terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Segunda volta

Depois de mais de um ano de campanha eleitoral para as eleições presidenciais, vamos ter, tal como era previsível, mais três semanas de espera.

Quando em novembro de 2024 Pedro Nuno Santos afirmava que António José Seguro era “um grande quadro do Partido Socialista e que os militantes do PS tinham muito apreço por ele”, estava longe de imaginar que isso seria o gatilho que faria despertar nele a vontade de avançar. António José Seguro viu nas palavras do ex-líder do partido um “descuido” que não poderia deixar de aproveitar, mais do que vontade de ser Presidente da República, tinha a oportunidade de colocar o partido entre a espada e a parede, depois da maldade que António Costa lhe tinha feito em 2014. E se bem o pensou, melhor o fez. O PS tardou a declarar-lhe o apoio, ainda assim, acredito mesmo que muitos dos militantes fizeram já na primeira volta aquilo que os comunistas fizeram em 1986 com Mário Soares, taparam os olhos e colocaram a cruz em Seguro. E de repente, António José Seguro que se candidatou para fazer pirraça ao PS, vai ser Presidente da República. Embora sem ter feito uma campanha entusiasmante, foi de longe a mais séria e à altura daquilo que deve a postura do mais alto magistrado da nação.

André Ventura, aquele que aparecia como vencedor em quase todas as sondagens, fica-se pelo segundo lugar. Disputar a segunda volta é um grande feito para um candidato de um partido que nasceu há pouco mais de seis anos. Já se autoproclamou líder da direita, e vai decerto passar estas três semanas a “berrar” pelos votos da direita. Já começou por dizer que Seguro representa o regresso de José Sócrates, António Costa e Eduardo Ferro Rodrigues. E como não acredito que nem a IL nem a AD lhe declarem apoio, não demorará muito a despir o fato de moderado que vestiu nas últimas duas semanas e a utilizar argumentos baixos na campanha eleitoral. Ou Luís Montenegro suaviza a sua governação, ou vai ter a vida muito difícil na Assembleia da República.

Gouveia e Melo partia como o favorito, numa corrida que se anunciava praticamente como decidida. Correu mal, bastante mal. Para quem se anunciava como “fora dos partidos”, tinha gente a mais dos partidos à sua volta.

Marques Mendes teve um resultado desastroso. Passou os últimos dez anos como comentador político nas noites de domingo, substituindo o anterior comentador, Marcelo Rebelo de Sousa. Desta vez a televisão não conseguiu produzir outro Presidente da República.

João Cotrim de Figueiredo fez uma campanha que espelha bem aquilo que o país gosta, confusão e mexerico. Lançou suspeitas sobre Marques Mendes, colocou-o à luta com Gouveia e Melo e saiu de fininho. Rodeado de jovens quase chegava à segunda volta, tropeçou na última semana quando achou que devia piscar o olho ao eleitorado do Chega e reclamar o apoio da AD, sugerindo a Luís Montenegro que apoiasse a sua candidatura. Este apelo ao voto útil acabou por ajudar ainda mais António José Seguro. Quando é necessário sacrificar os ideias e votar de forma útil, a esquerda nunca falha.

Por fim, Manuel João Vieira! O candidato que só desistia se ganhasse e que prometia vinho canalizado em todas as casas, obteve mais de sessenta mil votos ficando à frente do candidato oficial do Livre, Jorge Pinto. Foi destaque no jornal britânico The Gaurdian onde terminava dizendo “Se as pessoas querem apostar no absurdo, que apostem pelo menos no absurdo e no surrealismo dos seus sonhos e desejos. Isso é das coisas mais honestas que existem”.


Crónica publicada na edição 517 do Notícias de Coura, 27 de janeiro de 2026



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Rescaldo de 2025

Chegou ao fim mais um ano. Nesta altura não é difícil arranjar tema para a minha crónica, basta selecionar meia dúzia de assuntos do ano que passou e tecer umas considerações genéricas. Podia também dedicar-me a enumerar alguns desejos ou previsões para o novo ano que agora começa, mas atualmente, já nem os habituais Zandigas* têm capacidade de adivinhar o que o futuro nos trará. Escrevo esta crónica na manhã do dia três de janeiro, acompanhando em direto em vários canais de notícias a intervenção militar dos EUA na Venezuela. Parece que Trump decidiu libertar a Venezuela do ditador Maduro. Esta sensibilidade americana já vem desde 1904, quando o Presidente Roosevelt declarava que os Estados Unidos tinham o direito de intervir nos países que tivessem “má conduta”, independentemente da sua soberania. Portugal nunca teria tido tantos anos de ditadura se estivesse localizado na América do Sul, os americanos tinham arrumado com o Salazar num instante. E se Portugal fosse rico em petróleo, então ainda teria sido mais rápido!

