terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

E para enfermeira? Será que dá?

Vem este título a propósito das avaliações de alguns alunos que estão agora no 10.º ano e chegam ao final do 1.º semestre com seis valores a Matemática, Biologia e Físico-Química. Terem escolhido a área de Ciências e Tecnologias parece ter sido uma má aposta. Uma das crianças, alertada por uma Professora para a gravidade da situação, desabafou que escolheu esta área pois queria ser Médica. “Assim nunca vais conseguir”, explicou a Professora fazendo-lhe notar que estas disciplinas são as específicas, as essenciais para Medicina, pois serão provavelmente aquelas cujas notas de exame serão decisivas para a determinação da média necessária para Medicina. Triste e pensativa terá questionado: “E para enfermeira Stôra? Será que dá?”

Não se trata aqui de uma menorização da profissão, naturalmente que a área da saúde é por certo aquela que lhe agrada, ou então aquela que os Pais acham que ela deve seguir. Mas que isto acontece é certo, quando não entram em Medicina alguns alunos tentam Medicina Veterinária, ou Medicina Dentária, ou Enfermagem. São escolhas, infelizmente não devia ser assim. Ainda me lembro bem de ver uma aluna brilhante que tive em Coura chegar ao final do 12.º ano com uma média de 18 ou 19 e a escolha dela ser Direito! Pois se era o que ela ambicionava, qual a admiração? Dizia um colega meu na altura: “Um desperdício, ter esta média e não ir para Medicina!” Uma idiotice respondi-lhe eu. Desperdício é o curso de Medicina não ter tantas vagas quantos médicos precisamos e pior ainda, quantos alunos se calhar davam excelentes médicos e por uma ou duas décimas não o são. Idiotice é serem muitas vezes os Pais a pressionar os excelentes alunos a ir para Medicina. Têm o futuro garantido é certo, um curso longo e muito trabalhoso, mas boas oportunidades de carreira. Mas valerá a pena tamanho esforço? Especialmente se essa não for a sua vocação?

Não me canso de partilhar com alguns dos meus alunos a minha própria experiência. Licenciei-me em Gestão e nunca pensei nessa altura vir a ser professor. Cheguei mesmo a dizer que “Era o que faltava ir aturar crianças!” Mas o futuro quis que assim acontecesse, e depois de terminar o primeiro dia como professor senti que era aquilo que gostava e que queria fazer o resto da vida. Não foi um percurso fácil. Entre horários incompletos, dois anos (inesquecíveis) a trabalhar nos Açores, o desespero dos miniconcursos do mês de setembro sem nunca saber onde seria colocado, a tristeza de ir para a fila do Centro de Emprego, a esperança só surgiu quando resolvi tirar outra licenciatura para estabilizar em definitivo.

Muitos dos atuais Professores não sabem o que isso é, quantos e quantos ficam efetivos logo no primeiro ano em que concorrem. E ainda bem! Podem passar as férias descansados pois em setembro têm emprego. (Embora circulem pelas redes sociais algumas notícias alarmantes sobre a estabilidade do corpo docente!)

Aprendi na Universidade que há algumas áreas onde o emprego é garantido, a alimentação, pois todos temos de comer e beber, a saúde, todos nós temos de fazer exames e tomar medicamentos ao longo da vida, e a morte, pois até à data dela ninguém se livrou. Ser professor é também atualmente uma boa aposta, a classe docente está envelhecida de tal forma, que nos próximos cinco anos irão para a reforma mais de vinte mil professores. Não se tem um ordenado deslumbrante e, dependendo da escola, viverão inundados em papéis, terão de se irritar algumas vezes com a indisciplina e mais tarde ou mais cedo irão aprender que o importante é o sucesso educativo (isto é, os alunos não reprovarem, aprenderem fica para segundo plano). Se se arrependerem pensem duas vezes antes de abandonar a carreira, é que a experiência de Professor só serve mesmo para dar aulas ou explicações, nada mais! Não acreditem quando virem notícias de que cada vez mais Professores pensam em abandonar a carreira, ando cá desde 1998 e só me lembro de um caso. A malta fala mal disto, mas ninguém se vai embora!


