terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A justiça é cega.

A expressão a justiça é cega, “significa que o sistema de justiça deve ser imparcial, tratando todos de forma igual e sem distinções”. Essa imparcialidade é representada simbolicamente pela imagem de uma deusa com uma venda nos olhos. Trouxe este assunto à conversa por causa dos tristes acontecimentos que foram notícia há uns dias, relacionados com o julgamento do ex-Primeiro Ministro José Sócrates. Segundo o humorista Ricardo Araújo Pereira, o advogado de Sócrates, Pedro Delille conseguiu atrasar o processo mais uma hora. Como? Chegando ao tribunal com uma hora de atraso! Levou uma reprimenda da Senhora Doutora Juíza e pelos vistos não gostou, ficou tão zangado com a situação que resolveu deixar de defender o seu constituinte, ao fim de mais de dez anos. Sócrates deve ter pensado: “Só me faltava mais esta!” E como a Lei de Murphy nunca falha, o que já estava mal conseguiu ainda ficar pior. A Senhora Doutora Juíza não perdeu tempo, e vendo um arguido sem advogado, eis que lhe nomeia oficiosamente um advogado de serviço ao Tribunal. Calha a fava a José Manuel Ramos, um advogado invisual e que tem de ser amparado pela sua assessora para fazer se movimentar. Gostava de acreditar que a Senhora Doutora Juíza não sabia quem estava de serviço, porque se sabia foi uma malvadez aquilo que fez, sabia perfeitamente o “circo mediático” que é este julgamento, não havia necessidade de “atirar” este homem para o meio da arena. Pior terá sido se o fez para provocar José Sócrates. Quero acreditar que José Manuel Ramos estava no lugar errado à hora errada. Mas com todo o respeito, parece-me que a Senhora Doutora Juíza esteve ainda pior nos momentos seguintes, ao negar à defesa do arguido um prazo de quarenta e oito horas para se colocar a par do processo. Nem que fosse o super-homem, José Manuel Ramos conseguiria conhecer em dois dias um processo com mais de cinquenta mil páginas e treze milhões de ficheiros informáticos. Acabou por dar mais alguns motivos para José Sócrates se lamentar e se vitimizar, e temos de lhe dar alguma razão, é a lei que estabelece um prazo para que ele apresente um novo advogado. (Obviamente que com isto atrasa ainda mais o julgamento, mas perder um advogado depois de dez anos não me parece que traga grandes vantagens.)

Com tudo isto, ganharam os humoristas algum material para fazer piadas, piadas também eu imaginei desde logo, mas que não pude partilhar, não sendo humorista de profissão podia ser acusado de falta de respeito para com uma pessoa invisual. Como simples cronista posso pelo menos afirmar que José Sócrates continua com uma postura arrogante, pelo que o próprio advogado disse, tentou falar com José Sócrates, mas não foi fácil. Obviamente que Sócrates, do alto da sua sapiência, apressou-se a dizer que “Era só o que faltava a Senhora Doutora Juíza escolher-me um advogado!” Era de bom tom dirigir-se a José Manuel Ramos, agradecer-lhe a disponibilidade e informar que iria escolher outro advogado. Mas se assim fosse não seria Sócrates, petulante como sempre, falando de uma forma que parece que somos todos burros e inferiores. O que se seguirá!? Nem Shakespeare seria capaz de inventar uma novela com tantas voltas e reviravoltas. Este julgamento arrisca-se a durar tanto tempo que todos os factos prescrevem e o Estado Português é condenado a pagar uma indemnização ao arguido, ou demora ainda mais tempo e o caso extingue-se pelo desaparecimento do arguido. Talvez aconteça o mesmo no julgamento de Ricardo Salgado. Aconteceu uma coisa parecida no caso João Rendeiro.

Será que vamos ter de dizer que o Brasil é que é um exemplo para o mundo? Lula da Silva esteve mesmo preso depois de ser Presidente. E hoje é Presidente! Bem… por cá também Isaltino Morais esteve preso depois de ser Presidente de Câmara e hoje é-o novamente. Há uns dias Bolsonaro foi preso pois esteve a brincar com um ferro de soldar na pulseira eletrónica!

Ainda bem que a justiça é cega, se visse tudo era bem capaz de pedir uma corda para se enforcar.

Crónica publicada na edição 514 do Notícias de Coura, 2 de dezembro de 2025 





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