Vamos lá então a algumas das coisas que ficam do ano de 2025.

Trump tomou posse em janeiro. Disse que acabaria com a guerra na Ucrânia com um telefonema, não disse é que seria no primeiro telefonema. Já humilhou publicamente Volodymyr Zelensky , já recebeu Vladimir Putin com passadeira vermelha no Alasca, já enviou um comissário para a Gronelândia para tomar posse do território. É o efeito das terras raras, territórios ricos em minerais valiosos. É por elas que Trump quer a Gronelândia e Putin quer a Ucrânia. Obviamente que também pretendem proteger os seus territórios, Putin não quer estar cercado de países da Nato, Trump tem medo da cada vez maior importância da China no comércio mundial. Com tudo isto, a China segue alegremente o seu caminho! Quase parece o Salazar, que manteve Portugal neutro durante a Segunda Guerra Mundial, vendendo volfrâmio a ambas as partes.

Morreu o Papa Francisco. O Papa que veio do fim do mundo trouxe à igreja uma imagem de carinho, boa disposição e compaixão que não deixava ninguém indiferente, independentemente de religiões ou crenças, o seu bom humor e a sua humildade foram um exemplo inesquecível e marcante para a humanidade. Nunca me esqueço das palavras de Francisco a uma turista brasileira que lhe pedia para rezar por eles. Francisco ri e responde-lhe: “Vocês brasileiros não têm salvação, é muita cachaça e pouca oração!”

Boletins de voto confusos. Vamos ter eleições presidenciais em janeiro e ficámos a saber há uns dias que vão constar nos boletins de voto 14 candidatos, embora só onze tenham sido validados pelo Tribunal Constitucional. Diz a Comissão Nacional de Eleições que é um problema de prazos, não há tempo para imprimir novos boletins. Soube também agora que já em 2020 isto tinha acontecido. Nessa altura, Eduardo Batista também apareceu no boletim de voto embora só tenha conseguido 11 assinaturas. Imaginem só que se lembram desta brincadeira umas trinta ou quarenta pessoas!? Pode ser que desta vez a Assembleia da República se decida a legislar no sentido de impedir esta idiotices, dignas de um país do terceiro mundo. Se nada fizerem, e a saúde me permitir, em 2031 irão ver a minha cara nos boletins de voto!

Apagão em Portugal. Em abril Portugal ficou às escuras durante aproximadamente 10 horas. Os portugueses correram às lojas para comprar garrafões de água, as lanternas e os rádios portáteis esgotaram e muitas ruas encheram-se de crianças a brincar sem telemóveis. Sem Internet as pessoas viram-se obrigadas a fazer outras coisas, como ler, jogar às cartas e até falar umas com as outras! Foi inesquecível.

Gaza. É o genocídio do século XXI. Mais um acontecimento que devia envergonhar a raça humana. Sobre a postura de “quem acha que manda no mundo”, nem vale a pena comentar.

Um bom ano de 2026 a todos!



* Deixo esta nota às gerações mais jovens que podem nunca ter ouvido esta expressão. Zandinga foi um vidente que trabalhava para o F. C. Porto na década de 80, associado a ritos e superstições, dizia-se que enfeitiçava a relva para influenciar os jogadores, e fazia previsões que raramente se concretizavam.

Crónica publicada na edição 516 do Notícias de Coura, 13 de janeiro de 2026




terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Os polícias são maus.

