segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Rescaldo de 2025

Chegou ao fim mais um ano. Nesta altura não é difícil arranjar tema para a minha crónica, basta selecionar meia dúzia de assuntos do ano que passou e tecer umas considerações genéricas. Podia também dedicar-me a enumerar alguns desejos ou previsões para o novo ano que agora começa, mas atualmente, já nem os habituais Zandigas* têm capacidade de adivinhar o que o futuro nos trará. Escrevo esta crónica na manhã do dia três de janeiro, acompanhando em direto em vários canais de notícias a intervenção militar dos EUA na Venezuela. Parece que Trump decidiu libertar a Venezuela do ditador Maduro. Esta sensibilidade americana já vem desde 1904, quando o Presidente Roosevelt declarava que os Estados Unidos tinham o direito de intervir nos países que tivessem “má conduta”, independentemente da sua soberania. Portugal nunca teria tido tantos anos de ditadura se estivesse localizado na América do Sul, os americanos tinham arrumado com o Salazar num instante. E se Portugal fosse rico em petróleo, então ainda teria sido mais rápido!

Vamos lá então a algumas das coisas que ficam do ano de 2025.

Trump tomou posse em janeiro. Disse que acabaria com a guerra na Ucrânia com um telefonema, não disse é que seria no primeiro telefonema. Já humilhou publicamente Volodymyr Zelensky , já recebeu Vladimir Putin com passadeira vermelha no Alasca, já enviou um comissário para a Gronelândia para tomar posse do território. É o efeito das terras raras, territórios ricos em minerais valiosos. É por elas que Trump quer a Gronelândia e Putin quer a Ucrânia. Obviamente que também pretendem proteger os seus territórios, Putin não quer estar cercado de países da Nato, Trump tem medo da cada vez maior importância da China no comércio mundial. Com tudo isto, a China segue alegremente o seu caminho! Quase parece o Salazar, que manteve Portugal neutro durante a Segunda Guerra Mundial, vendendo volfrâmio a ambas as partes.

Morreu o Papa Francisco. O Papa que veio do fim do mundo trouxe à igreja uma imagem de carinho, boa disposição e compaixão que não deixava ninguém indiferente, independentemente de religiões ou crenças, o seu bom humor e a sua humildade foram um exemplo inesquecível e marcante para a humanidade. Nunca me esqueço das palavras de Francisco a uma turista brasileira que lhe pedia para rezar por eles. Francisco ri e responde-lhe: “Vocês brasileiros não têm salvação, é muita cachaça e pouca oração!”

Boletins de voto confusos. Vamos ter eleições presidenciais em janeiro e ficámos a saber há uns dias que vão constar nos boletins de voto 14 candidatos, embora só onze tenham sido validados pelo Tribunal Constitucional. Diz a Comissão Nacional de Eleições que é um problema de prazos, não há tempo para imprimir novos boletins. Soube também agora que já em 2020 isto tinha acontecido. Nessa altura, Eduardo Batista também apareceu no boletim de voto embora só tenha conseguido 11 assinaturas. Imaginem só que se lembram desta brincadeira umas trinta ou quarenta pessoas!? Pode ser que desta vez a Assembleia da República se decida a legislar no sentido de impedir esta idiotices, dignas de um país do terceiro mundo. Se nada fizerem, e a saúde me permitir, em 2031 irão ver a minha cara nos boletins de voto!

Apagão em Portugal. Em abril Portugal ficou às escuras durante aproximadamente 10 horas. Os portugueses correram às lojas para comprar garrafões de água, as lanternas e os rádios portáteis esgotaram e muitas ruas encheram-se de crianças a brincar sem telemóveis. Sem Internet as pessoas viram-se obrigadas a fazer outras coisas, como ler, jogar às cartas e até falar umas com as outras! Foi inesquecível.

Gaza. É o genocídio do século XXI. Mais um acontecimento que devia envergonhar a raça humana. Sobre a postura de “quem acha que manda no mundo”, nem vale a pena comentar.

Um bom ano de 2026 a todos!



* Deixo esta nota às gerações mais jovens que podem nunca ter ouvido esta expressão. Zandinga foi um vidente que trabalhava para o F. C. Porto na década de 80, associado a ritos e superstições, dizia-se que enfeitiçava a relva para influenciar os jogadores, e fazia previsões que raramente se concretizavam.

Crónica publicada na edição 516 do Notícias de Coura, 13 de janeiro de 2026