagradável momento em que o deputado Filipe Melo do Chega envia beijinhos à deputada do PS Isabel Moreira, escrevi desagradável porque me pareceu a palavra mais suave para substituir todas aquelas que me vieram à cabeça: nojento, asqueroso, repugnante e imundo. Situação absolutamente vergonhosa, um vice-presidente da Assembleia da República, em plena sessão de trabalho a ter um comportamento daqueles. Comparado a isto, os corninhos que Manuel Pinho fez em 2009 eram uma mera brincadeira. Nessa altura os ministros demitiam-se por coisas assim, nos dias de hoje, não há vergonha, tudo se pode fazer na mais inaceitável impunidade. Já na anterior legislatura tinham vindo a público algumas das frases com que os deputados do Chega brindavam as deputadas assumidamente lésbicas: ou lhes chamavam vacas ou mugiam à sua passagem. Numa outra altura, a deputada Rita Matias chamou “senil” à deputada socialista Edite Estrela. Quando o Presidente Brasileiro Lula da Silva discursou na Assembleia da República, os deputados do Chega protestaram energicamente, batendo com as mãos nas mesas e mostrando cartazes onde se podia ler: “Chega de corrupção.” Rita Matias tinha um cartaz diferente, dizia “Lugar de ladrão é na prisão.” Estaria já a adivinhar o futuro do amigo Bolsonaro!? Há cerca de um ano o Chega protagonizou outro momento lamentável quando pendurou tarjas de protesto nas janelas da Assembleia da República. Em todos estes momentos de desrespeito pela instituição há um denominador comum, o partido que se diz de fora do sistema, e que afirmou querer implodir com o mesmo. Alguém tem de ter mão nesta gente, sob pena de tornar a Assembleia da República um local pouco aconselhável para se frequentar. (Há muitos anos fui com alguns alunos visitar o trabalho dos deputados, atualmente seria incapaz de o fazer, se eles vissem aqueles comportamentos eram bem capazes de achar que os podiam replicar na sala de aula.) Já esta crónica estava alinhada quando mais um momento hilariante acontece: Pedro Frazão, do Chega, acusa Hugo Soares de o ameaçar com porrada, quando na verdade o que ele lhe queria dar era a morada! Estas situações têm muito mais piada no parlamento japonês, quando os deputados se zangam partem mesmo para o confronto físico.

Em todos os locais de trabalho há momentos que podem ser divertidos e descontraídos, mas nunca atingir o limite da falta de educação. Paulo Núncio, deputado do CDS e defensor da tourada, foi colhido por um bezerro em Vila Franca de Xira. Dias depois, quando começava a sua intervenção na AR foi brindado pela oposição com um sonoro “Olé!”. O próprio Paulo Núncio riu-se com a situação, e os trabalhos continuaram normalmente. Saber fazer humor de forma inteligente não está ao alcance de todos.

Já basta de coisas tristes e feias, está na fora de terminar este texto e quero fazê-lo com algo extraordinário, a capa da última edição do Notícias de Coura dava destaque às meninas que são o vosso orgulho: o Coura Voce. Quando penso nalgumas coisas que Coura tem, especialmente nas áreas da educação e da cultura, lembro-me daquela canção que certamente conhecem: “O que é que Coura tem, tem tudo como ninguém!”



Crónica publicada na edição 510 do Notícias de Coura, 7 de outubro de 2025



terça-feira, 30 de setembro de 2025

O Elevador sem glória.

Uma das mais emblemáticas atrações turísticas da cidade de Lisboa foi palco de uma tragédia. O Elevador da Glória soltou-se do cabo que o segurava e só parou quando embateu num prédio, morreram dezasseis pessoas. Que o problema foi do cabo deu logo para perceber, bastava ver as imagens dos técnicos que seguravam um cabo de aço completamente estilhaçado. Soube-se nos últimos dias que o atual cabo já não era totalmente em aço, mas tinha o interior em plástico. Apetecia-me escrever nesta crónica que não lembra a ninguém, nos dias de hoje, com tanta tecnologia à disposição e com sistemas de segurança tão avançados, ainda ter um sistema destes em funcionamento, ou seja, duas cabines presas por um cabo e que quando uma sobe a outra desce. Que coisa tão atrasada, pensei. Mas agora, sou quase obrigado a admitir que funcionava, e era seguro há mais de cem anos, ao que parece só falhou quando resolveram substituir o cabo por um mais barato, perdão, por um cabo mais leve. Imperdoável é mesmo assim saber-se que o travão operado pelo guarda-freios era meramente decorativo e nunca teria sido capaz de evitar a tragédia, ainda que o cabo fosse extremamente seguro, tinha de haver uma solução para se um dia ele falhasse.

Como em todas as tragédias, por mais respeito que os políticos tenham nas primeiras horas não conseguem por muito mais tempo deixar de aproveitar o momento para tirar dividendos políticos. Obviamente que iria ser pedida a demissão de Carlos Moedas e naturalmente que o caso iria ser comparado ao da demissão de Jorge Coelho. Nada que espante quem estiver atento ao que é a política atual. O que é certo é que passaram alguns dias, e já pouco se fala sobre o assunto, ele voltará ao debate na campanha das legislativas, as televisões voltarão a convidar para o debate os especialistas do costume quando for publicado o relatório oficial das causas do acidente e poderá ser o acontecimento que ditará a derrota nas eleições de Carlos Moedas. Daqui a algum tempo, a tragédia só será lembrada pelos familiares e amigos daqueles que perderam os seus entes queridos.

E porque não quero só falar do Elevador da Glória, eis que outro elevador me parece completamente descontrolado, embora este pareça que está a subir. O Chega aparece à frente numa das últimas sondagens publicadas. André Ventura parece descontrolado com tamanha boa notícia, parece que já nem dorme, deve trabalhar nas vinte e quatro do dia, e talvez outras tantas durante a noite! Fala sobre tudo e sobre nada, está em todo o lado, e prepara-se para ser de novo candidato à Presidência da República.