No passado mês de novembro foram detidos dez militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) numa operação da Polícia Judiciária (PJ) contra o tráfico e a exploração de imigrantes nas zonas de Beja, Portalegre, Figueira da Foz e Porto. Nesta investigação está em causa a exploração de migrantes indostânicos em propriedades agrícolas. Os acusados são suspeitos de facilitarem a ação de um grupo criminoso que envolve os crimes de falsificação, auxílio à imigração ilegal, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Esta organização controla centenas de trabalhadores estrangeiros, a grande maioria em situação ilegal no sosso país. Aproveitando a sua vulnerabilidade, cobra-lhes alojamentos e alimentação e mantém-nos coagidos a trabalhar quase de graça através de ameaças. Os militares envolvidos são suspeitos de trabalharem como capatazes nessas explorações, vigiando e controlando os imigrantes. E pior, parece que estes militares faziam ver aos imigrantes que fazer queixa às autoridades não era uma alternativa.

Em junho de 2025 a PJ deteve seis pessoas suspeitas de integrar o Movimento Armilar Lusitano, um movimento que se pretendia constituir politicamente, mas apoiado numa milícia armada. Nesta operação foram apreendidas armas brancas, armas de fogo, munições de guerra e explosivos com origem militar, além de material com propaganda nazi. Um dos envolvidos é um elemento da PSP ao serviço da Polícia Municipal de Lisboa.

Em julho de 2025 o semanário Expresso publicou uma notícia onde dava conta de que o grupo 1143 liderado por Mário Machado estava a receber formação com armas reais, ministrada por ex-militares e militares ainda no ativo. O objetivo era estarem preparados para um cenário de guerra civil.

Em julho de 2021 os militares da GNR do posto de Vila Nova de Milfontes foram alertados para uma festa com centenas de jovens num parque de estacionamento, em violação das regras de distanciamento social do covid-19. Lá chegados, foram recebidos com cânticos de “fuck the police” e “filhos da puta” por parte de um jovem de 17 anos. Algemaram-no e assustaram-no, perguntando-lhe se sabia nadar com algemas. Depois libertaram-no e mandaram-no fugir. Obviamente que os militares foram condenados. Não vou escrever o que penso, mas gostava que este jovem fizesse o mesmo noutro país, por exemplo no Brasil.

Em dezembro de 2021 sete militares da GNR do posto de Odemira foram acusados de torturar, humilhar e proferir insultos racistas a migrantes oriundos do Bangladesh, do Paquistão e do Nepal. A pretexto de falsas operações stop, os militares filmaram-se a cometer estas humilhações, demonstrando satisfação e desprezo. Alguns deles, eram reincidentes neste tipo de comportamento.

Em agosto de 2025, dois polícias de Olhão foram acusados de homicídio. Após desacatos num supermercado detiveram dois homens marroquinos. Um deles sofreu um hematoma cerebral, teve de ser internado e morreu três semanas depois no Hospital de Faro.

Servem estes exemplos para provar o quê? Que os polícias são maus? Que abusam do seu poder? Obviamente que nestes casos concretos a resposta é óbvia: Sim, são maus. Estes em concreto são maus. E é por isso que muitos deles já foram julgados e condenados, e nalguns casos bem mais depressa e com mais severidade do que qualquer cidadão comum. (Mas isto é outra conversa, fica para outra crónica.)

Não podemos de forma nenhuma generalizar. Estas dezenas de militares não podem servir de exemplo para caraterizar os milhares que todos os dias trabalham pela segurança no país, pela nossa segurança. Generalizar é aquilo que fazem alguns políticos quando dizem que os ciganos são todos bandidos ou que os imigrantes só estão no nosso país para nos roubar os empregos e viver à custa do nosso dinheiro. Pessoas mal formadas existem em todas as categorias, etnias e grupos sociais. É como a fruta, se deixarmos uma maça podre no meio de um cesto de fruta em perfeitas condições, sabemos o que acontece.

Assim deve ser na vida. É nossa obrigação afastar as maças podres.

Crónica publicada na edição 515 do Notícias de Coura, 16 de dezembro de 2025




terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A justiça é cega.

