terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Os polícias são maus.

No passado mês de novembro foram detidos dez militares da Guarda Nacional Republicana (GNR) numa operação da Polícia Judiciária (PJ) contra o tráfico e a exploração de imigrantes nas zonas de Beja, Portalegre, Figueira da Foz e Porto. Nesta investigação está em causa a exploração de migrantes indostânicos em propriedades agrícolas. Os acusados são suspeitos de facilitarem a ação de um grupo criminoso que envolve os crimes de falsificação, auxílio à imigração ilegal, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Esta organização controla centenas de trabalhadores estrangeiros, a grande maioria em situação ilegal no sosso país. Aproveitando a sua vulnerabilidade, cobra-lhes alojamentos e alimentação e mantém-nos coagidos a trabalhar quase de graça através de ameaças. Os militares envolvidos são suspeitos de trabalharem como capatazes nessas explorações, vigiando e controlando os imigrantes. E pior, parece que estes militares faziam ver aos imigrantes que fazer queixa às autoridades não era uma alternativa.

Em junho de 2025 a PJ deteve seis pessoas suspeitas de integrar o Movimento Armilar Lusitano, um movimento que se pretendia constituir politicamente, mas apoiado numa milícia armada. Nesta operação foram apreendidas armas brancas, armas de fogo, munições de guerra e explosivos com origem militar, além de material com propaganda nazi. Um dos envolvidos é um elemento da PSP ao serviço da Polícia Municipal de Lisboa.

Em julho de 2025 o semanário Expresso publicou uma notícia onde dava conta de que o grupo 1143 liderado por Mário Machado estava a receber formação com armas reais, ministrada por ex-militares e militares ainda no ativo. O objetivo era estarem preparados para um cenário de guerra civil.

Em julho de 2021 os militares da GNR do posto de Vila Nova de Milfontes foram alertados para uma festa com centenas de jovens num parque de estacionamento, em violação das regras de distanciamento social do covid-19. Lá chegados, foram recebidos com cânticos de “fuck the police” e “filhos da puta” por parte de um jovem de 17 anos. Algemaram-no e assustaram-no, perguntando-lhe se sabia nadar com algemas. Depois libertaram-no e mandaram-no fugir. Obviamente que os militares foram condenados. Não vou escrever o que penso, mas gostava que este jovem fizesse o mesmo noutro país, por exemplo no Brasil.

Em dezembro de 2021 sete militares da GNR do posto de Odemira foram acusados de torturar, humilhar e proferir insultos racistas a migrantes oriundos do Bangladesh, do Paquistão e do Nepal. A pretexto de falsas operações stop, os militares filmaram-se a cometer estas humilhações, demonstrando satisfação e desprezo. Alguns deles, eram reincidentes neste tipo de comportamento.

Em agosto de 2025, dois polícias de Olhão foram acusados de homicídio. Após desacatos num supermercado detiveram dois homens marroquinos. Um deles sofreu um hematoma cerebral, teve de ser internado e morreu três semanas depois no Hospital de Faro.

Servem estes exemplos para provar o quê? Que os polícias são maus? Que abusam do seu poder? Obviamente que nestes casos concretos a resposta é óbvia: Sim, são maus. Estes em concreto são maus. E é por isso que muitos deles já foram julgados e condenados, e nalguns casos bem mais depressa e com mais severidade do que qualquer cidadão comum. (Mas isto é outra conversa, fica para outra crónica.)

Não podemos de forma nenhuma generalizar. Estas dezenas de militares não podem servir de exemplo para caraterizar os milhares que todos os dias trabalham pela segurança no país, pela nossa segurança. Generalizar é aquilo que fazem alguns políticos quando dizem que os ciganos são todos bandidos ou que os imigrantes só estão no nosso país para nos roubar os empregos e viver à custa do nosso dinheiro. Pessoas mal formadas existem em todas as categorias, etnias e grupos sociais. É como a fruta, se deixarmos uma maça podre no meio de um cesto de fruta em perfeitas condições, sabemos o que acontece.

Assim deve ser na vida. É nossa obrigação afastar as maças podres.

Crónica publicada na edição 515 do Notícias de Coura, 16 de dezembro de 2025




terça-feira, 9 de dezembro de 2025

A justiça é cega.