O Chega é André ventura, e a única forma do partido não ter uma votação triste e conseguir mobilizar os eleitores é ser Ventura o candidato. Obviamente que ele não quer ganhar, quer apenas ir à segunda volta para depois obrigar todos os outros a votar contra e vitimizar-se. Imaginem que na segunda volta tínhamos Ventura e Marques Mendes! Lá teria a esquerda de apelar ao voto no homem do PSD! E se fosse Ventura e Seguro? O PSD estaria em apuros, decerto iria dar liberdade de voto aos seus eleitores para não irritar Ventura. Se Ventura for à segunda volta com Gouveia e Melo, será a esquerda a colocar um militar em Belém. Avizinha-se um combate interessante, e mais uma vez a divisão de candidatos à esquerda pode ser decisiva, bem como a indecisão do PS em apoiar António José Seguro. Há quem diga que a melhor forma de acabar com o Chega é eleger Ventura para Presidente! Valerá a pena correr o risco!? Estarão os portugueses loucos a este ponto!? (Os brasileiros elegeram Bolsonaro, e os Americanos, Trump… duas vezes). Querer acabar com o Chega é uma maldade dizia há dias um humorista, “é que aquilo é uma fonte rica em piadas e patetices!” E agora, até o seu líder já não se fica só pelas mentiras como inventa coisas no mínimo absurdas e ridículas, aquela história do Presidente da República ir a um festival de hambúrgueres é do mais patético que já se ouviu. O pior, é que há povo que acredita e acha muito bem.

Num país assim, mais vale ir pela escada que apanhar o elevador.

Crónica publicada na edição 509 do Notícias de Coura, 23 de setembro de 2025





domingo, 14 de setembro de 2025

Parecemos um país do 3.º mundo.

Acabaram as férias. Para nós professores o trabalho começa a 1 de setembro, embora o povo pense que só vamos trabalhar quando as crianças vão para a escola. (E não escrevo “povo” com nenhum tipo de desconsideração, a minha própria mãe me perguntou o que vou fazer agora para a escola se as aulas só começam a meio de setembro!) Voltam as obrigações, levantar cedo para ir trabalhar, preparar aulas e trabalhos para as crianças, corrigir os mesmos, voltam as imensas reuniões de trabalho…. voltam as crónicas para o Notícias de Coura. Parece que estou chateado e por isso o título da crónica, mas não é verdade, já estava pronto há mais de um mês, já tinha os dois temas escolhidos, era só preciso aprofundá-los. Assim explicado até parece fácil.

Um dia destes, no Carregado, uma mãe entrou em trabalho de parto, o serviço SNS 24 aconselhou-a a dirigir-se ao hospital de carro, apesar de ser uma doente de risco. A demora foi tanta que a criança acabou por nascer na rua com a ajuda dos avós. A primeira ambulância que chegou tinha o pneu furado, depois lá foi chamada outra que serviu apenas para conduzir ao hospital a mãe e a criança recém-nascida. Apuradas as responsabilidades chegou-se à conclusão de que houve uma falha humana, o técnico do serviço telefónico foi o culpado. Felizmente correu tudo bem, caso tivesse corrido mal o responsável seria o trabalhador precário, provavelmente subcontratado e sem a formação adequada e que se exige para questões de saúde, questões de vida ou morte. A saúde é o que é em Portugal, tem profissionais excelentes, mas continua a não ter a necessária e merecida consideração que devia do governo, deste governo e de todos os que o antecederam. (Esta é a opinião que tenho daquilo que vou lendo e ouvindo, felizmente para mim, só tenho a dizer bem do serviço nacional de saúde, até agora. Espero nunca ter destes azares.)

Até ao dia 23 de agosto tinham ardido este ano em Portugal cerca de 250 mil hectares de terrenos, florestais e agrícolas. Pior, só no trágico ano de 2017. Infelizmente. Nada disto me admira. Se há coisa habitual no nosso país no verão são as festas populares e os incêndios. E é assim desde que me lembro, há vinte ou trinta anos que isto acontece, nuns anos mais, noutros anos menos, mas nunca os incêndios deixaram de ser uma das tragédias que afeta o nosso país no verão. O que me faz ficar perplexo é como é que países como Marrocos e a Grécia tem dezenas de aviões de combate aos fogos, e Portugal não tem nenhum. Parece que o Estado Português já comprou dois Canadair, um chega em 2029 e outro em 2030. Como é possível só agora se terem lembrado disto? Como é possível que ainda não tenham adaptado alguns aviões da força aérea para o combate aos fogos? Estarei eu a dizer alguma coisa tão inteligente e óbvia que ainda ninguém se tenha lembrado? Obviamente que não, os incêndios nunca irão acabar porque não interessa que acabem. Não estou a insinuar nada, mas o que seria da vida das empresas de aluguer de aviões de combate aos fogos, das empresas de venda e adaptação de carros de bombeiros, das empresas de venda de equipamento e ferramentas de combate aos fogos, e muitas outras? Seriam muitos negócios em crise, há anos e anos que a conversa é a mesma no final do verão e depois fica esquecida até à próxima época de incêndios.

Mesmo já não tendo espaço para os desenvolver, deixo aqui mais dois assuntos que podem vir a causar embaraços internacionais preocupantes. Marcelo Rebelo de Sousa voltou a vestir o fato de comentador e apelidou Trump de Ativo soviético, e Mariana Mortágua juntou-se a Greta Thunberg e vai a caminho de Gaza numa flotilha de ajuda humanitária. Israel prepara-se para deter todos os ativistas acusando-os de terrorismo. Obviamente que o título é exagerado, os verdadeiros países do 3.º mundo seriam muito felizes se os seus problemas fossem os nossos. Na verdade, nem se devem comparar os países, todos são diferentes, todos têm caraterísticas próprias, problemas específicos e histórias incomparáveis. Aquilo que temos obrigação é de olhar para o nosso país e ser capazes de ter consciência das falhas e das nossas limitações, e devemos combater a vergonha que sentimos com a força de exigir a quem nos governa uma mudança de atitude. O que me assusta, em Portugal, é as escolhas que ultimamente têm sido feitas.