A expressão a justiça é cega, “significa que o sistema de justiça deve ser imparcial, tratando todos de forma igual e sem distinções”. Essa imparcialidade é representada simbolicamente pela imagem de uma deusa com uma venda nos olhos. Trouxe este assunto à conversa por causa dos tristes acontecimentos que foram notícia há uns dias, relacionados com o julgamento do ex-Primeiro Ministro José Sócrates. Segundo o humorista Ricardo Araújo Pereira, o advogado de Sócrates, Pedro Delille conseguiu atrasar o processo mais uma hora. Como? Chegando ao tribunal com uma hora de atraso! Levou uma reprimenda da Senhora Doutora Juíza e pelos vistos não gostou, ficou tão zangado com a situação que resolveu deixar de defender o seu constituinte, ao fim de mais de dez anos. Sócrates deve ter pensado: “Só me faltava mais esta!” E como a Lei de Murphy nunca falha, o que já estava mal conseguiu ainda ficar pior. A Senhora Doutora Juíza não perdeu tempo, e vendo um arguido sem advogado, eis que lhe nomeia oficiosamente um advogado de serviço ao Tribunal. Calha a fava a José Manuel Ramos, um advogado invisual e que tem de ser amparado pela sua assessora para fazer se movimentar. Gostava de acreditar que a Senhora Doutora Juíza não sabia quem estava de serviço, porque se sabia foi uma malvadez aquilo que fez, sabia perfeitamente o “circo mediático” que é este julgamento, não havia necessidade de “atirar” este homem para o meio da arena. Pior terá sido se o fez para provocar José Sócrates. Quero acreditar que José Manuel Ramos estava no lugar errado à hora errada. Mas com todo o respeito, parece-me que a Senhora Doutora Juíza esteve ainda pior nos momentos seguintes, ao negar à defesa do arguido um prazo de quarenta e oito horas para se colocar a par do processo. Nem que fosse o super-homem, José Manuel Ramos conseguiria conhecer em dois dias um processo com mais de cinquenta mil páginas e treze milhões de ficheiros informáticos. Acabou por dar mais alguns motivos para José Sócrates se lamentar e se vitimizar, e temos de lhe dar alguma razão, é a lei que estabelece um prazo para que ele apresente um novo advogado. (Obviamente que com isto atrasa ainda mais o julgamento, mas perder um advogado depois de dez anos não me parece que traga grandes vantagens.)

Com tudo isto, ganharam os humoristas algum material para fazer piadas, piadas também eu imaginei desde logo, mas que não pude partilhar, não sendo humorista de profissão podia ser acusado de falta de respeito para com uma pessoa invisual. Como simples cronista posso pelo menos afirmar que José Sócrates continua com uma postura arrogante, pelo que o próprio advogado disse, tentou falar com José Sócrates, mas não foi fácil. Obviamente que Sócrates, do alto da sua sapiência, apressou-se a dizer que “Era só o que faltava a Senhora Doutora Juíza escolher-me um advogado!” Era de bom tom dirigir-se a José Manuel Ramos, agradecer-lhe a disponibilidade e informar que iria escolher outro advogado. Mas se assim fosse não seria Sócrates, petulante como sempre, falando de uma forma que parece que somos todos burros e inferiores. O que se seguirá!? Nem Shakespeare seria capaz de inventar uma novela com tantas voltas e reviravoltas. Este julgamento arrisca-se a durar tanto tempo que todos os factos prescrevem e o Estado Português é condenado a pagar uma indemnização ao arguido, ou demora ainda mais tempo e o caso extingue-se pelo desaparecimento do arguido. Talvez aconteça o mesmo no julgamento de Ricardo Salgado. Aconteceu uma coisa parecida no caso João Rendeiro.

Será que vamos ter de dizer que o Brasil é que é um exemplo para o mundo? Lula da Silva esteve mesmo preso depois de ser Presidente. E hoje é Presidente! Bem… por cá também Isaltino Morais esteve preso depois de ser Presidente de Câmara e hoje é-o novamente. Há uns dias Bolsonaro foi preso pois esteve a brincar com um ferro de soldar na pulseira eletrónica!

Ainda bem que a justiça é cega, se visse tudo era bem capaz de pedir uma corda para se enforcar.

Crónica publicada na edição 514 do Notícias de Coura, 2 de dezembro de 2025 





segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Vai para a tua terra.

Nasci em Angola uns meses depois da revolução de abril de 1974. Fiz, juntamente com os meus Pais, parte dos milhares de retornados que tiveram de voltar à metrópole. Como nasci branco, nunca ninguém me mandou para a minha terra.