Crónica publicada na edição 518 do Notícias de Coura, 10 de fevereiro de 2026





terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Segunda volta

Depois de mais de um ano de campanha eleitoral para as eleições presidenciais, vamos ter, tal como era previsível, mais três semanas de espera.

Quando em novembro de 2024 Pedro Nuno Santos afirmava que António José Seguro era “um grande quadro do Partido Socialista e que os militantes do PS tinham muito apreço por ele”, estava longe de imaginar que isso seria o gatilho que faria despertar nele a vontade de avançar. António José Seguro viu nas palavras do ex-líder do partido um “descuido” que não poderia deixar de aproveitar, mais do que vontade de ser Presidente da República, tinha a oportunidade de colocar o partido entre a espada e a parede, depois da maldade que António Costa lhe tinha feito em 2014. E se bem o pensou, melhor o fez. O PS tardou a declarar-lhe o apoio, ainda assim, acredito mesmo que muitos dos militantes fizeram já na primeira volta aquilo que os comunistas fizeram em 1986 com Mário Soares, taparam os olhos e colocaram a cruz em Seguro. E de repente, António José Seguro que se candidatou para fazer pirraça ao PS, vai ser Presidente da República. Embora sem ter feito uma campanha entusiasmante, foi de longe a mais séria e à altura daquilo que deve a postura do mais alto magistrado da nação.

André Ventura, aquele que aparecia como vencedor em quase todas as sondagens, fica-se pelo segundo lugar. Disputar a segunda volta é um grande feito para um candidato de um partido que nasceu há pouco mais de seis anos. Já se autoproclamou líder da direita, e vai decerto passar estas três semanas a “berrar” pelos votos da direita. Já começou por dizer que Seguro representa o regresso de José Sócrates, António Costa e Eduardo Ferro Rodrigues. E como não acredito que nem a IL nem a AD lhe declarem apoio, não demorará muito a despir o fato de moderado que vestiu nas últimas duas semanas e a utilizar argumentos baixos na campanha eleitoral. Ou Luís Montenegro suaviza a sua governação, ou vai ter a vida muito difícil na Assembleia da República.

Gouveia e Melo partia como o favorito, numa corrida que se anunciava praticamente como decidida. Correu mal, bastante mal. Para quem se anunciava como “fora dos partidos”, tinha gente a mais dos partidos à sua volta.

Marques Mendes teve um resultado desastroso. Passou os últimos dez anos como comentador político nas noites de domingo, substituindo o anterior comentador, Marcelo Rebelo de Sousa. Desta vez a televisão não conseguiu produzir outro Presidente da República.

João Cotrim de Figueiredo fez uma campanha que espelha bem aquilo que o país gosta, confusão e mexerico. Lançou suspeitas sobre Marques Mendes, colocou-o à luta com Gouveia e Melo e saiu de fininho. Rodeado de jovens quase chegava à segunda volta, tropeçou na última semana quando achou que devia piscar o olho ao eleitorado do Chega e reclamar o apoio da AD, sugerindo a Luís Montenegro que apoiasse a sua candidatura. Este apelo ao voto útil acabou por ajudar ainda mais António José Seguro. Quando é necessário sacrificar os ideias e votar de forma útil, a esquerda nunca falha.

Por fim, Manuel João Vieira! O candidato que só desistia se ganhasse e que prometia vinho canalizado em todas as casas, obteve mais de sessenta mil votos ficando à frente do candidato oficial do Livre, Jorge Pinto. Foi destaque no jornal britânico The Gaurdian onde terminava dizendo “Se as pessoas querem apostar no absurdo, que apostem pelo menos no absurdo e no surrealismo dos seus sonhos e desejos. Isso é das coisas mais honestas que existem”.


Crónica publicada na edição 517 do Notícias de Coura, 27 de janeiro de 2026