Crónica publicada na edição 508 do Notícias de Coura, 8 de setembro de 2025



terça-feira, 19 de agosto de 2025

Barracas, Cidadania, Centeno e Félix.

Barracas: Ainda me lembro de chegar a Lisboa de carro no início da década de noventa e ver centenas de barracas à entrada da capital. Lembro-me de achar curioso ver estacionados alguns Mercedes e Volvos à porta e de ver muitas antenas parabólicas, como era uma criança ficava na inocência não fazendo naturalmente segundas leituras. No final dessa década, João Soares prometeu acabar com as barracas e, mal ou bem, foram demolidos os principais bairros de barracas da cidade. Desde essa altura, não me lembro da televisão portuguesa se ter dedicado ao tema como o fez nos últimos dias a propósito da demolição de barracas em Loures. Quando vi as primeiras notícias fiquei triste, não se devia demolir aquelas barracas, que para muitas daquelas pessoas eram o seu único lar, o único teto para se abrigarem, o único espaço para guardarem os seus poucos pertences. Mas é importante ouvir todas as partes, pelos vistos, a muitas daquelas pessoas foram oferecidas alternativas que não foram aceites, algumas das pessoas indignadas são os artistas que comercializam as barracas a dois ou três mil euros, e é preciso também ter respeito pelos vizinhos que têm lá perto casas devidamente legalizadas, e a quem a luz é desviada, ficando sem um serviço pelo qual pagam. Como disse um dia Jaime Pacheco, um dos mais divertidos treinadores de futebol portugueses, “Isto é uma faca de dois legumes!” O que não faz sentido, é em 2025 existirem barracas, num país onde poderiam estar a entrar quarenta milhões de euros por dia provenientes do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência). Com o dinheiro de uma semana, faziam-se casas para 3000 famílias, (como disse um dia António Guterres: “É fazer as contas.”)

Cidadania: De um dia para o outro, anda meio país indignado com a alteração de algumas aprendizagens da disciplina de Cidadania. Como se a mesma representasse um perigo para a formação das crianças, ou como se de repente, como já ouvi um “pateta” de um comentador dizer, “a gravidez na adolescência vai voltar a números preocupantes!” Haja paciência! Obviamente que se trata de uma questão ideológica, o governo teve de ceder a uma certa direita conservadora e puritana e fez uma limpeza a algumas das palavras, quais pecados perversos e perigosos! Abordar com as crianças o respeito nas relações interpessoais, no namoro, na não discriminação sexual, religiosa ou racial, o problema da violência doméstica, são tudo temas que os professores sempre souberam abordar, independentemente daquilo que está escrito nos papéis e nas orientações. E vão continuar a fazê-lo, bem.

Centeno: Mário Centeno não foi reconduzido como Governador do Banco de Portugal. A meu ver, bem. Não está em causa a sua competência técnica, mas obviamente o seu perfil político. Mesmo sendo um cargo de nomeação política, é importante que o governador tenha a isenção suficiente para o desempenhar, coisa que manifestamente não tem. Saiu do Governo diretamente para o cargo, e já no cargo, ponderou ser candidato a Presidente da República e, pior, mostrou-se disponível para substituir António Costa quando este se demitiu do governo. Agora que está livre, espero que não pondere ser candidato à Presidência da República e venha a agradar à parte do Partido Socialista que não quer apoiar António José Seguro.

João Félix: No dia em que a novela Gyökeres acabou, e quando as televisões tinham os seus comentadores embrenhados na novela João Félix, eis que entram em cena Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus. Ao que parece, dois telefonemas bastaram para que o desejo de Félix de voltar ao Benfica se tenha esfumado. Foi um golpe duro nas ações de campanha que Rui Costa tem vindo a concretizar, mas não se deve fazer passar o jogador por mercenário ou traidor. João Félix talvez já tenha percebido que passou ao lado de uma carreira fenomenal de jogador, está na hora de garantir o seu futuro e da sua família para o resto da vida. Quem não o faria!? Até eu, que adoro ser Professor, era capaz de ir para as Arábias vender pastéis de nata se me acenassem com dois ou três milhões por ano. (Provavelmente até não ia, o médico mandou-me cortar com os bolos!)

Termina mais uma crónica dedicada a vários temas, vamos ver se as férias me fazem voltar com força e inspiração para escrever um texto inteiro sobre um só tema. Boas férias e bom festival!


Crónica publicada na edição 507 do Notícias de Coura, 5 de agosto de 2025



domingo, 27 de julho de 2025

Anões, telemóveis, Sócrates e Gyökeres

Está quase a chegar o mês de agosto, das férias, do festival de Coura e da pausa da minha obrigação de escrever uma crónica para o Notícias de Coura de duas em duas semanas. Ando mesmo com falta de ideias e a política está em lume brando, nada de relevante se tem passado que justifique o meu trabalho. (Agora que penso nisto, acho que eu é que me estou a desinteressar cada vez mais do assunto, tenho andado meio desligado da política nacional e internacional). Mais uma vez, vou pegar em meia dúzia de coisas que fui apanhando nas notícias dos últimos dias e fazer aqui uma espécie de pacote que me salve e que não aborreça dos leitores. Obviamente que a primeira palavra do título é meio caminho para despertar a curiosidade!

