terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Segunda volta

Depois de mais de um ano de campanha eleitoral para as eleições presidenciais, vamos ter, tal como era previsível, mais três semanas de espera.

Quando em novembro de 2024 Pedro Nuno Santos afirmava que António José Seguro era “um grande quadro do Partido Socialista e que os militantes do PS tinham muito apreço por ele”, estava longe de imaginar que isso seria o gatilho que faria despertar nele a vontade de avançar. António José Seguro viu nas palavras do ex-líder do partido um “descuido” que não poderia deixar de aproveitar, mais do que vontade de ser Presidente da República, tinha a oportunidade de colocar o partido entre a espada e a parede, depois da maldade que António Costa lhe tinha feito em 2014. E se bem o pensou, melhor o fez. O PS tardou a declarar-lhe o apoio, ainda assim, acredito mesmo que muitos dos militantes fizeram já na primeira volta aquilo que os comunistas fizeram em 1986 com Mário Soares, taparam os olhos e colocaram a cruz em Seguro. E de repente, António José Seguro que se candidatou para fazer pirraça ao PS, vai ser Presidente da República. Embora sem ter feito uma campanha entusiasmante, foi de longe a mais séria e à altura daquilo que deve a postura do mais alto magistrado da nação.

André Ventura, aquele que aparecia como vencedor em quase todas as sondagens, fica-se pelo segundo lugar. Disputar a segunda volta é um grande feito para um candidato de um partido que nasceu há pouco mais de seis anos. Já se autoproclamou líder da direita, e vai decerto passar estas três semanas a “berrar” pelos votos da direita. Já começou por dizer que Seguro representa o regresso de José Sócrates, António Costa e Eduardo Ferro Rodrigues. E como não acredito que nem a IL nem a AD lhe declarem apoio, não demorará muito a despir o fato de moderado que vestiu nas últimas duas semanas e a utilizar argumentos baixos na campanha eleitoral. Ou Luís Montenegro suaviza a sua governação, ou vai ter a vida muito difícil na Assembleia da República.

Gouveia e Melo partia como o favorito, numa corrida que se anunciava praticamente como decidida. Correu mal, bastante mal. Para quem se anunciava como “fora dos partidos”, tinha gente a mais dos partidos à sua volta.

Marques Mendes teve um resultado desastroso. Passou os últimos dez anos como comentador político nas noites de domingo, substituindo o anterior comentador, Marcelo Rebelo de Sousa. Desta vez a televisão não conseguiu produzir outro Presidente da República.

João Cotrim de Figueiredo fez uma campanha que espelha bem aquilo que o país gosta, confusão e mexerico. Lançou suspeitas sobre Marques Mendes, colocou-o à luta com Gouveia e Melo e saiu de fininho. Rodeado de jovens quase chegava à segunda volta, tropeçou na última semana quando achou que devia piscar o olho ao eleitorado do Chega e reclamar o apoio da AD, sugerindo a Luís Montenegro que apoiasse a sua candidatura. Este apelo ao voto útil acabou por ajudar ainda mais António José Seguro. Quando é necessário sacrificar os ideias e votar de forma útil, a esquerda nunca falha.

Por fim, Manuel João Vieira! O candidato que só desistia se ganhasse e que prometia vinho canalizado em todas as casas, obteve mais de sessenta mil votos ficando à frente do candidato oficial do Livre, Jorge Pinto. Foi destaque no jornal britânico The Gaurdian onde terminava dizendo “Se as pessoas querem apostar no absurdo, que apostem pelo menos no absurdo e no surrealismo dos seus sonhos e desejos. Isso é das coisas mais honestas que existem”.