A expressão a justiça é cega, “significa que o sistema de justiça deve ser imparcial, tratando todos de forma igual e sem distinções”. Essa imparcialidade é representada simbolicamente pela imagem de uma deusa com uma venda nos olhos. Trouxe este assunto à conversa por causa dos tristes acontecimentos que foram notícia há uns dias, relacionados com o julgamento do ex-Primeiro Ministro José Sócrates. Segundo o humorista Ricardo Araújo Pereira, o advogado de Sócrates, Pedro Delille conseguiu atrasar o processo mais uma hora. Como? Chegando ao tribunal com uma hora de atraso! Levou uma reprimenda da Senhora Doutora Juíza e pelos vistos não gostou, ficou tão zangado com a situação que resolveu deixar de defender o seu constituinte, ao fim de mais de dez anos. Sócrates deve ter pensado: “Só me faltava mais esta!” E como a Lei de Murphy nunca falha, o que já estava mal conseguiu ainda ficar pior. A Senhora Doutora Juíza não perdeu tempo, e vendo um arguido sem advogado, eis que lhe nomeia oficiosamente um advogado de serviço ao Tribunal. Calha a fava a José Manuel Ramos, um advogado invisual e que tem de ser amparado pela sua assessora para fazer se movimentar. Gostava de acreditar que a Senhora Doutora Juíza não sabia quem estava de serviço, porque se sabia foi uma malvadez aquilo que fez, sabia perfeitamente o “circo mediático” que é este julgamento, não havia necessidade de “atirar” este homem para o meio da arena. Pior terá sido se o fez para provocar José Sócrates. Quero acreditar que José Manuel Ramos estava no lugar errado à hora errada. Mas com todo o respeito, parece-me que a Senhora Doutora Juíza esteve ainda pior nos momentos seguintes, ao negar à defesa do arguido um prazo de quarenta e oito horas para se colocar a par do processo. Nem que fosse o super-homem, José Manuel Ramos conseguiria conhecer em dois dias um processo com mais de cinquenta mil páginas e treze milhões de ficheiros informáticos. Acabou por dar mais alguns motivos para José Sócrates se lamentar e se vitimizar, e temos de lhe dar alguma razão, é a lei que estabelece um prazo para que ele apresente um novo advogado. (Obviamente que com isto atrasa ainda mais o julgamento, mas perder um advogado depois de dez anos não me parece que traga grandes vantagens.)

Com tudo isto, ganharam os humoristas algum material para fazer piadas, piadas também eu imaginei desde logo, mas que não pude partilhar, não sendo humorista de profissão podia ser acusado de falta de respeito para com uma pessoa invisual. Como simples cronista posso pelo menos afirmar que José Sócrates continua com uma postura arrogante, pelo que o próprio advogado disse, tentou falar com José Sócrates, mas não foi fácil. Obviamente que Sócrates, do alto da sua sapiência, apressou-se a dizer que “Era só o que faltava a Senhora Doutora Juíza escolher-me um advogado!” Era de bom tom dirigir-se a José Manuel Ramos, agradecer-lhe a disponibilidade e informar que iria escolher outro advogado. Mas se assim fosse não seria Sócrates, petulante como sempre, falando de uma forma que parece que somos todos burros e inferiores. O que se seguirá!? Nem Shakespeare seria capaz de inventar uma novela com tantas voltas e reviravoltas. Este julgamento arrisca-se a durar tanto tempo que todos os factos prescrevem e o Estado Português é condenado a pagar uma indemnização ao arguido, ou demora ainda mais tempo e o caso extingue-se pelo desaparecimento do arguido. Talvez aconteça o mesmo no julgamento de Ricardo Salgado. Aconteceu uma coisa parecida no caso João Rendeiro.

Será que vamos ter de dizer que o Brasil é que é um exemplo para o mundo? Lula da Silva esteve mesmo preso depois de ser Presidente. E hoje é Presidente! Bem… por cá também Isaltino Morais esteve preso depois de ser Presidente de Câmara e hoje é-o novamente. Há uns dias Bolsonaro foi preso pois esteve a brincar com um ferro de soldar na pulseira eletrónica!

Ainda bem que a justiça é cega, se visse tudo era bem capaz de pedir uma corda para se enforcar.

Crónica publicada na edição 514 do Notícias de Coura, 2 de dezembro de 2025