Anões: Lamine Yamal, jovem jogador do Barcelona e da seleção espanhola atingiu a maioridade e decidiu festejar em grande, uma festa privada com mais de duzentos convidados e onde o uso de telemóveis estava proibido. Pelos vistos, além de futebolistas, influencers e artistas, estiveram na festa prostitutas e anões. Espanha indigna-se e até promete investigar uma vez que existe uma lei que proíbe "espetáculos ou atividades recreativas em que se use pessoas com deficiência para provocar a piada ou o escárnio de modo contrário ao respeito devido à dignidade humana". Um dos anões, aliás, uma das pessoas contratadas, já veio dizer que ninguém foi desrespeitado na festa. Em Portugal, também há um tribunal a julgar uma humorista, e por coincidência, ali em Espanha a multa também pode chegar a um milhão de euros. Obviamente que isto é assunto por ser um jogador de futebol de topo, se fosse um tipo que trabalha nas obras a convidar um amigo fanhoso para contar umas anedotas na sua festa de anos, ninguém sabia, e melhor, ninguém se importava.

Telemóveis: Os ricos proíbem o uso de telemóveis nas suas festas, em Portugal proíbe-se o uso do aparelho nas escolas! Agora a sério, depois desta pequena piada que não resisti a escrever: até que enfim! Finalmente houve a coragem de o fazer, ainda que tenha ficado aquém daquilo que eu desejava, que era proibir a sua utilização até ao 9.º ano. Esta decisão foi baseada em estudos científicos que comprovam os problemas de saúde física e mental associados ao uso excessivo dos dispositivos móveis. Será agradável ver as crianças a conversar e a brincar nos intervalos. E não me venham com o discurso bonito de que não se deve proibir e sim educar. Há coisas que só mesmo proibindo. Se assim não fosse, ainda hoje se fumava nos restaurantes e nas escolas, e ninguém se preocuparia em andar a menos de 120km/h nas autoestradas.

Sócrates: Começou finalmente um dos julgamentos mais mediáticos de sempre em Portugal, apesar das muitas tentativas do arguido em tentar impedir a sua realização. José Sócrates tem estado igual ao que sempre foi, mas agora para pior. Dispara constantemente em todas as direções, procura a comunicação social e fala mal dos Juízes, dos Procuradores, do Ministério Público e até dos próprios jornalistas, que um dia destes tiveram o bom senso de o deixar a falar sozinho. Quem o ouvir quase fica com a sensação de que apenas ele é inocente, sério, uma vítima disto tudo. Vai ser o último a perceber que já ninguém tem paciência para a sua vitimização. Na verdade, só lhe dão atenção pois continua a ser uma fonte fértil para escrever notícias e fazer capas de jornais. No meu caso, permitiu-me escrever mais doze linhas nesta crónica, e tenho a certeza que muitas mais no futuro.

Gyökeres: Tem sido a novela dos últimos dias. Ainda ontem o negócio estava quase concluído e já hoje está novamente em risco. Não me vou alongar, o Sporting deve-lhe sem dúvida os dois campeonatos que justamente venceu, ele deve ao Sporting a cobiça que grandes clubes têm hoje por ele e uma coisa bem mais importante: respeito. Na minha humilde opinião, o Presidente Frederico Varandas tem tido uma postura exemplar. Acredito que mais dia menos dia o jogador irá para o Arsenal, e acredito ainda mais que daqui a um ano, é bem mais provável o Sporting ser novamente campeão do que o Gyökeres marcar metade dos golos que fez na última temporada. Fica a aposta!


Crónica publicada na edição 506 do Notícias de Coura, 22 de junho de 2025



segunda-feira, 14 de julho de 2025

Mais apontamentos dispersos

Foi em julho de 2018 que publiquei uma crónica com o título de apontamentos dispersos. Provavelmente faltou-me assunto para as setecentas palavras dos costume e então resolvi escrever sobre várias coisas, e com cem palavras sobre cada uma delas se cumpriu a obrigação literária! Hoje farei a mesma coisa. Pensei por momentos noutra solução, resolveria provavelmente a questão em dois ou três minutos, mas vieram-me à memória as palavras de Mário Lino, Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, que em 2007 dizia acerca da construção de um aeroporto na margem sul: “Jamais, jamais.”

Chat GPT: Nos últimos dias tive oportunidade de me insurgir contra alguns colegas meus, Professores, que me dizem recorrer frequentemente ao Chat GPT para os ajudar a escrever alguns textos. “Olha lá, é só dizeres ao Chat GPT para te construir uma síntese sobre um aluno que é preguiçoso, que não faz os trabalhos de casa, estuda pouco e se mostra pouco empenhado nas aulas, e já está. Ele escreve um texto fantástico.” Era o que mais faltava, digo eu, sejam as palavras bonitas ou menos agradáveis, aquilo que tiver de ser dito vai sê-lo por mim. Até porque o tempo que perco a dar-lhe as indicações escrevo eu o texto. Sei bem das capacidades do Chat GPT e das vantagens da sua utilização, mas dificilmente ele conseguiria ser irónico e mordaz como eu às vezes consigo ser, e nunca me daria a satisfação que tenho de chegar às seiscentas ou setecentas palavras e pensar: “Já está, consegui escrever mais uma crónica e cumprir a minha obrigação de o enviar a tempo e horas!” Portanto, recorrer ao Chat GPT para me ajudar a escrever a minha crónica: “Jamais, jamais.”

António José Seguro: Apresentou oficialmente a candidatura, com o único propósito, creio eu, de irritar o PS. E já o conseguiu. António Vitorino já anunciou que não será candidato, José Luís Carneiro tem um problema nas mãos, que está a tentar adiar até depois das eleições autárquicas, e nos últimos dias tem-se ouvido a hipótese de Augusto Santos Silva ser candidato. Para bem do próprio, e do PS, era melhor que não se metesse nessa aventura. Mais vale o PS “fechar” os olhos e apoiar Seguro, nem que isso lhe custe tanto quanto custou ao PCP apoiar Mário Soares em 1986.

