E de repente, os Estados Unidos da América decidem começar mais uma guerra. Bombardear uma escola no sul do Irão e matar dezenas de estudantes parece ter sido a melhor opção para lutar contra um regime que, segundo Donald Trump, é um perigo nuclear para a América. Alguém devia lembrar o presidente americano que a Coreia do Norte também é uma potência nuclear e a distância para os Estados Unidos até chega a ser menor que para o Irão. Bombardear uma escola pode ter a justificação de ser um dos locais onde se escondem os túneis de acesso do Hamas, esse perigoso grupo terrorista tão ameaçador para a América. Acho que estou a fazer confusão, o Hamas é aquele grupo que ameaça o Estado-amigo da América, Israel, cujo líder, Benjamim Netanyahu, já afirmou que este ataque visa travar o “regime de terror” do Irão, e garante que está disposto a prolongar a guerra o tempo necessário para eliminar uma “ameaça existencial representada pelo regime do Irão”.
O líder supremo do Irão morreu, o aiatola Ali Khamenei foi morto num ataque aéreo americano e israelita, juntamente com a filha, o neto, a nora e o genro. Algum povo, tanto no Irão como noutras partes do mundo, rejubilou com a morte do líder, mas acreditar que isto representará uma transição para uma democracia parece-me esperança a mais. Será mais um capítulo de violência e disputa pela soberania do país.
Sobre a justificação de ser um regime teocrático, a Arábia Saudita também o é. Por que será que os Estados Unidos da América não pensam também em libertar o povo!? Falta ainda referir a urgência em atacar o Irão num altura em que decorriam negociações e onde o Irão já tinha aceitado a condição imposta por Donald Trump de não produzir armas nucleares. Trump e Netanyahu não podiam perder a oportunidade de aniquilar Khamenei. Donald Trump quer controlar o Médio Oriente e atacando o Irão fragiliza também a Rússia e a China. Com tudo isto, já ninguém fala de Nicolas Maduro, da Gronelândia e do caso Epstein, o caso onde Trump tem a desfaçatez de afirmar ser o único inocente, apesar das dezenas de imagens e vídeos que provam provavelmente o contrário. Que ele manda na América está visto, que quer mandar no mundo é uma evidência. Deste lado do atlântico, os “fracos” líderes europeus pouco ou nada dizem ou fazem. Só falta mesmo atribuir-lhe o Prémio Nobel da Paz.
Por terras de Portugal o assunto veio fazer esquecer a crise provocada pelo temporal que arrasou a zona de Leiria e inundou a zona de Alcácer do Sal, e nem Passos Coelho conseguiu ser manchete mais do que dois dias nas televisões, depois das suas declarações terem incendiado o PSD. Não se percebe este aparecimento de Passos Coelho, criticando o governo por ser pouco reformista e dizendo que o mesmo devia ter feito um acordo de legislatura com o Chega e a Iniciativa Liberal. Será que Passos está à beira de ficar desempregado e quer voltar à política!? Ele sabe que tem muitos seguidores desejosos do seu regresso e um deles até é o líder da oposição, mas pensar que poderia voltar agora parece-me um disparate. A menos que algum parágrafo da Procuradoria-Geral da República pudesse fazer Montenegro demitir-se, como em tempos aconteceu a António Costa.
O PCP já veio condenar o ataque e insistir para que o governo tome uma posição sobre o mesmo e impeça os Estados Unidos da América de usar a Base das Lajes nos Açores. Servisse a Base das Lajes para apoiar os amigos Russos contra os malfeitores dos Ucranianos, e a posição do PCP seria evidentemente oposta.
Com a guerra, até Marcelo Rebelo de Sousa e António José Seguro ficaram esquecidos. Em condições normais todas as televisões andariam com Marcelo nesta última semana em funções, nos últimos abraços e beijinhos do Presidente do povo. Quanto a António José Seguro, discreto como é, deve estar a agradecer terem-se esquecido dele, mas obviamente que continua a trabalhar na sua futura missão. Alguém não se esqueça de lhe lembrar que no dia 9 toma posse como Presidente da República!
Crónica publicada na edição 520 do Notícias de Coura, 10 de março de 2026