Depois de mais de um ano de campanha eleitoral para as eleições presidenciais, vamos ter, tal como era previsível, mais três semanas de espera.
Quando em novembro de 2024 Pedro Nuno Santos afirmava que António José Seguro era “um grande quadro do Partido Socialista e que os militantes do PS tinham muito apreço por ele”, estava longe de imaginar que isso seria o gatilho que faria despertar nele a vontade de avançar. António José Seguro viu nas palavras do ex-líder do partido um “descuido” que não poderia deixar de aproveitar, mais do que vontade de ser Presidente da República, tinha a oportunidade de colocar o partido entre a espada e a parede, depois da maldade que António Costa lhe tinha feito em 2014. E se bem o pensou, melhor o fez. O PS tardou a declarar-lhe o apoio, ainda assim, acredito mesmo que muitos dos militantes fizeram já na primeira volta aquilo que os comunistas fizeram em 1986 com Mário Soares, taparam os olhos e colocaram a cruz em Seguro. E de repente, António José Seguro que se candidatou para fazer pirraça ao PS, vai ser Presidente da República. Embora sem ter feito uma campanha entusiasmante, foi de longe a mais séria e à altura daquilo que deve a postura do mais alto magistrado da nação.
André Ventura, aquele que aparecia como vencedor em quase todas as sondagens, fica-se pelo segundo lugar. Disputar a segunda volta é um grande feito para um candidato de um partido que nasceu há pouco mais de seis anos. Já se autoproclamou líder da direita, e vai decerto passar estas três semanas a “berrar” pelos votos da direita. Já começou por dizer que Seguro representa o regresso de José Sócrates, António Costa e Eduardo Ferro Rodrigues. E como não acredito que nem a IL nem a AD lhe declarem apoio, não demorará muito a despir o fato de moderado que vestiu nas últimas duas semanas e a utilizar argumentos baixos na campanha eleitoral. Ou Luís Montenegro suaviza a sua governação, ou vai ter a vida muito difícil na Assembleia da República.
Gouveia e Melo partia como o favorito, numa corrida que se anunciava praticamente como decidida. Correu mal, bastante mal. Para quem se anunciava como “fora dos partidos”, tinha gente a mais dos partidos à sua volta.
Marques Mendes teve um resultado desastroso. Passou os últimos dez anos como comentador político nas noites de domingo, substituindo o anterior comentador, Marcelo Rebelo de Sousa. Desta vez a televisão não conseguiu produzir outro Presidente da República.
João Cotrim de Figueiredo fez uma campanha que espelha bem aquilo que o país gosta, confusão e mexerico. Lançou suspeitas sobre Marques Mendes, colocou-o à luta com Gouveia e Melo e saiu de fininho. Rodeado de jovens quase chegava à segunda volta, tropeçou na última semana quando achou que devia piscar o olho ao eleitorado do Chega e reclamar o apoio da AD, sugerindo a Luís Montenegro que apoiasse a sua candidatura. Este apelo ao voto útil acabou por ajudar ainda mais António José Seguro. Quando é necessário sacrificar os ideias e votar de forma útil, a esquerda nunca falha.
Por fim, Manuel João Vieira! O candidato que só desistia se ganhasse e que prometia vinho canalizado em todas as casas, obteve mais de sessenta mil votos ficando à frente do candidato oficial do Livre, Jorge Pinto. Foi destaque no jornal britânico The Gaurdian onde terminava dizendo “Se as pessoas querem apostar no absurdo, que apostem pelo menos no absurdo e no surrealismo dos seus sonhos e desejos. Isso é das coisas mais honestas que existem”.
Crónica publicada na edição 517 do Notícias de Coura, 27 de janeiro de 2026