Casamento em Veneza: Não fossem as notícias das últimas semanas na comunicação social e meio mundo não sabia que Jeff Bezos era o dono da Amazon, muito menos que se ia casar, e que o queria fazer em Veneza. Pelos vistos, o homem convidou umas quantas pessoas cheias de dinheiro, que resolveram ir gastar uns milhões na cidade. Eis senão quando, uns quantos indignados decidiram revoltar-se dizendo que “Veneza não está à venda!” Absurdo… Veneza está à venda há muitos e muitos anos aos milhares e milhares de turistas que por lá passam. Qual a diferença para Bezos? Obviamente o mediatismo. Este foi um casamento que levou à cidade novecentos milhões de retorno financeiro, Bezos doou três milhões a várias instituições da cidade. Irrita-me esta falsa indignação de pessoas que se calhar nada fazem pelas suas terras. (Como me irritava quanto ouvia pessoas a indignarem-se contra o Festival de Coura… quantas terras gostariam de o ter, quantas cidades gostariam de ter lá “Bezos” a casar.)

Humor em tribunal: Os noticiários têm estado nos últimos dias atentos ao desenrolar das sessões do julgamento em que o grupo musical Anjos acusa a humorista Joana Marques, de lhes ter feito perder uns milhares de euros em contratos por ter publicado um vídeo em que, aparentemente, gozava com a atuação dos mesmos quando cantaram o hino nacional. Depois de ouvir os Anjos a “tentar” cantar o hino, também eu me ri, e achei aquela entoação ridícula. (Eu não canto exatamente por isso!) Em 1987, o ator João grosso cantou uma versão rock do hino e foi processado pelo Estado. Não aprecio nada o humor de Joana Marques, mas ver os Tribunais perderem tempo com coisas destas é absurdo. Se o 25 de abril se fez para que até alguns deputados possam dizer alarvidades na casa da democracia, é deixar que os humoristas sejam julgados por quem os ouve, e lhes acha, ou não, piada. Férias: Já duas pessoas me perguntaram como estavam a correr as férias. Com a primeira ainda me ri, na segunda já fiz cara feia, a próxima arrisca-se a ouvir daquilo que nem eu vou gostar. Esta mania de pensarem que os professores têm três meses de férias no verão tem de acabar. (E agora vou-me calar, não preciso de escrever mais nada, quem me conhece sabe perfeitamente o que eu iria dizer! Além disso, já tenho mais de setecentas e cinquenta palavras!)


Crónica publicada na edição 505 do Notícias de Coura, 8 de junho de 2025




terça-feira, 1 de julho de 2025

Facebook: outra vez não.

Acordei espantado um dia destes com uma mensagem da META informando-me que a minha conta do Instagram tinha sido bloqueada por causa de uma publicação que violava as normas. Espantado, lá tentei perceber o que se tinha passado, mas sem efeito. Estranhei ainda mais pois nada tinha publicado que pudesse provocar tal situação, às vezes publicava umas críticas políticas, mas nada que justificasse tamanho castigo. Tentei perceber qual a publicação, mas em vão, restou-me tentar desbloquear a conta, colocar palavras-passe e códigos recebidos por mensagem, mas a resposta foi: a sua conta foi apagada permanentemente.

Em condições normais ficaria danado, zangado, revoltado, mas a minha atual condição médica obriga-me a respirar três ou quatro vezes antes de me zangar… não vá o coração pregar-me uma surpresa. Apenas fiquei triste, bastante triste. E não por ter perdido a conta do Instagram com quase três mil seguidores, ou a conta do Instagram do meu Clube de Fotografia da escola com quase mil seguidores, mas sim pela conta do Facebook. Publicações à parte, entristece-me perder acesso a tantas memórias da vida nos últimos vinte anos, tantos eventos, tantas histórias, tanta gente. Sempre defendi que uma das coisas boas das redes sociais são guardar memórias, e quando as vivências são muitas, este registo é uma grande ajuda. Por enquanto, ainda guardo na memória tudo aquilo, mas com o passar dos anos a nossa memória desgasta-se, e chegamos provavelmente a um ponto que algumas delas se apagam, se confundem, se baralham.

A solução até é simples, criar uma conta e recomeçar tudo de novo, mas tudo isso seria demasiado doloroso, e não vale a pena. Até porque é impossível voltar a recuperar tudo. Apesar de já ter outra conta, criei-a apenas para utilizar o Messenger e ter contacto com um conjunto de pessoas que não quero perder. Alguns de vocês provavelmente até receberam um pedido de amizade de um Luís Lopes parecido comigo. Sou eu mesmo, mas não o mesmo de outros tempos. Quanto a publicações, talvez me fique apenas pela partilha das crónicas no Notícias de Coura, ou outras pequenas partilhas de trabalhos, na certeza que tudo aquilo que lá colocar, estará de certeza publicado noutro local, num local que não esteja sujeito ao escrutínio de um algoritmo que não me atrevo aqui a adjetivar, sob pena do Tinoco me bloquear, e com razão.

Quanto ao Instagram, eu gostava mesmo daquilo, e era uma fonte incrível de recursos e inspiração para muitos dos trabalhos de fotografia, mas pessoalmente, e como dizia o outro: “É, é… mas vou abandonar, tenho uma consulta agora às cinco!” Profissionalmente não o poderei fazer, e obviamente que terei de o voltar a usar para o meu Clube de Fotografia da escola. Pessoalmente, talvez me renda aos Chineses, e a acreditar nalguns números, o TIKTOK é atualmente a rede social mais usada no mundo.

Até em termos de saúde, sabe-se que a dependência das redes sociais é prejudicial, acarreta problemas de visão, dificuldades em dormir, dores de cabeça, dores de costas ao passarmos tanto tempo dobrados, enfim, tanta coisa boa, mas que obviamente ignoraria por completo se pudesse voltar a ter acesso às minhas contas.