Esta crónica, escrita ainda antes da anterior ser publicada, vem da minha necessidade de exteriorizar a minha revolta e indignação contra certa gente que não merece o mínimo de consideração nem respeito. Há uns dias, na Assembleia da República, a deputada do PS Eva Cruzeiro acusava o Chega de ser um partido racista. Zangados por terem de ouvir algumas verdades, os deputados do Chega começaram a berrar*, e como é normal, nos momentos de mais tensão e nervosismo as pessoas mostram aquilo que verdadeiramente são, não é, portanto, de admirar que o deputado Filipe Melo tenha gritado: “Vai para a tua terra.” Obviamente que o fez porque Eva Cruzeiro não é branca. Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega, insurge-se por ser chamado de racista e na sua intervenção chama vigaristas aos deputados do PS. Se dúvidas houvesse que o Chega é um partido racista, este é um exemplo claro do tipo de gente que se senta na Assembleia da República. Legitimamente eleitos é certo, o que só prova que em Portugal há racismo, e não é pouco. O crescimento da votação no Chega e a popularidade do seu líder são a prova disso, aquilo que as pessoas conhecem das propostas do Chega é que “vão cortar os subsídios aos ciganos, vão correr com os pretos e com os indianos prá terra deles”. Isto ouvi eu, ninguém me contou, várias vezes, em cafés, na rua e até na escola. Até a alguns alunos brasileiros que falam do Ventura como a salvação, só porque ele não gosta dos ciganos e dos Indianos. E eles, alguns até com os documentos de permanência em Portugal expirados, ficam admirados quando lhes digo: “Fazes muito bem, defende-o com unhas e dentes, mas vai preparando as malas porque se ele chega ao poder, vais de volta num contentor.” (Este é o meu lado irónico, os alunos percebem e até gostam de ouvir estas verdades.) Gostava muito de combater o Chega falando das suas ideias para a economia, a educação, a saúde, a justiça e outras áreas, mas não é fácil!

O mais lamentável de tudo, é que isto se passe na casa da democracia, e por culpa da falta de coragem do seu presidente, José Pedro Aguiar Branco, de impor limites à linguagem desta gente. Quem conduz os trabalhos na Assembleia da República tem o poder e o dever de fazer cumprir o seu regimento, que é claro quando diz que “O Presidente pode retirar a palavra a um orador que se torne injurioso ou ofensivo”. Infelizmente, o conceito de liberdade de expressão de Aguiar Branco aceita o desrespeito e a má educação como uma coisa normal. Nunca pensei escrever isto, mas já começo a ter saudades de Augusto Santos Silva.

Aconteceu também há dois ou três dias: uma grávida que tinha vindo da Guiné-Bissau, e não foi acompanhada no Serviço Nacional de Saúde durante a gravidez, faleceu. Um dia depois o bebé também perdeu a vida. André Ventura, não tem o mínimo de vergonha na cara para usar o caso e pedir a demissão da Ministra da Saúde. Se tudo tivesse corrido bem e a senhora estivesse à porta da Segurança Social, André Ventura mandava-a para a terra dela, e acusava-a de só ter vindo para Portugal para dar à luz e gastar o dinheiro dos portugueses. Assim, até nem se importa com a sua cor e finge lamentar a situação.

Vou fazer um esforço para deixar de escrever sobre este partido, se por um lado sei que lhe estou a dar palco e atenção, por outro, é difícil deixar de exprimir indignação perante tais comportamentos. Está feito o desabafo. Está escrita a crónica uma semana antes do prazo. O que dá imenso jeito, sabem porquê? No próximo fim-de-semana vou para a minha terra!

* "Berrar" significa gritar ou falar muito alto, muitas vezes com raiva ou intensidade. Deixo esta nota não vá alguém sentir-se ofendido e pensar que eu estou a fazer alguma alusão à frase “Quem berra são as cabras.”