Crónica publicada na edição 517 do Notícias de Coura, 27 de janeiro de 2026



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Rescaldo de 2025

Chegou ao fim mais um ano. Nesta altura não é difícil arranjar tema para a minha crónica, basta selecionar meia dúzia de assuntos do ano que passou e tecer umas considerações genéricas. Podia também dedicar-me a enumerar alguns desejos ou previsões para o novo ano que agora começa, mas atualmente, já nem os habituais Zandigas* têm capacidade de adivinhar o que o futuro nos trará. Escrevo esta crónica na manhã do dia três de janeiro, acompanhando em direto em vários canais de notícias a intervenção militar dos EUA na Venezuela. Parece que Trump decidiu libertar a Venezuela do ditador Maduro. Esta sensibilidade americana já vem desde 1904, quando o Presidente Roosevelt declarava que os Estados Unidos tinham o direito de intervir nos países que tivessem “má conduta”, independentemente da sua soberania. Portugal nunca teria tido tantos anos de ditadura se estivesse localizado na América do Sul, os americanos tinham arrumado com o Salazar num instante. E se Portugal fosse rico em petróleo, então ainda teria sido mais rápido!

Vamos lá então a algumas das coisas que ficam do ano de 2025.

Trump tomou posse em janeiro. Disse que acabaria com a guerra na Ucrânia com um telefonema, não disse é que seria no primeiro telefonema. Já humilhou publicamente Volodymyr Zelensky , já recebeu Vladimir Putin com passadeira vermelha no Alasca, já enviou um comissário para a Gronelândia para tomar posse do território. É o efeito das terras raras, territórios ricos em minerais valiosos. É por elas que Trump quer a Gronelândia e Putin quer a Ucrânia. Obviamente que também pretendem proteger os seus territórios, Putin não quer estar cercado de países da Nato, Trump tem medo da cada vez maior importância da China no comércio mundial. Com tudo isto, a China segue alegremente o seu caminho! Quase parece o Salazar, que manteve Portugal neutro durante a Segunda Guerra Mundial, vendendo volfrâmio a ambas as partes.

Morreu o Papa Francisco. O Papa que veio do fim do mundo trouxe à igreja uma imagem de carinho, boa disposição e compaixão que não deixava ninguém indiferente, independentemente de religiões ou crenças, o seu bom humor e a sua humildade foram um exemplo inesquecível e marcante para a humanidade. Nunca me esqueço das palavras de Francisco a uma turista brasileira que lhe pedia para rezar por eles. Francisco ri e responde-lhe: “Vocês brasileiros não têm salvação, é muita cachaça e pouca oração!”

Boletins de voto confusos. Vamos ter eleições presidenciais em janeiro e ficámos a saber há uns dias que vão constar nos boletins de voto 14 candidatos, embora só onze tenham sido validados pelo Tribunal Constitucional. Diz a Comissão Nacional de Eleições que é um problema de prazos, não há tempo para imprimir novos boletins. Soube também agora que já em 2020 isto tinha acontecido. Nessa altura, Eduardo Batista também apareceu no boletim de voto embora só tenha conseguido 11 assinaturas. Imaginem só que se lembram desta brincadeira umas trinta ou quarenta pessoas!? Pode ser que desta vez a Assembleia da República se decida a legislar no sentido de impedir esta idiotices, dignas de um país do terceiro mundo. Se nada fizerem, e a saúde me permitir, em 2031 irão ver a minha cara nos boletins de voto!

Apagão em Portugal. Em abril Portugal ficou às escuras durante aproximadamente 10 horas. Os portugueses correram às lojas para comprar garrafões de água, as lanternas e os rádios portáteis esgotaram e muitas ruas encheram-se de crianças a brincar sem telemóveis. Sem Internet as pessoas viram-se obrigadas a fazer outras coisas, como ler, jogar às cartas e até falar umas com as outras! Foi inesquecível.

Gaza. É o genocídio do século XXI. Mais um acontecimento que devia envergonhar a raça humana. Sobre a postura de “quem acha que manda no mundo”, nem vale a pena comentar.

Um bom ano de 2026 a todos!



* Deixo esta nota às gerações mais jovens que podem nunca ter ouvido esta expressão. Zandinga foi um vidente que trabalhava para o F. C. Porto na década de 80, associado a ritos e superstições, dizia-se que enfeitiçava a relva para influenciar os jogadores, e fazia previsões que raramente se concretizavam.

Crónica publicada na edição 516 do Notícias de Coura, 13 de janeiro de 2026