E assim, com este triste relato estou prestes a terminar mais uma crónica. Que estaria eu a escrever se isto não me tivesse acontecido? A desabafar sobre o imenso trabalho que tem recaído sobre alguns professores por causa da realização das provas ModA? A dar os parabéns à Seleção Portuguesa pela conquista da Liga das Nações? A indignar-me com as últimas manifestações de violência de grupos de adeptos e grupos de extrema-direita? A mostrar-me triste e chocado com os conflitos no Médio Oriente? Nunca saberei. Só espero que não me aconteça nada parecido que me sirva de inspiração para a próxima crónica.


Crónica publicada na edição 504 do Notícias de Coura, 24 de junho de 2025



terça-feira, 17 de junho de 2025

Continência.

Quebrou-se finalmente o tabu das próximas eleições presidenciais, Gouveia e Melo vai ser Presidente… perdão, candidato à Presidência da República.

Escrevi em tempos numa crónica que o Sr. Almirante não se devia meter na política, que o que tinha feito pelos portugueses durante a pandemia era suficiente para que o povo lhe reconheça o valor e lhe esteja agradecido, mas nos últimos tempos mudei de opinião. Também eu me comecei a fartar dos políticos de carreira, dos seus discursos vazios de conteúdo e cheios de ódio e desconsideração pelos seus adversários, desta vez também o meu será um voto contra o sistema. (Só mesmo António Guterres me faria mudar de opinião.) Estou aborrecido com o sistema, mas não a ponto de me tornar eleitor do Chega, se um dia isso estiver prestes a acontecer, faço das palavras do Almirante as minhas: “Se isso acontecer, dêem-me uma corda para me enforcar.” Pior do que estar aborrecido com os políticos, é ver que os que se perfilam na corrida a Belém não darem entusiasmo nem mereçam a confiança do meu voto. Marques Mendes nunca foi político que me gerasse simpatia, e o comentário político semanal em nada mudou esse sentimento. Embora tendo o apoio do seu partido, Marques Mendes nem dentro do PSD é admirado, não terá votação digna de registo. (E que reze para que Ventura não seja candidato, teria quase de certeza pior resultado!) Do lado do PS, o passado repete-se mais uma vez, o orgulho das várias fações do partido é maior e não permite um candidato único. Foi assim que colocaram Cavaco em Belém durante dez anos, quando não se uniram em torno de Manuel Alegre. António José Seguro vai ser candidato para chatear parte do partido, António Vitorino é o nome de quem se fala sempre que as presidenciais se aproximam, e até o nome de Sampaio da Nóvoa volta a ser ouvido. Mesmo que o PS não se dividisse, desta vez dificilmente mudaria o rumo dos acontecimentos.

Gouveia e Melo tem razão quando fala numa “reação corporativa”, os políticos de carreira estão zangados, desdobram-se em críticas e em explicações de que alguém sem experiência política não deve ser Presidente da República, que não estará preparado para responder aos desafios políticos cada vez mais complexos do regime. Aquilo que me parece é que estão a dar um mau exemplo do respeito que deviam ter pela democracia, e acima de tudo estão preocupados pois vão-se fechar uma série de cargos e portas políticas que estão habituados a ter há muitos anos. Marcelo Rebelo de Sousa foi um Presidente lançado pelo comentário político, Marques Mendes preparava-se para ser o seguinte, não fosse a Pandemia ter aparecido e ser necessário vir um militar colocar ordem na casa, pois como se lembram, os nomeados politicamente deram péssimos exemplos de gestão, ética e respeito pelo cargo. Gouveia e Melo diz estar a responder ao pedido que vê emergir no povo, apresenta-se quase como um D. Sebastião cujo povo anseia e espera ver resolver os seus problemas, necessidades e desejos. Obviamente que Gouveia e Melo se deslumbrou quando sentiu que o reconhecimento da população o podia colocar como o mais alto magistrado da nação. Quem não sentiria o mesmo? Quem desperdiçaria tal oportunidade? Ainda falta meio ano para as eleições presidenciais, ainda está por aparecer alguém do PCP, Tino de Rans é capaz de voltar a candidatar-se e pelo meio ainda teremos eleições autárquicas. Não me parece que as presidenciais tenham muito mais motivos de interesse e fico a torcer para que se despachem logo à primeira volta.

Ramalho Eanes afirmou em 1976 que “não era o candidato das forças armadas nem dos partidos” e que o seu compromisso “era com o povo português”. Em 2024 Ramalho Eanes foi avaliado como o Presidente com avaliação mais positiva, num barómetro da Intercampus. Talvez daqui a cinquenta anos aconteça algo parecido a Gouveia e Melo. E se isso acontecer, fica-se já com uma ideia dos Presidentes que se seguem! (Vou-me rir já, pois nessa altura já não é coisa que me preocupe!)



Crónica publicada na edição 503 do Notícias de Coura, 10 de junho de 2025



terça-feira, 3 de junho de 2025

Eleições legislativas: quando serão as próximas?

Tal como escrevi na anterior crónica, o título já estava preparado, só tenho mesmo de esperar até ao final do dia das eleições para que a crónica fique pronta. Estou a começar a escrever no dia das eleições, fui exercer o meu dever cívico depois de almoço, e como o tempo está feio e não me apetece sentar já no sofá sob pena de adormecer, vou já alinhavar umas duzentas ou trezentas palavras. Não sou nenhum adivinho, muito menos um comentador político cheio de fontes e informações sobre sondagens, mas a instabilidade governativa vai continuar, qualquer pessoa consegue ver isso. Enquanto se continuar a colocar o Chega fora da equação, não há maiorias à direita, e muito menos à esquerda. O Sr. Presidente da República disse há dias que só dará posse a um governo que garanta condições de estabilidade, não estou bem a ver como o irá fazer! Irá encostar André Ventura à parede e obrigá-lo a garantir a estabilidade de um governo de Montenegro? Ou será que vai obrigar Montenegro ou Pedro Nuno Santos a suportar o governo do outro? Não vejo que alguma destas coisas aconteça, e nem sequer lhes vejo muito sentido. Como não quero deixar as previsões para logo à noite, aqui ficam: AD vence e sobe o número de deputados; PS desce o número de deputados e Pedro Nuno Santos apresenta a demissão; IL e Livre sobem; PCP e BE, na melhor das hipóteses, mantêm os deputados que têm, o PAN fica sem representação parlamentar e o Chega desce. (Esta última previsão é mesmo um desejo!)