Crónica publicada na edição 513 do Notícias de Coura, 18 de novembro de 2025




terça-feira, 11 de novembro de 2025

Chega, Burca e Benfica

Escrevi a última crónica antes do dia das eleições legislativas. Tal como referi na mesma, só me preocupavam os resultados de três freguesias, e em todas elas as minhas previsões se comprovaram. Foi mesmo por distração que me esqueci de mencionar o município onde trabalho, o Montijo. Na noite das eleições estava apenas preocupado com o resultado de uma Junta de Freguesia, onde o candidato por um Movimento Independente era (é) meu colega de trabalho e no qual deposito grande confiança. É um jovem cheio de vontade de trabalhar e com uma capacidade de iniciativa, nomeadamente através do associativismo, que nunca vi em lado algum. Embora me tenha lembrado ao final da tarde e enviado uma mensagem de boa sorte na contagem dos votos, só me voltei a lembrar do Montijo quando lá para as onze da noite, oiço o Ricardo Costa na SIC Notícias dizer que o “o Montijo está prestes a virar para o Chega.” Passou-me imediatamente o sono, entre mensagens e consultas a sites e a várias redes sociais, só me fui deitar às tantas, quando a contagem acabou e o Montijo permanecia em mãos democratas. Não estranho o facto de o Chega ter muita votação, o que eu acho incompreensível é que muitos dos seus apoiantes, e alguns nem sequer votam, são imigrantes, aqueles que o partido de André Ventura diz serem necessários para trabalhar e que são bem-vindos se vierem por bem, mas que faz tudo para lhes fechar a porta e se possível, despachá-los de volta ao seu país. (Eu também considero há muito que tem de haver limites à entrada de estrangeiros, e acima de tudo não permitir que vivam em condições desumanas, mas alinhar no discurso da extrema-direita é inaceitável).

A proibição da burca, e outros disfarces parecidos, já há muito deveria estar legislada no nosso país, não havia necessidade de esperar tanto tempo para agora dar o mérito da medida ao partido Chega. Mais do que uma veste religiosa, a burca é, tal como uma máscara de Carnaval, uma forma de ocultação do rosto, colocando em causa a segurança e identificação do seu portador em locais públicos. Irrita-me ouvir na televisão algumas mulheres afirmarem que essa proibição é uma limitação da sua liberdade, não será maior limitação a sua obrigatoriedade, proibindo-lhes mostrar o rosto? (na verdade elas andam de burca por obrigação, não por vontade). Imaginem só que uma mulher, fazendo valer o seu direito de usar a burca, vai assim vestida fazer o exame de condução, ou até um exame de acesso à Universidade. Será mesmo ela que está por detrás das vestes!? Quando visitam determinados países as mulheres europeias têm de tapar o cabelo, se temos de respeitar os costumes desses países, é justo que também respeitem os nossos. Obviamente que o partido Chega, à boleia da burca e da ideia de garantir a segurança, quer é fazer um ataque a determinados povos. O Chega continuará a fazer aquilo que os eleitores lhe permitirem. (A democracia tem destas coisas). Aliás, é pelo facto de a democracia ser o que é, que André Ventura tem o direito de dizer que “eram necessários 3 Salazares neste país”, tivesse ele sofrido o que muitos portugueses sofreram, não seria tão saudosista. Gente com a idade de André Ventura só fala com saudade dos tempos da ditadura se for esse o regime que ambiciona para o futuro.

A primeira volta das eleições do Benfica bateu o recorde mundial de número de votantes, foram mais de oitenta e cinco mil sócios que exerceram o seu direito! Segundo uma notícia do observador, “o Benfica teve mais votantes do que 98% dos municípios na autárquicas”! Para aqueles que ainda têm a ousadia, ou desfaçatez, de questionar a grandeza do Benfica, esta é mais uma prova da grandeza do clube, e mais uma prova de que no nosso país, o futebol interessa muito mais ao povo que a política. Os portugueses esperam horas na fila para votar no Benfica, esperam horas para entrar para um concerto musical, para um último adeus a uma figura conhecida e também para uma celebração religiosa. Quantos de nós esperariam três ou quatro horas para votar numas eleições legislativas? (Preparava-me para dizer que eu não, mas depois lembrei-me que já em tempos fiz mais de 500km para votar em José Sócrates!)

Crónica publicada na edição 512 do Notícias de Coura, 4 de novembro de 2025






segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Políticos inúteis.