Pois bem, escrevo agora ao final da tarde do dia seguinte às eleições. Enganei-me, especialmente naquilo que mais desejava. O Chega é definitivamente um caso sério de sucesso, até agora ninguém encontrou a forma de combater este partido, alegadamente perigoso. Se em cinco anos já chegou a segunda força política, já não sou capaz de me rir quando oiço André Ventura dizer que vai ser 1.º Ministro. A democracia tem este problema de nos irritar quando não nos agradam os resultados. Enganei-me também quanto ao PAN, afinal, aquele discurso vazio e irritante de Inês Sousa Real continua a ter adeptos. E quanto ao Bloco de Esquerda, já se deve ter arrependido de em 2022 ter ajudado a derrubar o governo de António Costa, desceu de dezanove para cinco deputados, agora ficou com um. Dificilmente não será o início do fim. Acredito que a notícia de que o Bloco terá despedido, entre 2022 e 2024, cinco trabalhadoras que tinham sido mães há pouco tempo, foi um golpe decisivo. Ter continuado a encher a sua agenda com a defesa das mulheres depois disso, foi uma péssima ideia.

Foi uma noite eleitoral terrível para o PS e para Pedro Nuno Santos, não surpreende a derrota, surpreende a descida, e o pior mesmo é provavelmente ficar com menos deputados que o Chega depois de contados os votos dos círculos da emigração. O líder que se segue terá de ser muito corajoso, vai enfrentar uma travessia do deserto, terá que ser extremamente habilidoso para conseguir não dar a mão ao governo sob pena de perder identidade, mas não provocar mais crises políticas, pois como se viu, só beneficiam o Chega.

Para terminar, apesar das palavras de André Ventura a dizer que fará sempre o melhor para os portugueses, obviamente que quando o Chega deixar de ser um partido de protesto, quando começar a alinhar nas conversas da AD ou do PS, perde votos. E André Ventura sabe muito bem isso, só com crises políticas, casos, casinhos e confusões, ele pode ter protagonismo. (Até quando fica doente ele ganha protagonismo e votos, as horas e horas que a comunicação social lhe dedicou, atrás das ambulâncias e à porta dos hospitais, ajudaram e de que maneira a melhorar a votação.) Quando serão as próximas eleições? Não sei. Mas dificilmente a legislatura terá quatro anos.

Uma última linha para dar os Parabéns ao Sporting pelo justo título de campeão nacional.


Crónica publicada na edição 502 do Notícias de Coura, 27 de maio de 2025



domingo, 18 de maio de 2025

Apagões.

No passado dia 20 de abril o mundo foi surpreendido quando o Papa Francisco apareceu aos fiéis na varanda da Basílica de São Pedro para a bênção "Urbi et Orbi". Com uma enorme fragilidade na voz para ler o seu discurso, aquele homem fraco e doente teve ainda forças para dar a volta à praça e saudar os fiéis. Tudo isto em pleno dia de Páscoa, o dia da ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, da promessa na vida eterna. E mesmo para quem não foi capaz de ver nisto um sinal, o dia seguinte foi a prova de que há nas questões da fé algo que nos transcende, um acontecimento que não passa de um facto, (alguém frágil e doente, morrer), fazem-nos acreditar em mais alguma coisa. Nem que seja por necessidade de precisarmos de acreditar em algo melhor que nós, algo que justifique a nossa existência, algo que nos faça ter esperança em combater as asneiras e disparates que fazemos nos dias que vamos vivendo. A morte de Francisco não é só a morte do Papa, é o desaparecimento de um homem bom, o exemplo de alguém que o mundo admirava, pelo exemplo e pelas palavras. Ouvi um artista português dizer na rádio que, tendo estado junto a Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude de Lisboa, “mesmo não acreditando em Deus, estar junto ao Papa deu-me uma vontade de acreditar, para com ele poder rezar.” Francisco deixa-nos um vazio que temos medo de não ver preenchido. Depois de João Paulo II ficou-se com a imagem de um Papa simpático e acolhedor, e o medo de nunca se voltar a ter outro assim. Felizmente tivemos Francisco. Apetece-me ouvir de novo as palavras de João Paulo II, “Não tenhais medo.”, o conclave começa dentro de dias e aproxima-se o 13 de maio. Depois de Francisco, não podemos voltar atrás.

Uma semana depois mais um apagão. Desta vez colocou o nosso país sem energia elétrica durante mais ou menos 10 horas. E pior do que sem energia elétrica, foi ter estado sem comunicações. De um momento para o outro, os portugueses viram-se sem comunicações móveis, sem internet e sem redes. E agora!? Que fazer!? Muitos descobriram que podiam ir para a rua falar com os vizinhos, fazer uma caminhada, jogar às cartas com os filhos ou simplesmente ler um livro. Outros, talvez alarmados porque na rádio alguém disse que a situação podia durar horas, ou dias, apressaram-se a comprar água, velas e rádios a pilhas, isto obviamente aqueles que tinham dinheiro físico (moedas e notas)! Estranhei de facto ver filas enormes de gente a meter combustível e comprar água, e assustava-me pensar que a situação pudesse durar dias… seria decerto a anarquia. Os políticos não perderam tempo a atirar as culpas de uns para os outros. Mesmo sem ter conhecimento sobre a matéria, e não me apetecendo fazer uma pesquisa sobre o assunto, acredito que Portugal tem barragens suficientes e eólicas mais do que bastantes para se autossustentar, ou se não tem, podia perfeitamente ter. Mas percebo que estejamos dependentes da Europa, mais propriamente da nossa vizinha Espanha, por uma questão de preço. É triste ser um país pobre. Nas próximas semanas teremos mais alguns apagões no nosso país. Desde logo o apagão futebolístico que irá atingir um dos grandes clubes de Lisboa, pois só um será campeão. Pode ficar tudo decidido no próximo fim-de-semana, antes ainda desta crónica chegar às mãos dos leitores do Notícias de Coura, embora prefira que os verdes ganhem, não irei sofrer se for ao contrário, pessoalmente já sofri com o apagão que atingiu nas últimas semanas o meu Desportivo de Chaves, pois já não é este ano que regressa à primeira divisão. Politicamente, tenho a certeza de que no próximo dia dezoito haverá alguns apagões, desde logo o da estabilidade política pois só por milagre a coisa será diferente. Mas sobre apagões políticos deixo isso para a próxima crónica, cujo título já tenho preparado: Eleições legislativas: quando serão as próximas?


Crónica publicada na edição 501 do Notícias de Coura, 13 de maio de 2025





segunda-feira, 5 de maio de 2025

Idiotas nas redes sociais

Já lá vão quase cinco anos em que intitulei uma crónica de “Tu és o quê!? Influencer!?”. Desta vez volto ao tema por motivos que me irritam ainda mais. As redes sociais continuam cheias de “conteúdo”, que de conteúdo pouco ou nada têm, e pior, tornaram-se um espaço aberto a idiotas, bandidos e outros de igual espécie. Eu também passo algum tempo nas redes sociais, por motivos pessoais e profissionais, e também eu vejo algumas idiotices que por lá andam, mas apenas para me rir durante uns bons minutos por dia! Confesso que nunca tinha ouvido falar do Tiago Grila nem do F7. (Sei bem que dar importância e tempo de antena a este tipo de gente é o que eles querem, faço-o para aliviar a minha indignação.)

Tiago Grila confessou numa entrevista que a coisa mais louca que tinha feito era ter atropelado uma pessoa e fugido, ia agarrado ao telemóvel e estava a chover, e até refere o local. Logo que o caso foi tornado publico, devia ter sido imediatamente detido pelas autoridades. Mas não. Foi para Angola de férias, e quando regressou ainda avisou a CMTV para o esperar no aeroporto, onde pronunciou a frase “Por cima dos que andam, há os que voam.”, que imediatamente ficou na memória de alguns adolescentes. Quando ouvi isto de um dos meus alunos disse-lhe imediatamente: - Essa frase idiota tu consegues decorar, agora a password de administrador dos computadores tens sempre de ir ver ao telemóvel. Alguns dias depois de regressar, e sem que as autoridades se decidam a prender o artista pelo menos para prestar declarações, eis que se filma à frente de uma esquadra da GNR a rir e a ironizar com toda esta situação. Eu não vivi no tempo da ditadura, mas já ouvi falar do que se fazia, se fosse nesse tempo, este artista decerto não faria mais filmes desses a rir, ou pelo menos não o faria com a mesma quantidade dentes.

Numa outra situação difícil de caraterizar em palavras, pelo menos em palavras que eu possa aqui escrever, sabemos da notícia que três jovens foram detidos por suspeitas de terem violado uma rapariga de 16 anos e depois divulgado imagens do crime nas redes sociais. Um deles é F7, mais um conhecido influencer digital. (Quem, tal como eu, nunca tinha ouvido falar do artista, fica agora a conhecê-lo.) Tudo isto, a ser verdade, é demasiado mau. E comprovando a Lei de Murphy, não há nada que esteja mal que não possa piorar. A partilha das filmagens nas redes sociais é abominável, mas a visualização das mesmas por milhares de pessoas sem ninguém as ter denunciado é também imperdoável. Os jovens acusados vieram entretanto defender-se, afirmando que tudo é mentira e que nada daquilo é verdade. A forma como o fizeram é também ela de péssimo mau gosto, num vídeo em que estão a rir, afirmam que não é verdade pois não eram três jovens, eram quatro. Quanto à rapariga supostamente violada, lê-se que marcou um encontro com um jovem seu conhecido e que depois apareceram mais dois. É mais um caso do perigo que correm os jovens e adolescentes com a presença constante nas redes sociais. Ouvi há dias na televisão um comentador dizer qualquer coisa parecida a esta: “Quando os Pais transformam o quarto dos filhos em locais com todas as condições, internet, computador, acessórios… estão de certa forma a compensá-los por alguma falta de tempo que têm para eles… ou falta de paciência.” Como eu todos os anos me farto de ensinar aos meus alunos, é importante ter cuidado com o que publicamos nas redes sociais e com as pessoas com as quais falamos, é importante que os Pais mantenham uma vigilância que os faça perceber que não é para os espiar, e que se os Pais tiverem confiança, não vão andar a espreitar tudo o que eles fazem online. (O Professor de TIC é um chato, todos os anos com a mesma conversa!) O problema das redes sociais é bem expresso pelas palavras do escritor Umberto Eco: “As redes sociais dão o direito à palavra a uma "legião de imbecis" que, antes destas plataformas, apenas falavam nos bares, depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade.”

Acabo esta crónica a pensar já na próxima. Futebol e Eleições. Quanto ao futebol, não haverá dúvidas, quem chegar ao fim em primeiro será o justo campeão! Quanto às eleições… a confusão continuará dentro de momentos!


Crónica publicada na edição 500 do Notícias de Coura, 29 de abril de 2025