Não posso deixar de pedir desde já desculpa aos políticos que ficaram indignados com o título desta crónica, e são em grande número uma vez que este é um jornal de Coura, uma terra que me permitiu conhecer alguns que me fizeram ter a certeza de que de facto “os políticos não são todos iguais”. Ao mesmo tempo, este é um título que agarra logo nos leitores, há tanta gente que adora falar mal dos políticos que por momentos se esquecem que são eles que os elegem (eles não, nós, pois também eu já ajudei a eleger alguns que não o mereciam).

Esta crónica vai ser publicada uma semana depois das eleições autárquicas, mas está a ser escrita uns dias antes, pelo que as minhas palavras não terão qualquer influência na intenção de voto de ninguém. Além do mais, o resultado destas eleições só me interessa em duas ou três freguesias: Vilarandelo, em Trás-os-Montes, onde espero que a junta se mantenha entregue a quem tratou de arranjar o caminho para a casa dos meus Pais; Samouco, onde resido, e onde o atual elenco camarário tem alcatroado muitas das estradas que uso, inclusive até à minha porta, e apesar de estar zangado com o partido em termo nacionais, votarei certamente de forma útil, também para ajudar a que determinado partido de extrema-direita não pense que é maior do que aquilo que infelizmente já é; e depois Coura, onde naturalmente a autarquia continuará muito bem entregue, na talvez única autarquia nacional que tem a ousadia de estabelecer como prioridades a educação e a cultura.

Introdução feita, está na hora de bater nalguns políticos, daqueles que me apetece incluir no grupo de “gente que não interessa”!

Mariana Mortágua, líder do Bloco de Esquerda e deputada única do partido, embarcou numa flotilha humanitária a caminho de Gaza. A acreditar nas intenções da mesma, o objetiva é levar ajuda humanitária, alimentos, medicamentos e outros bens essenciais. Afirmam também querer chamar a atenção do mundo para o genocídio que se está a viver na Palestina. Não é necessária nenhuma flotilha para tudo isto, eu até louvo a intenção, mas é óbvio que o que procuram é mediatismo e tempo de antena. Todo o mundo sabe que o ataque do Hamas a Israel a 7 de outubro é inqualificável; todo o mundo sabe que o Hamas é um grupo terrorista que usa o povo como escudo e que é urgente eliminar; todo o mundo sabe que por mais que haja acordos de paz, o Hamas nunca vai deixar de existir e lutar pela sua pátria (embora o faça de forma deplorável); mas também todo o mundo sabe, ou devia saber, que o ataque do Hamas serviu de pretexto a Israel para tentar acabar de vez com a Palestina, para tentar ocupar definitivamente uma terra que nunca lhe pertenceu.

Embora Mariana Mortágua não mereça grandes aplausos pela atitude, Nuno Melo, Ministro da Defesa, merece ainda menos pelas declarações proferidas sobre a mesma. Mesmo tendo alguma razão quando diz que foi um gesto panfletário, é absurdo dizer que os ativistas foram em direção à Faixa de Gaza para defender um grupo terrorista e que ele prefere estar ao lado da democracia e da liberdade. É triste saber que um ministro de Portugal está ao lado de Israel, na sua demanda pela ocupação total definitiva da palestina e pela eliminação do seu povo, pois é isso que Israel sempre pretendeu. Não nos devemos surpreender, este é o ministro que afirmou há tempos que “Olivença é nossa.” Nas palavras de um comentador, “Isto é Nuno Melo, a ser Nuno Melo.” É o preço que o PSD paga pela formação da AD, e por ter de dar uns lugares de destaque ao CDS-PP.

Para terminar, não posso deixar de aproveitar a atribuição do prémio Nobel da Paz à líder da oposição da Venezuela, Maria Corina Machado, para trazer à crónica o político mais inútil de todos os tempos. Donald Trump passou semanas a afirmar que o prémio teria de lhe ser atribuído, que só ele o merecia pois já teria acabado com inúmeras guerras. Consegue ser ainda mais ridículo quando afirma que Corina Machado lhe ligou a dizer que aceita o prémio em sua homenagem. Mas será que não há ninguém com coragem suficiente para chamar mentiroso a Donald Trump?

Crónica publicada na edição 511 do Notícias de Coura, 21 de outubro de 2025